DWART // Taipei Disco

[TEXTO] Rui Miguel Abreu

No seu tempo, os DWART (ou D.W. Art) de António e Manuela Duarte nunca foram além da edição de “Mate”, tema que integrou o segundo volume da compilação de Música Moderna Portuguesa lançado em 1986 e que resultava de material submetido pelos participantes do famoso concurso promovido pelo Rock Rendez Vous.

 



Os então nomeados D.W. Art constituíam até recentemente e por isso mesmo um dos grandes enigmas da agitada cena musical nacional da década de 80: “Mate” continha dentro suficientes ideias e uma proposta distintamente arrojada das dos seus pares para que fosse legítimo questionar o que teria acontecido ao grupo e, sobretudo, se mais material com as mesmas características teria então sido registado. A presente edição da Holuzam, segunda entrada no nascente catálogo da etiqueta operada pela Flur, resolve finalmente esse enigma.

António Duarte, autor do fundamental documento de 1984 A Arte Eléctrica de Ser Português, livro lançado pela Bertrand que se propunha a relatar a história dos primeiros 25 anos de rock em Portugal, foi um notável jornalista que após o 25 de Abril e na década que se lhe seguiu cobriu alguns importantes acontecimentos mundiais (da revolução iraniana aos conflitos armados que agitaram as ex-colónias após os processos de independência, incluindo ainda importantes peças sobre a ETA no País Basco e outros históricos momentos em locais tão diversos quanto a Namíbia ou o Brasil). Paralelamente, foi também uma importante voz no jornalismo musical português, tendo sido nessa qualidade colaborador do semanário Sete e co-fundador da revista Rock Week. Também fez rádio enquanto colaborador próximo de Rui Pêgo na Rádio Comercial, apresentador com quem, aliás, assinou uma das primeiras gravações de António Variações, efectuada na sua barbearia.

Amigo próximo de Jorge Lima Barreto — que até assinou o ultra-crítico prefácio de A Arte Eléctrica… –, António Duarte foi um dos primeiros sérios apoiantes dos Telectu, projecto que aliás serviu de inspiração aos seus próprios D.W. Art (a designação a partir do apelido familiar foi até ideia do já desaparecido musicólogo). Em 1985, instigados por Lima Barreto, os D.W. Art enviaram uma maquete para o Rock Rendez Vous que lhes valeu apuramento para a segunda edição do famoso concurso. “Mate”, incluído na supra-citada compilação, foi o prémio resultante de uma selecção que, no entanto, não teve mais consequências uma vez que o grupo não chegou a comparecer nas eliminatórias, opção que traduziu um protesto de António Duarte que sentiu que o seu grupo tinha sido descriminado pelos seus colegas jornalistas que integravam o painel do júri.

Em 1987, a carreira jornalística de Duarte valeu-lhe um convite para assessorar o Governador de Macau, cargo que o levou por mais de uma década a viver no Oriente, tendo a sua breve carreira musical ficado assim confinada a umas quantas memórias, sobretudo dos que ainda tiveram a oportunidade de ver e ouvir os D.W. Art numa das suas raras aparições públicas, normalmente em galerias, ocasiões em que costumavam apresentar o que eles mesmos designavam como “explorações áudio-plásticas”.

Nos últimos anos houve alguns sinais de que António Duarte poderia estar de volta à música: exemplares originais do seu livro de 1984 surgiram à venda na Flur, trabalhos lançados na última década por Vítor Rua contam com diferentes graus do seu input técnico e, finalmente, foi com a sua colaboração que foi possível trazer de volta ao presente o projecto Telectu.

Quando se ficou a saber que o concerto que assinalou no Maria Matos os 35 anos da edição de Belzebu iria preceder a reedição desse mítico álbum dos Telectu por parte de um novo selo discográfico, Holuzam, também se revelou que Taipei Disco seria a segunda entrada nesse catálogo. Trinta e dois anos depois da edição de “Mate”, ficar-se-ia a conhecer finalmente um pouco mais da música que António e Manuela Duarte tinham criado com amplo recurso a electrónica. E confirma-se agora: a julgar pelo material aqui revelado pela Holuzam, Portugal perdeu, na transição da década de 80 para a de 90, aquela que poderia ter sido uma das suas mais avançadas propostas musicais a operar nas margens da pop.

Taipei Disco reúne material registado entre 1989 e 1993 por António Duarte. É o próprio músico e produtor que conta, num documento disponibilizado à imprensa pela Holuzam, como costumava frequentar uma discoteca em Cantão, na China, chamada Taipei Disco, local onde se ouvia uma mistura de pop cantonês e alguma música ocidental dançante num clima de relativa liberdade.

