A filigrana onírica de Fennesz e Lillevan no Maria Matos

[TEXTO] Diogo Pereira [FOTOS] José Frade

Mahler Remixed estreou pela primeira vez no auditório Radiokulturhaus, em Viena, em Maio de 2011 (concerto gravado ao vivo e lançado em disco em 2014 pela Touch, casa-mãe britânica das vanguardas electrónico-ambientais), por ocasião da comemoração do centenário da morte do compositor austríaco Gustav Mahler, célebre pelas suas sinfonias do Romantismo tardio. Desde então foi tocado poucas vezes, nomeadamente no Carnegie Hall, em Nova Iorque, no Borusan Art Centre em Istanbul e ontem, em Lisboa, no Teatro Maria Matos, num concerto descrito como “uma reinterpretação de Mahler num concerto único que nos leva a sonhar”.

Foram, de facto, essas as três coordenadas principais da noite de ontem: a singularidade do projecto, o carácter onírico da música e, last but not least, a reinterpretação em detrimento da homenagem.

Foquemo-nos, antes de mais, no primeiro aspecto. Uma coisa é certa: Mahler Remixed não pode ser acusado de falta de originalidade, virtude que possui a rodos. Diferente de todos os seus congéneres, no que a homenagens e retrospectivas de compositores clássicos diz respeito, não foi, por exemplo, tão simples e directo como Shenzhou, de Biosphere, feito a partir de loops orquestrais de Debussy repetidos ad infinitum.

 


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Aliás, não se pode dizer que tenha sido uma homenagem, porque não foi esse o mote. Os samples de Mahler foram, então, um ponto de partida, se tanto. Porque a música, esta música, é muito mais do que isso, e pertence inteiramente a Fennesz por direito próprio.

O guitarrista vienense recorreu, com efeito, a samples das sinfonias de Mahler (porventura a mais notória é um pedaço do famoso Adagietto da sua Quinta Sinfonia), mas a verdade é que a obra do compositor romântico estava irreconhecível no meio da mescla sonora rica e maravilhosa que nos foi oferecida para regalar os nossos ouvidos.

O que não é surpreendente para Fennesz, habituado a manipular originais até se tornarem irreconhecíveis (Plays, que inclui covers altamente distorcidas dos Rolling Stones e dos Beach Boys, atesta-o vividamente).

Na verdade, ouvimos um pouco de tudo esta noite: ouvimos Endless Summer, ouvimos Venice, ouvimos Bécs, ouvimos Plays, ouvimos Mahler. Ouvimos ruído lado a lado com melodia, ambient e noise, eletrónica e música clássica, rock pesado e dream pop, convivendo em alegre harmonia.

 


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Todos os ingredientes inimitáveis da sua música estiveram presentes: os drones insistentes, as ondas de white noise, os artefactos glitch, as melodias delicadas em loop, os riffs de guitarra pesada afogados em reverb e volumes copiosos de estática e distorção.

Por raras vezes, o compositor austríaco oitocentista emergiu do seu túmulo e fez-se ouvir em breves loops orquestrais majestáticos de sopro, cordas e coros operáticos, para voltar a ser submerso em ondas de drone e estática meros segundos depois.

Às vezes, a música adquiria uma intensidade tal, em volume e emoção, que parecia engolir a sala inteira, e abraçar-nos a todos e fazer-nos esquecer de todos os problemas e sonhar. Outras vezes, escondia-se atrás da subtileza dos seus glitches e evoluía mais lentamente. Outras vezes a guitarra eléctrica assumia o protagonismo e voltávamos ao território de Venice. Mas sempre com verve, graça e autenticidade.

Além disto tudo, foi também possível ouvir “Liminality”, peça original do seu Bécs, de 2014, um dos pontos altos da noite, com o seu épico e inesquecível riff de guitarra de fim-do-mundo ao qual se juntaram enormes ondas de estática que envolveram a sala toda numa atmosfera sonora de apoteose extática à qual palavras não fazem justiça.

