Enigmacru // Emperfeito Equilíbrio

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[TEXTO] Diogo Pereira

Cerca de uma década passou desde que os Enigmacru começaram os seus primeiros versos. Por isso, naturalmente, a questão que se coloca é: de que forma a dupla do Porto evoluiu em todos estes anos?

As canções que compõem o seu novo registo de estúdio são certamente menos lo-fi que os seus sons de início de carreira, como “Violência Gratuita”, “Vida vs Realidade”, “Crescimento” e “Três Pontinhos”, e têm uma estrutura muito menos convencional e muito mais imprevisível, e uma estética e um tom muito mais vincados. Na altura, ainda adolescentes, falavam do que pensavam e sentiam, mas não de forma tão intensa, distorcida, alucinada, lírica e sombria como agora.

Each e Check disseram-nos que este álbum é mais negro e não estavam a mentir nem exagerar. Emperfeito Equilíbrio é uma obra em que poesia e loucura, erudição e paranóia, convivem lado a lado. Na mesma entrevista, perguntámos-lhes se a maioria do álbum girava em torno de sentimentos. Mas a verdade é que o regresso dos Enigmacru é tão intelectual como emocional, tanto sobre os versos e as palavras como as emoções que os mesmos carregam.

Este é um álbum de letras, e como tal, tem muito para oferecer aos ouvintes, merecendo escutas repetidas: há metáforas para decifrar, duplos sentidos para descortinar e esmiuçar, verdade e ficção para destrinçar. A sua escrita é visceral, visual, surreal e simbólica, com afinidades não apenas com a poesia mas com o cinema.

 



E as suas letras fornecem-nos descrições vívidas, plenas de rimas complexas, hooks vindos do nada, metáforas, comparações, hipérboles e demais jogos de palavras, que esbatem a linha entre rap e poesia. A sua maior virtude é o seu à-vontade com a língua, patente na forma como brincam com ela. Muitos dos seus versos começam por um aforismo ou um dizer comum, que depois é virado do avesso:

“Fica no ar a dúvida de quem é mais estúpido

Se és tu por seres esperto ou eu por me fazer de burro”

Há aqui muitos momentos brilhantes e engraçados, de uma escrita que revela imaginação e gosto pelas palavras. E muitos versos memoráveis, com potencial para fazerem parte do hall of fame do rap português. Citamos alguns exemplos:

“Sou hipócrita como tu, um abraço, estamos juntos”

“Fazes figuras como um polígono que se torna quadrado para conseguir espaço no círculo”

“Saí da minha cabeça onde estava há cinco minutos, confuso entre a palma da minha mão e os meus punhos”

“Tinha tanto medo dos teus passos que estava a dançar sozinho”

“Ultimamente bebo ao ponto de o organismo substituir o suco gástrico pelo álcool que vai digerindo o meu estômago”

“Os lagos formados pela junção das pingas”

“Beatriz torceu-lhe a cara, não sei se isso me excita ou me magoa”

“Tão encharcada podia espremer-te o orgasmo das cuecas”

“Neste céu pouco limpo onde até o próprio sol é cínico”

“Somos tão diferentes que nem nisso eu quero que sejamos parecidos”

“Os sentimentos não têm nomes, têm significados”

 



Acima de tudo, os Enigmacru preocupam-se com a criação de um mundo próprio, diferente de todos os outros na galáxia do hip hop português. Um mundo de desgostos e desencontros amorosos, amor não correspondido, melodramas urbanos, toxicodependências, fluidos corporais, tempo perdido, dificuldades de comunicação, melancolia, psicoses, insónia, remorso, e sufoco mental, situado algures entre a paranóia delirante de Aesop Rock e Canibus e a alienação noctívaga de Burial, injectada com o horrorcore de Fuse, a demência de Kool Keith e o seu alter-ego Dr. Octagon, e um pouco da violência cartoonesca de Eminem.

 



Esse mundo é acompanhado de uma sonoridade igualmente negra, feita de simples melodias de piano sinistro e melancólico, guitarras de fado e violinos plangentes, em cima de batidas densas e pesadas que não saem do tempo médio.

Uma produção simples, sem grandes adornos (“suja”, nas palavras dos próprios), feita para dar ênfase às letras de Each e Check, e às suas vozes, familiares para quem ouve rap nortenho (uma mistura entre Mundo Segundo e Maze).

Não é a música a protagonista de Emperfeito Equilíbrio, um álbum de emcees, feito para escutar as letras e a voz de quem as canta. Sonora e liricamente, o ambiente é violento, urbano e sombrio (este não é, definitivamente, um álbum para nos levantar o espírito), sustentado pelo tom agressivo e paranóico dos trovadores, que oscila entre a intimidação, a loucura e o escárnio. Os rapazes sucedem em imergir o ouvinte nesse mundo, embora o álbum perca por não sair desse registo e pode tornar-se monótono.