“Nas minhas viagens pela China e fins de semana em Cantão, levava sempre comigo um micro-composer e um gravador DAT portátil. Qualquer ideia musical que surgisse era logo registada e memorizada. O micro-composer permitia gravar multipistas, o que dava um grande jeito on the road. Tendo por base a enfática coreografia dos frequentadores do Taipei Disco, comecei uma noite a compor uma linha rítmica, sentado, com auscultadores, a uma mesa da discoteca, ouvindo em fundo as batidas do Canton Pop. Como por magia — o que não é raro acontecer na música — tudo se ia encaixando. No fim, por mais estranho que parecesse, o tema acabou a soar mais germânico (kraftwerkiano) do que pop cantonense”, recorda António Duarte.

Os temas agora apresentados — duas versões da faixa que dá título ao EP (uma delas registada ao vivo numa sala de espectáculos de Macau chamada China Pop) e ainda “Red Mambo (impromptu)” — foram terminados depois no estúdio do autor, num 19º andar de Macau, com a colaboração de Manuela Duarte e também de alguns músicos dos cabo-verdianos Tubarões. Os homens de Bôte Bróce e Linha conheceram forte sucesso em Portugal, facto que lhes valeu um convite para se apresentarem em Macau. A carreira jornalística de António Duarte levou-o com alguma frequência a Cabo Verde onde travou amizade com vários dos músicos da ilha, por isso mesmo quando os Tubarões aterraram no Oriente o reencontro acabou em festa bem regada e a animação teve como consequência a gravação de uma jam session que forneceu material para o tema “Red Mambo” em que colaboram Mário Russo Bettencourt, Totó Silva e Zeca Couto, em baixo, guitarra e teclados, respectivamente.

A versão de estúdio de “Taipei Disco” preenche todo o lado A deste EP e é um glorioso exercício que nasce como planante proposta electrónica antes da entrada de uma simples figura rítmica transportar o tema para as paragens germânicas referidas agora pelo autor. De carácter profundamente abstracto, o tema ganha com a adição de um “kick” mais proeminente uma vida bem próxima das pistas de dança da fase mais tardia dos anos 80 — quando o house nascido uns anos antes em Chicago era já uma linguagem perfeitamente estabelecida — e resulta no final como a mais válida proposta nacional para a escola Minimal Synth que tantas compilações e reedições inspirou na última década. O reverso “live” desta medalha acrescenta velocidade à mais lisérgica composição original, com uma narrativa desenhada no sintetizador a retrair a abstracção e a sugerir uma dimensão mais cinemática: poderia ser a banda sonora de uma viagem visual nocturna por uma qualquer moderna metrópole do Oriente.

O motivo electrónico inicial de “Red Mambo” sugere até um alinhamento mais directo com as sonoridades mais exploratórias dos Telectu, mas a percussão que impõe o pulso à peça e que a transporta para terrenos mais “mundanos” parece sintonizar o tema com as paisagens utópicas que Jon Hassell andava a projectar na sua imaginação desde o arranque dos anos 80. Um quarto mundo paralelo aos que Haruomi Hosono andava também a sonhar a partir do Japão com generoso recurso a electrónica e pontuais vénias a África.

Com um som de elevada qualidade — uma das características que afasta a música que DWART aqui apresentam das propostas mais lo-fi de boa parte dos exploradores caseiros hoje conhecidos à luz da cena minimal synth e de muita da “cassete culture” europeia –, Taipei Disco resolve um enigma, mas levanta uma ainda mais importante questão: e há mais música assim nos arquivos de António Duarte? E, caso haja, poderemos nós ouvi-la? É que a qualidade elevada aqui revelada dita que a escala de um maxi é claramente insatisfatória para quem eventualmente busque com afinco no passado as raízes das mais avançadas ideias exploradas no presente.

É importante perceber que com as reedições de cruciais registos de Nuno Canavarro, Carlos Maria Trindade, Telectu e agora DWART começa a desenhar-se uma outra ideia da história da electrónica portuguesa dos anos 80 e 90, muito mais síncrone com o que se passava no resto da Europa do que poderia pensar-se apenas há um par de anos. O arranque do catálogo da Holuzam constitui assim uma das mais entusiasmantes notícias deste ano e impõe, pelo rigor técnico e gráfico investido nos seus dois primeiros lançamentos, uma fasquia alta para as futuras edições que passamos a aguardar ansiosamente.

 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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