[Fotogaleria] Os Sons do Gueto passaram pelo Institute of Contemporary Arts de Londres

[TEXTO/FOTOS] Ricardo Miguel Vieira, em Londres

 

“A história da batida compara-se à do grime no Reino Unido”, questionam da plateia do Cinema 1 do Institute of Contemporary Arts (ICA), em Londres. Acabou de estrear há minutos na grande tela Sons do Gueto, documentário para memória presente e futura sobre os ritmos dos bairros invisíveis de Lisboa. O filme foi realizado pela dupla britânica Tim & Barry da Just Jam, plataforma dedicada à divulgação de música underground, e a apresentação oficial esgotou a sala composta por quase duas centenas de lugares.

A pergunta vem no seguimento de uma afirmação de DJ Marfox revelada no documentário. Esta estabelece a batida como o grime dos guetos portugueses, paralelismo que se prende ao ouvido dos ingleses. O grime também nasceu nas franjas da capital britânica, inflamado pela segregação afro-caribenha e por uma juventude forçosamente à margem da vida na Big City. Mas tal como agora se assiste na Europa, a integração também não passou (nem passa) por Londres pelo que estas composições sonoras urbanas explodem em ambientes afavelados. É como o baile funk no Brasil. Ou o gqom (pronuncia-se “gome”) em Durban, África do Sul. Aconteceu o mesmo com os poliritmos da África portuguesa pós-colonialista, inventados pela irreverência de quem cresceu na periferia da sociedade. Grime e batida, ambos com ADN de manifestações sonoras danceclub, são acima de tudo linguagens de expressão de gerações desprivilegiadas.

Num prisma exterior às arquitecturas e até motivações sonoras, a verdade é que a cidade de Londres partilha importantes créditos no percurso de consolidação da Príncipe Discos e dos ritmos dos guetos de Lisboa. Ao longo dos últimos quatro anos, grande parte dos artistas da editora actuou em palcos da capital inglesa e, de algum modo, editou em labels nativas à cidade. São exemplos a série Cargaa da Warp Records; e Revolução 2005-2008 (Boomkat Editions) e Lucky Punch (Lit City Trax) do expoente Marfox. DJ do Gueto, o álbum de estreia de DJ N.K., também saiu há um par de semanas na mesma Lit City Trax de J-Cush. Agora, com o documentário Sons do Gueto, Londres volta a ser o centro de amplificação das produções tingidas de tarraxo, kuduro, afro-house e tribalismos contagiantes.

As gravações de Sons do Gueto decorreram durante o verão passado, embora a ideia inicial tenha surgido bem mais cedo, em finais de 2012. O filme de 45 minutos abre as portas para o mundo destes cientistas da música: das noites transpiradas e agitadas no Musicbox, que acolhe há 10 anos a residência mensal da Príncipe, para os bairros onde escapam dos carros e quartos estes sopros africanos. As entrevistas aos pioneiros Nervoso e Marfox, mas também a jovens produtores como Firmeza, contribuem para um retrato abrangente sobre a emergência destas composições tropicais. O enredo de Tim & Barry une vértices pela contextualização social, económica e cultural de uma música de dança que tem crescido em ouvintes um pouco por todo o globo, mas que ainda reclama o seu espaço na agenda cultural portuguesa.



A exibição de estreia de Sons do Gueto coincide com o lançamento da primeira compilação colectiva da Príncipe, Mambos Levis d’Outro Mundo. O disco é composto por 23 músicas produzidas por artistas da casa, e outros que agora começam a surgir em cena, e na recepção do ICA fez-se fila para adquirir uma cópia em CD. Embora não esteja implícito na sua divulgação, a verdade é que Mambos Levis surge uma década depois de DJs Do Guetto Vol. 1., um disco-duplo lançado por vias digitais obsoletas que permanece como primeiro vestígio das explorações da agora família principesca.

A celebração da música do gueto no ICA segue do cinema para o palco com sets de DJ Noronha (Blacksea Não Maya), DJ Nigga Fox (em estreia no Reino Unido) e Nidia Minaj. A sala é semelhante a uma cave nocturna, destacando-se os panos brancos pintados com a cover art de todas as edições da Príncipe, assinadas por Márcio Matos. A dividir o palco da plateia está uma tela semi-transparente onde são projectadas imagens de Sons do Gueto que enriquecem a experiência das batidas em rotação.

Noronha é o primeiro na mesa de mistura, acolhido pelo entusiasmo de quem ainda agora conheceu esta batida e por quem já a conhecia e há muito aguardava o regresso dos príncipes para uma celebração em Londres. Nigga Fox, o segundo no alinhamento, soltou um set intenso, com variações entre os ritmos kudurados mais convencionais e transmutações techno que assina nas suas produções – o mashup “Sound of the Police” de KRS-One é incrível. Nidia Minaj, com um set mais rebelde, de faixas pontuadas por samples pop, como Drake ou até Boss AC (este último simplesmente genial), encerrou o evento, já o relógio assinala um novo dia.

No final da noite, Sons do Gueto resiste como uma das mais importantes referências sobre a história da batida. Com os bilhetes esgotados à entrada para mais uma visita da Príncipe a Londres, não faltam indicadores de que a música produzida nos arredores lisboetas atrai cada vez mais público um pouco por todo lado. Se não em Lisboa, na capital britânica.

 

Ricardo Miguel Vieira

Escrevo umas linhas em revistas e sites. Cultura, música, activismo, DIY, surfing são o meu universo. Se não me encontrarem por aí de headphones entre orelhas é porque estou algures no oceano.