Emperfeito Equilíbrio não é conceptualmente coeso, incluindo um misto de narrativas (“Morfologia das Consequências”, melodrama sobre uma prostituta toxicodependente menor de idade, “Aquilo Que Me Assombra”, relato amargo de uma relação em ruínas, a sucumbir ao ciúme, “A Versão de Júlio”, uma noite de engate que acaba em excessos, e que quase entra no horrorcore) e faixas soltas sobre sentimentos (“Vislumbres”, “Pensamentos” e “Triticum”), às quais se junta o hino de intervenção ambientalista “Desertificação”, que faz lembrar “O 5º Elemento” de Dealema. No entanto, mantém uma atmosfera coerente e empolgante, e consegue embrenhar-nos nela.

 



Mas é o storytelling que ocupa a maior parte do álbum, bem como os sentimentos negros dos dois emcees portuenses. Os Enigmacru (que parecem ser seguidos por aquela famosa “black cloud” que pairava sobre Nas em “The World Is Yours”) passam boa parte do tempo dentro das suas cabeças, e é para lá que nos convidam, para junto das suas neuroses, paranóias e muitos arrependimentos. Aliás, não foi por acaso que a sua música foi apelidada de “hip hop neurótico” pelo Público (e também não é por acaso que a capa lembra tanto as de Aesop Rock, como a de Labor Days, como a de Chris Hawkes para os Instrumentais de Inspector Mórbido, mostrando um homem preso por cordas, de martelo na mão, a tentar alcançar uma mulher que está já ali, cercado por ramos de uma floresta onírica).

“sotnemasnep” (que obriga o ouvinte a recorrer a software para inverter a faixa) contém o verso que talvez melhor defina a sua música:

“Quando ‘tou dentro da minha cabeça tento não ficar lá preso; às vezes fico tanto tempo que os cenários que invento acabam por apagar os argumentos”

O seu amor à língua portuguesa (“o vocabulário é contrário ao americanismo”), patente no seu sotaque cerrado que nunca escondem, o som da guitarra lusitana, e a boa e velha melancolia fazem deste um álbum de rap definitivamente português.

Poetas portugueses como Al Berto, Eugénio de Andrade (que é samplado no final de “Jardim dos Sentimentos”) e Miguel Torga são aqui invocados, bem como o lado mais horrorcore do rap (mas sem tanta violência) e a literatura fantástica, em versos carregados de sentimento, que usam a poesia como modelo estético e modus operandi.

“A Casa dos Quadros”, por exemplo, um relato estilo short story de Edgar Allan Poe, entra no campo do terror, uma história contada com uma notável minúcia, sobre um homem perseguido por recordações que assumem a forma física da paisagem que atravessa e dos objectos que a habitam.

 



Uma obra definitivamente old school, desligada de tendências actuais e clichés, e sem dúvida um disco de rap alternativo, Emperfeito Equilíbrio faz homenagem a outros tempos, aos tempos do hip hop enquanto arte, dos álbuns conceptuais, do culto do lirismo. É um álbum original que privilegia a escrita, feito de divagações filosóficas sobre a natureza humana, o destino, a alma e o pecado (como a canção de Fuse), a memória, o passado e o futuro, em que a linha entre ficção e realidade é sempre demasiado ténue e nebulosa para sabermos o que aconteceu e o que foi imaginado, o que foi inspirado por factos reais e o que saiu das cabeças do duo nortenho, o que é sujeito poético e o que é personagem, o que é, aliás, a sua intenção (“Não quero viver a vida dentro das minhas memórias, porque as coincidências transformam-se em paranóias”).

 



Com a sua mistura entre versos de battle e poesia, uma sonoridade crua e despida, a presença de scratch e ritmos boom bap, este disco mantém semelhanças e acusa tanto a influência de grupos do rap americano underground e alternativo como Zion I, Masterminds ou Arsonists como artistas do rap português, desde os vetustos Dealema (sobretudo o universo de Fuse) aos mais actuais Virtus e Nerve.

E merece ocupar o seu lugar na história do rap do Norte (o que os puristas chamam de “escola do Porto”), entre a militância beligerante dos Dealema e nomes mais recentes como Keso e Virtus.

Curiosamente, os Enigmacru têm tanto carisma como os seus colegas nortenhos Corona, mas apontam numa direcção diametralmente oposta: enquanto o grupo de dB procura o kitsch e o barato, Each e Check buscam o erudito e o poético.

Não se pode dizer que os dois rapazes inventaram a roda. Não são certamente os primeiros a usar poesia no rap (nota-se a influência de Dealema, na voz, no flow, no registo), mas, de certo modo, assumem-no mais declaradamente.

A sua produção pouco rica, que privilegia as letras sobre os instrumentais, e a repetição dos seus temas, impedem-no de se tornar um clássico, mas Emperfeito Equilíbrio é um gesto de coragem e originalidade artística que só por si já merece louvor, e uma presença meritória na dinastia do rap do Norte, que não fica atrás de Mind da Gap, Dealema ou Corona, homenageando as raízes do movimento a que pertence e apontando para o futuro.

 


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