Enigmacru: “É um álbum mais negro”

[ENTREVISTA] Ricardo Farinha [IMAGEM] Sebastião Santana [EDIÇÃO] Rafael Correia

Foi no Porto que a dupla de Chek e Each — os Enigmacru, membros do colectivo Sexto Sentido, naturais da cidade — se encontrou com o Rimas e Batidas. Os dois tiveram as primeiras experiências e gravaram os temas de estreia há cerca de uma década, quando eram adolescentes, e o regresso era há muito esperado. Aconteceu quando em Fevereiro deste ano anunciaram que iriam editar um disco de originais, Emperfeito Equilíbrio, e revelaram o single “Aquilo Que Me Assombra”.

O novo álbum, uma edição de autor, chega no final de Setembro, tem 12 faixas com rimas e vai estar à venda em CD. Todos os instrumentais são produzidos pelos próprios, excepto três que são da autoria de Virtus, um dos principais rostos de Sexto Sentido. Falámos com o duo sobre o regresso e o novo trabalho.

 



Começaram como adolescentes há vários anos, agora estão a preparar o regresso com um álbum. O que mudou, ao longo deste tempo, na forma como vêem a vossa música? Têm uma perspectiva mais madura, querem fazer coisas diferentes do que faziam anteriormente?

[Each] As coisas estão sempre a alterar-se. Já passaram muitos anos desde essa altura. Só para perceberes, nós neste momento, em que acabámos este álbum, até já nos apetece fazer uma coisa diferente. Portanto, isso está sempre a acontecer, vemos [sempre] as coisas de maneira diferente.

O que diriam que mudou mais no vosso trabalho anterior em relação a este?

[Chek] Os temas, principalmente. Os beats estão melhores, agora fazemos as coisas com mais consistência, perdemos mais tempo. Acho que os temas estão um bocadinho mais adultos. Já não somos miúdos.

[E] Nós continuamos a falar sobre coisas que nos rodeiam, em relação à nossa vida ou em relação à perspectiva da vida vista pelos olhos de outras pessoas. Aquilo que nós víamos com 13 ou 14 anos não é aquilo que vemos agora com 24 e 25. Essa é a maior diferença e reflecte-se em tudo: nas letras, na maneira de escrever, nos temas, na exigência…

Há quanto tempo é que têm estado a preparar este álbum?

[C] Há dez anos [risos].

Têm coisas feitas desde essa altura?

[E] Este álbum fomo-lo gravar… ou seja, ele estava todo escrito e produzido há dois anos. Mas houve coisas que não usámos, coisas que não correram como quisemos. Demorou algum tempo por causa disso. Estivemos a fazer as coisas com calma e cabeça e a certa altura acabámos por ter pouca sorte.

 


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Ao longo destes anos em que estiveram mais ausentes, apesar de terem estado a trabalhar, sentiram as pessoas a pedir o vosso regresso?

[C] De início, sim, durante bastante tempo. Depois chegou uma altura em que já ninguém acreditava.

[E] “Então o álbum, pá?” “Está quase”. Depois se tu perguntas outra vez, passados dois anos: “o álbum?” “Está quase”. Se há dois anos estava quase e agora está quase outra vez, está mau… mas — por acaso não sou muito de sair à noite, mas, das poucas vezes que ia sair —, aconteceu encontrar-me com uma ou outra pessoa que vinha perguntar alguma coisa. E isso fez-me perceber que realmente havia pessoas que estavam à espera. E fico feliz por isso. Mas nada de mais. Um gajo está um bocadinho tapado, coberto, e isso tem as suas coisas boas.

Em relação aos temas abordados, neste disco criam personagens para contarem coisas que vocês sentem? Ou que outras pessoas sentem?

[C] É uma mistura. Normalmente durante algumas horas estamos os dois a falar, surge um tema, depois normalmente o que surgiu no início não tem nada a ver com o que é no fim. Porque falamos muito tempo, no dia seguinte voltamos a falar sobre aquilo e acrescentamos coisas, às vezes tem coisas nossas, e, aliás, nós gostamos disso. Mas muitas vezes é só uma personagem inventada, com características de pessoas que conhecemos ou que imaginamos.

[E] Assim dá-nos a oportunidade de nos colocar na primeira pessoa mas não ser só da nossa perspectiva. Ver a situação a partir dos olhos de outra pessoa, usar aquilo que nós sentimos para definir isso, mas também poder usar outros sentimentos que não temos e que achamos que outras pessoas sentem. Tentar-nos colocar no lugar delas é um bocadinho mais livre.

 



E assim também permite que o ouvinte se identifique mais. O objectivo também é esse?

[E] Sinceramente não penso muito no ouvinte, é a realidade. Penso no ouvinte porque vou ouvir e tenho que me trazer alguma coisa a mim também. A partir daí, é tudo aleatório, já me escapa ao controlo. Não quero ter nenhuma barreira ou imposição. Isso de certa forma limita um bocadinho a minha criatividade.

Em relação aos instrumentais, o que é que procuraram em termos de sonoridade trazer para este álbum? Coisas diferentes daquelas que gostavam há dez anos?

