Freddie Gibbs // Freddie

[TEXTO] Moisés Regalado

Numa altura em que Dave East ou Joyner Lucas se distinguem dos seus pares por inventarem menos e, ainda assim, fazerem mais e melhor que os outros, não será despropositado lembrar que Gibbs foi um dos primeiros a conquistar essa mesma fatia de ouvintes. As edições oficiais que preenchem o seu currículo nunca o impediram de brincar com os beats dos outros (ainda se lembram de “No More Cocaine Parties In L.A.”?) e, apesar das malhas do trap serem a sua rede de segurança, não há liricista vivo que lhe possa apontar defeitos. A revolução é um processo gradual e Freddie Gibbs, tão conservador quanto futurista, ainda vai fazendo a sua parte — “I turn that bando to a dope house, bitch, I renovate”.

A missão de superar You Only Live Twice adivinhava-se difícil. O projecto com que Freddie Gibbs brilhou há apenas um ano ainda está presente na memória de todos, já para não falar em Piñata, e, apesar de não haver impossíveis quando o interveniente é “só” um dos mais distintos rappers em actividade, todo o brio é pouco na hora de suceder a discos que juntaram o melhor Gibbs de sempre a produtores como BadBadNotGood, Kaytranada ou Madlib. Freddie, o seu novo EP (mixtape?), mantém a postura irrepreensível de Gangsta Gibbs e continua a distingui-lo daqueles que falam sobre violência e narcotráfico por mera opção criativa, mas a produção leva-o numa direcção paralela à dos discos anteriores.

O ponto de partida estético mantém a identidade de Gibbs mas houve um esforço notório, mesmo que inglório, para superar o passado. Kenny Beats juntou-se ao rapper na produção executiva e juntos conseguiram levar a cabo um projecto muitíssimo bem pensado e estruturado, com bridges e refrões abundantes a ditar o tom de Freddie, repleto de verdadeiras canções rap. Os instrumentais de “Toe Tag”, “FBC” ou “Set Set” provam que Kenny é uma promessa a ter em conta, pronto para trabalhar com os melhores. A desilusão acontece quando se percebe que os pontos altos do álbum estão nas mãos do jovem produtor e que Eric Sandoval, RichGains ou mesmo Kane (alter-ego de Gibbs enquanto beatmaker) não conseguem manter o nível.

A disparidade de momentos como “FLFM”, seguramente um dos piores em toda a carreira do veterano MC, ou “Diamonds 2”, digno de tanto reconhecimento quanto possível, destapa as fragilidades de Kenny, é certo, mas principalmente de Freddie Gibbs, máximo responsável por todos os aspectos deste seu trabalho. Há esforço e competência, skill e dedicação, porém em quantidades insuficientes para fazer brilhar o génio do rapper, talentoso como poucos mas discreto como tantos outros. Se, algum dia, este OG ambicionou o topo da pirâmide mainstream, o objectivo está mais longe que em qualquer outro momento da sua carreira. O “rap para rappers” (e traficantes) ainda domina o vocabulário de Fredrick Tipton, que vive, cada vez mais, apenas e só disso mesmo.

Aos 36 anos, Gibbs ainda entra na cabine para gravar takes de dezasseis ou trinta e duas barras, nunca para fazer colagens ou experiências não confirmadas pela comunidade científica. O seu público não anseia por novidades com potencial para o club mas o carro de vidros abertos e o pátio do bairro servem perfeitamente. Ouvir em casa, com o volume moderado, é que não: com ou sem produções de qualidade indiscutível, ninguém chega aos seus calcanhares quando é hora de ser introspectivo em voz alta. Freddie Gibbs, felizmente, continua a não ter os pés assentes na terra, porém a cabeça na lua não é característica que o diferencie. Daí que Freddie, mais ou menos conseguido, seja tão obrigatório como qualquer peça do seu percurso.

 


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