 



Na folha de sala, Pedro Santos, programador do evento, descreveu-nos assim a obra a que assistimos:

“Dividido em quatro partes, Mahler Remixed é um mar de hipóteses, com o legado sinfónico a ser alargado e contaminado por um ambientalismo épico no qual ecoa e dança uma miríade de sons, rasgos de luz, pedaços não identificáveis, ou fragmentos empoeirados vindos de mundo reconhecível e amado. Aos poucos, a citação desaparece e sobram apenas sombras que se vão agigantando na nova partitura, como se Fennesz estivesse a acordar algo há muito entorpecido.”

Foi isso mesmo que se ouviu ontem à noite. Um “ambientalismo épico”, nas dimensões, na abrangência e no alcance da sua música e das sensações e da imagética que evocou, explícita e inconscientemente.

E diz-nos o seguinte acerca do processo de trabalho do compositor vienense:

“Matéria-prima reconvertida e filtrada por mecanismos de electrificação e centrifugação que nos devolvem belíssimas arquitecturas inesperadas, repletas de nódulos ruidosos mas também planos e geometrias exactas. Muitas vezes, o tal som “Fennesz” é justamente a convivência desses dois opostos, que tanto nos inquietam pelo choque, como nos maravilham pela união.”

Afinal, para Fennesz, o ruído não é um artifício, é apenas um elemento estético, no qual ele encontra beleza, como confessou em entrevista a Jacob Cooper, do Carnegie Hall:

“Noise is not something I use to shock, or because it’s funny or weird. I use it because I find it beautiful.”

O setup foi simultaneamente previsível para um concerto de electrónica dado por um músico de laptop, e épico pelo seu acompanhamento visual: Fennesz, atrás de uma alta bancada preta, uma mão a controlar o portátil, com que manipulava os sons em tempo real, no software Max/MSP, outra a segurar a guitarra, a sua Fender Stratocaster, ia lançando as suas distorções enquanto Lillevan, ilustrador e artista digital alemão, e seu colega de armas, pintava a enorme tela atrás de si com o perfeito complemento imagético para as composições abrasivas do guitarrista austríaco: cores vivas, ambientes alucinógenos e etéreos, tessituras granulosas, envoltas em sonho e mistério.

As imagens de Lillevan forneceram o complemento ideal para a música de Fennesz, análogas não só nos processos de feitura (também o corte e a colagem, o glitch e o noise visuais) como no seu carácter abstracto, onírico e alucinante. Levou-nos numa viagem vertiginosa por todo o espectro de cores, desde o dourado até ao azul cobalto e o vermelho vivo, sensações, do sonho à maravilha e ao êxtase, e paisagens, do mar revolto às nuvens do céu.

Gotas de chuva plangentes. Pó de ouro resplandecente. Gigantescas nuvens de fumo. Película em grão. Superfícies de água a borbulhar. Rasgos expressionistas e arrojados de tinta azul e vermelha salpicados no ecrã. Lamas e líquenes fantásticos. Viscosidades alienígenas. Ondas do mar. Céus ominosos. Faíscas no escuro a cintilar como pirilampos na noite mágica.

 


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O adorno visual perfeito para a filigrana finíssima que é a música de Fennesz, uma tapeçaria diáfana, delicada e complexa, urdida a partir de fragmentos de luz refractada e poeiras sonoras vagamente reconhecíveis.

O concerto, curiosamente, embora com os seus momentos de violência e arrebatamento, começou e acabou com serenidade, embalando os nossos ouvidos com camadas de um drone insistente e relaxante, devolvendo-nos paz interior.

Na verdade, é difícil escrever sobre música tão abstracta e bonita como esta pelo que o trabalho do repórter aqui é mais sonhar e sentir do que ouvir e descrever.

E não haja dúvida que esta música me fez sonhar. Sonhei com o futuro, com tempos melhores, com pura felicidade, com paisagens encharcadas de sol, com levitação e fuga, com passear nas nuvens, com família e amigos, com o Endless Summer do próprio Fennesz, ontem feito à imagem dos meus sonhos. Com a redescoberta da inocência e da esperança. Algo que só a melhor música (sobretudo a ambiente) nos pode fazer.

Uma noite para guardar, na memória e no sonho. Para sempre.

 


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