[C] Acho que está mais negro [risos]. A nível de sonoridade de géneros musicais, gostamos de quase tudo: jazz, clássica, fado, tudo o que não seja chunga [risos].

[E] Perde-se mais tempo a fazer as coisas, tentamos levar as ideias até ao fim, até ficarem mesmo como nós queremos. O gosto mudou ligeiramente em relação ao que tínhamos antes. Acho que não há instrumentais do mesmo género, pelo menos esforçámo-nos para que isso não acontecesse. Cada textura é uma textura, cada situação é uma situação. Não te vou falar de um sentimento negro da mesma forma que te vou falar de um sentimento neutro ou alegre. Cada coisa tem o seu espaço e foi isso que tentámos respeitar: nas letras, nos temas e nos beats.

Podemos dizer que a maioria do álbum gira em volta de sentimentos?

[E] Sim, embora a maior parte deles seja negro. Um bocadinho menos positivo. Por isso é que estava a dizer que, se fosse hoje, já não faria este álbum. Começava a fazer outro álbum, diferente, também por causa disto. Foi negro, agora vamos ver como serão as outras cenas para isto não nos afectar demasiado psicologicamente. É perigoso [risos].

Voltando atrás no vosso percurso, como foi que começaram a rimar? Foi logo no colectivo Sexto Sentido?

[C] Não, eu comecei a rimar para aí no sétimo ano, com uns amiguitos lá da escola, mas nada muito fixe. Depois mudei de escola, o pessoal lá também rimava, em Gaia, e continuei a rimar. Mais a sério foi quando conheci o Each e o pessoal que parava ali na outra escola, que já levavam a cena mais a sério, desde graffiti ao rap, toda a gente vivia aquilo e se dedicava.

[E] Comigo foi por volta do sexto ano, fazia umas letras para as raparigas de que eu gostava. Os meus primeiros raps foram esses [risos]. E nessa escola não tinha muita gente com quem partilhar essa cena. Depois, entretanto fui para o Infante, onde o conheci. Nesse ano havia pessoal que fazia breakdance, beats, que rimava… muita gente. E isso acabou por nos influenciar e por nos encaminhar, para nos dar pica. Com o pessoal de Sexto Sentido, eu já devia ter 16 ou 17 anos, foi um bocadinho mais tarde. Fomos conhecendo as pessoas e as coisas criaram-se naturalmente.

 


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As vossas maiores referências no rap português são do Porto?

[E] Não, depende das fases. Se calhar respondia-te a essa pergunta de uma forma diferente amanhã. Não foram sempre as mesmas, depende dos dias. Claro que o pessoal mais forte daqui sempre nos marcou, principalmente no início. Educou-nos, de certa maneira. Pessoal como Dealema — acho que é a referência mais sonante para nós. O Deau, mais até como pessoa que acompanhou o nosso percurso, porque nós também acompanhámos o dele, já nos conhecemos há alguns anos. De resto, as referências estão por todo o lado. E nem são só de rap e nunca foram. Sempre foram mais em relação a pessoas do que a pessoas que faziam música.

Vocês também querem representar o Porto, ter essa identidade regional, a zona como bandeira?

[E] Pelo menos conscientemente, não. Acho que não. Há uma coisa que de certa forma vai ter àquilo que estás a perguntar: eu acho que nós nos dedicamos a isto, tentamos levar isto a sério, só fazemos isto porque o queremos fazer. Há anos que não damos concertos. E o que é importante é a forma como as coisas ficam, a forma como nós escrevemos. A arte por si só. E acho que essa perspectiva nem toda a gente tem. De certa forma, levarmos as coisas assim pode dar a possibilidade de educar outras pessoas, como fizeram connosco. E isso é um pouco um objectivo que temos. De resto, as coisas não morreram [no Porto] e o pessoal continuou a fazer som. Simplesmente, não foi dada a atenção suficiente ou não calhou. As coisas não morreram, simplesmente estão ligeiramente diferentes daquilo em que eu acredito.

E no que é que acreditas?

[E] Eu acredito que fazer arte… quando vais escrever um texto ou dizer aquilo que pensas deves dizer só aquilo que pensas sem as outras coisas influenciarem o teu caminho. Acho que isso não acontece. A partir de certa fase, se isto começar a correr bem e uma pessoa começar a dar concertos, se o nosso trabalho passar a ser este vai influenciar o facto de precisares de dinheiro ao fim do mês e teres de pagar contas.

[C] Mesmo que seja inconscientemente, vai estar lá.

[E] E o que é importante é o que estás a fazer, o que estás a escrever e é isso que vai ficar na memória para sempre. É essa a obra que tu vais deixar no mundo. Tudo o resto vai contigo quando tu morreres. O importante é fazer pela música. E isso é fodido acontecer. Acontece-nos a nós porque temos a sorte de não termos sucesso [risos].

 


Ricardo Farinha

Ricardo Farinha

Jornalista. Colabora desde os 18 anos com várias publicações culturais — as rimas e batidas sempre foram inerentes à vida.
Ricardo Farinha