Equiknoxx // Colón Man

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[TEXTO] Rui Miguel Abreu

O que os Demdike Stare estão a fazer com os Equiknoxx não é radicalmente novo. Pode parecer estranho que uma celebrada dupla experimental ceda espaço no catálogo da sua própria editora a uma outra dupla que, a partir de Kingston, injecta modernidade no “dancehall continuum”. Mas, se recuarmos até ao já distante ano de 2001, encontraremos no catálogo da visionária Mo’ Wax de James Lavelle a compilação Now Thing, álbum em que o patrão dos Unkle se atirava de alma e coração à exploração do lado instrumental do dancehall, alinhando matéria prima de Ward 21, Slam Productions ou, sobretudo, do insuperável Lenky num agudo retrato da Jamaica pós-moderna.

As incríveis produções de Steven “Lenky” Marsden – e ele é o autor do eterno “diwali riddim”, samplado ou reutilizado por toda a gente, de Sean Paul e Rihanna, a Lumidee e Wayne Wonder – quando despidas da carga vocal revelavam uma inteligente e ultra-futurista visão, empurrando de facto a cultura dancehall para a estratosfera e reforçando a ideia de que esta é uma das mais agitadas e criativas cenas musicais orientadas para a pista do planeta e, portanto, uma das mais influentes.

Soará assim menos estranha a ideia de ter uma dupla de produtores jamaicanos a dividir espaço num catálogo com os próprios Demdike Stare, Micachu, Shinichi Atobe, Robert Aiki Aubrey Lowe ou Iueke. É que, tal como acontecia com o trabalho de Lenky, também as produções de Gavsborg e Time Cow (Gavin Blair e Jordan Chung), que já suportaram prestações vocais de Beenie Man ou Ce’cile, por exemplo, adquirem uma outra dimensão quando destituídas da cobertura de chantilly vocal que tantas vezes marca o moderno dancehall.

Colón Man, o álbum que a DDS acaba de lançar, é apontado pelos próprios Equiknoxx como a sua estreia a sério neste formato, com material produzido propositadamente com este objectivo, no arranque deste ano. Já Bird Sound Power, o trabalho que os revelou a uma nova audiência na Europa e que foi lançado o ano passado igualmente pela etiqueta da dupla de Sean Canty e Miles Whitaker, não era tanto um álbum no sentido clássico do termo quanto uma antologia de temas que os Equiknoxx tinham lançado de 2009 em diante e que a dupla britânica acreditou serem reveladores de um particular e extraordinário talento. Ou seja, material mais disperso em termos temporais, mas ainda assim detentor de um carácter muito distinto ao nível da produção.

 



O que Colón Man confirma a quem já conhece bem Bird Sound Power, portanto, é que os Equiknoxx têm uma vincada marca de autor, já que os temas resultantes das sessões do início deste ano não são assim tão demarcados das suas produções mais vintage. Haverá, talvez, um brilho digital mais pronunciado, um mais rico trabalho de minúcia nas misturas, revelado sobretudo quando se escuta Colón Man num bom par de auscultadores, mas os seus beats, construídos tantas vezes a partir dos mais inusitados samples, retêm a mesma inventividade de sempre, a marca que, em última análise, levou os Demdike Stare a endereçar-lhes o convite para estas edições.

Como se poderá perceber com dois produtores que elegeram nomes artísticos como Gavsbord The Foolmaker e Time Cow, o humor e o absurdo são recursos naturais no seu discurso artístico. E essa dimensão não se manifesta apenas em títulos tão deliciosos quanto “Kareece Put Some Thread in a Zip Lock”, “Your Ears Are Not Very Small”, “Sent for Ducklings Got Ducks” ou “Enter a Raffle Win a Falafel”, mas na própria escolha de sons com que erguem a sua original arquitectura rítmica: “Plantain Porridge” abre com uma voz desacelerada e o arranque soa ao que Daniel Lopatin poderia fazer numa das suas “eccojams”; e depois há a extrema variedade de sons percussivos – latas, portas, objectos dos mais variados, texturas metálicas avulsas, pássaros, o que soa a um piano empurrado pelas escadas abaixo, mecanismos de relógios, caixas registadoras, máquinas de escrever… – que parecem estar ali apenas porque o duo deve gostar de desafios: “como é que se faz um beat com este som?”

A verdade é que as programações rítmicas da dupla são extremamente avançadas, sofisticadas e denotam não apenas ousadia – afinal de contas estão, a maior parte do tempo, a produzir bases para o dancehall, que é suposto ter uma carga funcional com que os corpos na pista se possam relacionar – mas uma saudável liberdade e consequente desrespeito pelas regras da quantização, com poli-ritmos caóticos a invadirem os padrões cuidadosamente organizados, instalando o casos na subcave rítmica dos seus temas – “Your Ears Are Not Very Small” é um dos exemplos possíveis.

Por outro lado, os Equiknoxx conseguem a não tão linear proeza de estar permanentemente a olhar em frente sem, no entanto, se escusarem a espreitar o que o “retrovisor” lhes revela, fazendo, aqui e ali, subtis vénias ao glorioso passado da tradição dos soundsystems, como acontece, por exemplo, na brilhante “Melodica Badness” com a participação de Addis Pablo, nada mais nada menos do que o filho do lendário Augustus Pablo. A melódica usada por Gavisbord e Time Cow retém algum do seu código genético tradicional, mas ao mesmo tempo é manipulada e triturada sem apelo nem agravo, tornando-se em mais um recurso textural do que propriamente num motor melódico para o tema.

“Waterfalls in Ocho Rios”, gloriosamente estruturada a partir de sons de harpa e de sintetizadores que poderiam soar bem em qualquer produção new age de meados dos anos 80, equilibra de forma periclitante, mas extremamente bela, a sua componente melódica sobre uma corda bamba rítmica que ameaça fazer a ideia desabar a qualquer momento, mas sem que tal alguma vez chegue a acontecer. FKA twigs poderia soar muito bem em cima deste tema.

Colón Man é uma extraordinária colecção de ideias avançadas, altamente abstractas, estranhamente aditivas e plenamente reveladoras de um par de mentes inquietas e exploratórias, capazes de – praticamente sozinhas – recolocarem o dancehall no centro da vanguarda rítmica do planeta, ao lado da batida de Lisboa, do footwork de Chicago, do pós-dubstep de Londres, do gqom de Durban ou do que quer que possa estar a despontar em qualquer outro recanto deste multi-facetado planeta.

 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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