Ermo em temperatura comunitária e à escala global

[TEXTO] Rui Correia [FOTOS] Pedro Mkk

De Lisboa a Braga, foram muitas as horas de viagem de comboio para retornar a uma cidade que se mostra cada vez mais importante no panorama contemporâneo da música produzida cá no burgo. Nos últimos anos, Braga habituou melómanos a uma cuidada selecção na programação musical e a uma dedicação a projectos locais, como aconteceu com Ermo, numa residência artística no espaço GNRation em 2016 que lhes permitiu aprimorar a qualidade do seu mais recente disco Lo-fi Moda.

Encontrando-me já próximo do evento,  é visível da rua uma contra-cultura que se vive dentro e fora de portas no Projéctil, espaço acolhedor de diversos projectos artísticos, de convívio e de subversão no submundo de uma cidade aparentemente conservadora e que esta noite ofereceu, a quem quisesse ver, um dos filhos pródigos da casa. O palco do concerto foi a cave, numa preparação comunitária que colocou artistas numa relação de proximidade com o público, sempre irradiados por luzes intermitentes entre clarões de luz e escuridão total, num ambiente intimista, lembrando uma sessão Boiler Room (e porque não uma sessão oficial em Braga?). Fazendo jus a essa comparação, de facto, as temperaturas aqueceram muito rápido na sala, mal os Ermo se decidiram a iniciar sem cerimónias a apresentação integral do álbum Lo-fi Moda. Num set minimalista, identidade que os marca desde o início de carreira, é claramente a dinâmica do grupo ao vivo que sofre uma alteração profunda: frente a frente, Bernardo Barbosa e António Costa, praticamente irreconhecíveis numa indumentária negra e de máscara personalizada (um tipo de véu masculino), parecendo uma espécie de hackers sonoros, partilham agora todas as tarefas durante o concerto, algo que unificou e fortaleceu uma certa fragilidade (bem-vinda) que era mais evidente nos tempos do primeiro disco Vem Por Aqui.


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Os Ermo serviram uma lição importantíssima: humildemente, souberam resguardar-se para construir um universo de electrónica paralelo e surpreendente onde, ao vivo, a harmonia e contraste entre produção e voz são degustadas pelos ouvidos do público, seja quando somos puxados pela poesia sedada do grupo (caso da faixa introdutória “Vem Nadar ao Mar que Enterra” ou em “Entre Aspas”) ou quando somos levados a movimentos descontínuos do corpo pelo footwork exacerbado de samples milimetricamente desconectados a seu belo prazer (exemplo disso nos temas “Circle J” e “Contra”). De início ao fim, contemplo e reconheço na música dos Ermo um trabalho de descoberta interna e de uma linguagem única. Um som premeditadamente desumanizado preenche um espaço repleto de pessoas a serem desafiadas a reencontrarem-se perante um mundo compenetrado nas redes sociais onde é tão fácil fazer “ctrl + C ctrl + V” (faixa tão certeira esta dos Ermo nos tempos que correm).

O aplauso e consenso é generalizado no final da noite, relativamente à ascensão de um grupo que se soube reinventar mantendo uma identidade díspar. E isso é raríssimo seja em Braga, em Londres, Tóquio ou Nova Iorque. Augura-se um percurso auspicioso aos Ermo, que facilmente criarão empatia em qualquer lugar no mundo, fruto da sua versatilidade e modernidade com um passo evolutivo na utilização exemplar da língua portuguesa. Neste mar devíamos ir todos nadar e apoiar.


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