Kimochi Warui é o novo EP de Ghost Wavvves

[TEXTO] Alexandre Ribeiro [FOTO] Direitos Reservados

“Mais club, mais dançável, mas pesado e real”. De Ketamine para Kimochi Warui — o novo EP –, Ghost Wavvves atira-se para o centro da pista, mas não deixa de olhar por cima do ombro. O projecto sai com o selo da Moriko Masumi, editora criada pelo produtor algarvio.

A cultura asiática continua a ser uma inspiração: um diálogo de Neon Genesis Evangelion, série de anime, está, segundo o autor, directamente ligado ao título do novo trabalho, que é composto por três faixas novas: “Mortis Club”, “Savage” e “Devil In Me”.

Estivemos à conversa com o André Miguel que nos falou do novo EP, da netlabel que criou recentemente e do álbum de estreia — que está previsto para sair ainda este ano.

 



Continuas associado a um universo muito específico — claramente influenciado pela cultura asiática. Para começar, explica-nos o que significa Kimochi Warui e como é que esse título se relaciona com as músicas do EP?

Devido à barreira da língua e da diferença de alguns conceitos e palavras que não usamos cá, é difícil traduzir exactamente o que significa, mas está directamente ligado a um mau feeling, como algo que tu achas nojento e que não te faz sentir bem por alguma razão. A escolha da frase “Kimochi Warui” para título do EP também está directamente ligada a um diálogo em Neon Genesis Evangelion, provavelmente a minha série de anime favorita. Achei que essa parte em questão e a sonoridade que criei nestas três faixas poderiam estar relacionadas de algum modo com o título.

O teu ritmo de lançamentos é assinalável: editaste um EP em Junho do ano passado, novo single com o Woner em Janeiro, faixa na nova compilação da Monster Jinx que saiu esta semana. De Ketamine para Kimochi Warui: o que é que estes conjuntos de faixas têm em particular? Como é que é o teu processo de selecção de temas para os teus EPs? É aleatório ou existe sempre uma narrativa?

Este EP em relação ao Ketamine, apesar de serem filmes diferentes na minha cabeça, partilham um pouco do mesmo feeling de escuridão e mistério ao qual foram submetidos quando comecei a produzir os mesmos. Não sei, é complicado, outras cenas nos meus registos são o oposto deste tipo de trabalhos — e estou tranquilo com isso. Tenho faixas que retratam o quão bem eu me sinto com o mundo, e quão fixe é fazer um cross entre good vibes e consolas/animes mas lá está: não consigo sentir a mesma coisa todos os dias, e isso é automaticamente reflectido quando estou a escrever músicas. Por vezes, só quero fazer algo, como necessidade de expressão, outras vezes tento criar uma narrativa própria nos meus trabalhos, e na própria faixa em si. No Ketamine fiz exactamente isso, uma história inventada na minha cabeça, inspirada num filme de Gaspar Noé, mas que se calhar acabei por confundir com eventos reais da minha vida, e foi assim escrevi aquelas faixas. Com este EP misturei um pouco da mesma onda, mas numa linha mais club, mais dançável, mas pesado e real. Espero fechar agora um ciclo com este EP e começar outro novo com os meus próximos trabalhos, nomeadamente o meu álbum de estreia que provavelmente vai estar cá fora este ano.

Cobweb foi o primeiro projecto na tua nova label, que começou a editar sem qualquer tipo de anúncio. Qual é o teu objectivo com a editora e o que é que podemos esperar para 2018?

Na verdade, o primeira release da Moriko Masumi esteve a cargo do Mind Safari, que lançou um EP chamado Secrets Of The Metaverse com um tema original e um remix. Em segundo lugar foi o Cobweb do meu amigo Dead End e agora é a minha vez com o Kimochi Warui. Para ser sincero, não existem grandes objectivos para já, sem ser lançamentos de boa música. A Moriko Masumi poderá ser vista como uma netlabel dos dias de hoje, mas, ao fim do dia, representa um espaço que criei apenas com a finalidade de eu lançar o que quiser, seja trabalhos meus ou de pessoal amigo que está na scene comigo e que também percebe a minha ideia e a minha visão. E isso é fixe. É um espaço fixe com música fixe de gente fixe. Existem alguns trabalhos agendados para 2018, mas não vou revelar para já.

Também tens trabalhado de perto com o Woner, um artista que encaixa particularmente bem nas tuas produções. Sei que estão a preparar um disco, mas o que queria realmente perceber é se em Portugal tens trabalhado com mais MCs e se existe alguém “novo” que te cative particularmente? 

Para te ser sincero, não. Não oiço muito rap nos dias de hoje e o pouco que oiço raramente é rap português. Sem qualquer tipo de ofensa, mas consigo contar pelos dedos o número de rappers ou MCs portugueses que me possam cativar seja em que sentido for. E é óbvio que temos coisas muito interessantes e que podem estar ao nível de qualquer artista lá fora, mas, não sei, normalmente a sonoridade não costuma ir ao encontro do que eu gosto de ouvir e, na maior parte das vezes, os próprios temas não me dizem nada e são cringe, assim como outros elementos. São gostos, acho eu. Portanto, nesse aspecto, pelo menos a nível de rappers, tenho trabalhado um pouco com os mesmos. Um álbum novo com o Woner está a ser feito muito lentamente, e tenho uma faixa com o Mike El Nite — co-produzida pelo No Future–, que fechámos mesmo há uns dias. Está super dope e vai sair no meu álbum daqui a uns tempos.

Novo EP e live show novo. Quais são as mudanças que estás a preparar para os teus espectáculos ao vivo? 

Bem, acho que a mudança principal é mesmo o facto de ser um concerto com material 100% meu. Faixas novas, faixas antigas, experimentar merdas ao vivo com o meu material. O meu percurso ao vivo até agora tem sido sempre no formato DJ set, por isso estou cheio de pica para esta nova fase ao vivo.

 


Ghost Wavvves - Kimochi Warui