Quem és tu, Jamal Moss?

[TEXTO] Diogo Santos [FOTO] Direitos Reservados

Na casa de uns tios em segundo grau, em Chicago, o jazz e os blues entraram-lhe pelos ouvidos. Aos 12 anos, a mãe reaparece-lhe e é assim que os fins de semana de Jamal começam a ser preenchidos pela cultura de rua, pelos passeios de BMX, pelas festas nas caves e em clubs como o Medusas, o Limelight, etc. Pois, o jazz, por esta altura, já era outro. E nem era hip hop. Nem reggae. Era house. E fora imenso rock, punk e pós-punk. Garoto ecléctico que procurava para além da espuma das ondas que abanavam a costa Este dos Estados Unidos da América, durante as décadas de 70, 80 e 90.

Foi sem-abrigo. Alimentou-se de sandes com maionese e açúcar. Mas rejeitou a cultura de gueto que muito associava ao hip hop. Foi em busca da sofisticação e de vídeos de ballet em bibliotecas. Quase maior e vacinado, decide-se por estudos antropológicos e etnográficos. Entra na universidade. E desiste. Estava, como todos os jovens adultos, em busca de qualquer coisa; a definir-se e a redefinir-se. Chocou de frente com as regras. Mas, sobretudo, com a cultura e com a ideologia impostas pela academia. O conforto, nesta altura, vinha somente das ondas hertzianas saídas da rádio da universidade de Northwerstern, que lhe levavam todos os tipos de jazz. À boleia de Sun Ra, a viagem para a infância junto dos pais adoptivos fazia-se no meio de alguma turbulência.

 



A dançar, Jamal entrou e abalou a cena do house. Não foi a promover, nem tão pouco a produzir música ou a rodar discos. Era aquela necessidade de estar em frente às cabines certas a aliar-se à falta de dinheiro para entrar nos locais certos. Os clubs precisavam de agitadores de festas. E Moss e os comparsas também queriam muito beber de toda aquela explosão criativa. Daqui até à distribuição de flyers e à promoção de festas foi um salto. Destes pequenos biscates – em que também se inclui receber dinheiro em troca de sexo – à organização de grandes eventos em nome próprio, foi somente outro passo de dança… Trabalhou no Colégio de Dança de Columbia precisamente quando alguns astros da arte cénica, chamem-lhe performativa se vos der mais jeito, se alinhavam: Kate Bush, Laurie Anderson, John Cage, Philip Glass. Um luxo. Fora DJ para a abertura de espectáculos destes e outros ilustres. E é mais ou menos por esta altura que, com a inspiração de Adonis e Steve Poindexter, Moss se inicia na criação de estruturas sonoras. DIY, claro. Em 1996, decide fundar a editora Mathematics e, com ela, uma identidade.

Com um final de década de 90 bem agitado, decide, tal e qual como todos os computadores, torradeiras e microondas, parar ali pelo ano 2000. Só que não. Nem Moss nem as máquinas se desligaram. Começou a utilizar algumas pistas de dança como laboratórios de investigação. Neste quase que espiritual regresso à escola, começou a testar novas composições e a colher as reacções daqueles corpos que dançavam à sua frente. Cola todos os estilos que lhe surgem no imaginário: jazz, industrial, ambiente, house, disco. E a coisa resulta.

Afinal, quem és tu, Jamal Moss? Hieroglyphic Being, I.B.M., Sun God ou o fundador da editora Mathematics. Fiel a Chicago. Estudante e estudioso. Fã dos que experimentam, dos que improvisam, e dos que ritmicamente o levam até ao passado dos passeios de BMX e das festas nas caves. Na ‘música de dança’ – cunho mais sem jeito, uma vez que tudo pode servir para abanar esqueletos e mentes – encontrou a família e a casa que durante décadas procurou.

Com mais de uma centena de discos editados e havendo anos em que mostra ao universo mais do que uma mão cheia de álbuns. E com recentes colaborações com algumas das mais importantes editoras, como a Ninja Tune, a Warp ou a Soul Jazz. Bem, para bons entendedores… Talvez The Disco’s of Imhotep, editado em 2016, seja um dos bons atalhos para a vida e obra de Jamal Moss. Em Julho, no palco Piscina do Milhões de Festa, em Barcelos, o mito estará em carne e osso a encabeçar o menu servido com o selo da Red Bull Music Academy. Em podendo, é mergulhar.

 


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