Drake // Scorpion

[TEXTO] Manuel Rodrigues 

Alcançado um importante capítulo na guerra dos tronos do rap, e visto as personagens envolvidas deixarem clara a vontade de reclamar o tão aclamado título, torna-se legítimo lançar a questão: quem leva vantagem na actual corrida pelo assento dourado localizado no topo da escadaria sagrada do hip hop? Drake, Kanye West ou Kendrick Lamar? O site Complex não parece ter dúvidas quanto a isso e num artigo publicado a 10 de Maio de 2018, intitulado Kanye’s Crown Is Drake’s for the Taking, entrega a liderança ao artista canadiano, recorrendo a um argumento (entre muitos outros, claro) que merece ser considerado: nesta fase auto-destrutiva de Kanye West, impera a consensualidade de Drake.

Talvez o recurso ao termo “auto-destrutivo” seja demasiado exagerado. O mais sensato será dizer que, actualmente, Kanye não vive em harmonia com mundo e, claro, consigo próprio (apesar de deixar transparente em Kids See Ghosts, álbum em conjunto com Kid Cudi, que esta foi uma fase passageira e que está em processo de resolução). Como seria de esperar, Drake usou tal momento de fraqueza em seu proveito, não só com a partilha de dois temas na Internet – são eles  “Duppy Freestyle” (a base da mais recente troca de galhardetes com Pusha T, com o rapper do Bronx a responder com “The Story of Adidon”) e “Behind Barz” – mas também através da própria natureza e estrutura de Scorpion, o seu recentemente editado e massivamente reproduzido disco (o novo de Drake alcançou mais de mil milhões de streams na primeira semana do seu lançamento, destronando Beerbongs & Bentleys, de Post Malone, o anterior detentor do recorde de streams no equivalente espaço de tempo).

Scorpion é um álbum longo (à imagem dos seus restantes episódios discográficos), o que transmite imediatamente uma vontade de se opor à ideia de obra curta e intensa desenvolvida este ano por Kanye West (todos os trabalhos que lançou, num total de cinco, incluído o seu em nome próprio, rondam pouco mais de 20 minutos). Numa analogia com bebidas alcoólicas, Kanye West serviu uma bandeja de shots e Drake um cocktail num copo com a capacidade igual à de um aquário para peixes de média dimensão. Não seria por isso de espantar a sensação de enjoo na ingestão de Scorpion, que conta com 25 músicas, perfazendo uns certíssimos 90 minutos de escuta. Contudo, e ao contrário de Views, classificado como um dos mais enfadonhos documentos áudio alguma vez entregues ao público, o novo álbum de Drizzy pode gabar-se de um certo magnetismo auditivo, ou seja, não deixa no ar a urgência de fazer um fast foward a uma boa quantidade de temas, como acontecia com o seu antecessor.

Em Scorpion, Drake encontrou a harmonia que West nem sequer chegou almejar em ye (não quer isto dizer que o artista de Chicago fosse obrigado a tal). A produção é propositadamente pouco arrojada, no sentido de não se preocupar em desbravar novos terrenos, apesar de ter nos créditos nomes como No I.D., Boi-1da, DJ Premier, 40 e Murda Beatz, entre outros (comparar este disco à playlist More Life é meter o sol e a lua lado a lado e pedir que brilhem com a mesma intensidade), o que lhe confere um cariz linear. A própria rima de Drake gira em torno dos assuntos agridoces do costume: de um lado as linhas de engate e as juras de amor aos seus e à sua família (“i only love my bed and my momma, I’m sorry”, pode ouvir-se no explosivo banger “God’s Plan”, provavelmente um dos temas que mais multidões vai incendiar nas suas apresentações ao vivo”); do outro, os constantes dardos envenenados que vai lançando aos que considera estar contra si, com carapuças que poderão servir perfeitamente a qualquer um dos seus rivais, de Pusha T a West.

É normal que sobre Drake paire sempre uma nuvem de ambiguidade em relação às suas letras, por ter sido diversas vezes acusado de ghostwriting. Torna-se quase impossível ouvir algumas tiradas de “8 Out of 10”, “Sandra’s Rose” ou “Is There More”, citando apenas alguns exemplos, e não colocar a mais desconcertante das questões a respeito da origem das estrofes. A dúvida persiste e estende-se a “Emotionless”, tema em que Drake confirma os rumores em torno do filho que mantém às escondidas com a actriz de filmes pornográficos Sophie Brussaux (“I wasn’t hiding my kid from the world, I was hiding the world from my kid”, pode-se ouvir, entre outras frases alusivas). Não deixa de ser estranho imaginar Drake a ligar a alguém ou a sentar-se com esse alguém à mesa para pedir-lhe que lhe escreva uns versos sobre algo tão pessoal e delicado. A mesma sensação reside ao ouvir “March 14”, tema que encerra o álbum, através do qual o rapper explana a sua relação com a mãe do seu filho. Não terá sido mesmo ele a escrever isto? Pelo menos isto?

Independentemente de tudo, dá gosto ver a fácil movimentação de Drake nos campos da rima e do canto, oscilando entre estes universos como se estivessem separados por uma fina folha de papel vegetal. O rap voraz de “I’m Upset” contrasta com a melodia com direcção assistida de “Peak”; a calmaria de “Finesse” casa na perfeição com a descontracção do single “Nice For What”; o beat confuso de “Talk Up” (que conta também com rimas de Jay-Z) opõe-se à simplicidade de composição em “Nonstop”, na qual Drake se expressa em volumes quase perto do sussurro.

Scorpion não é um álbum brilhante mas também não compromete. Joga pelo seguro e não procura obrigatoriamente um consenso geral (apesar da colaboração póstuma com Michael Jackson em “Don’t Matter to Me” soar pouco natural, deixando no ar a ideia de que é uma tentativa de agradar troianos). Impera aqui um certo ideal de equilíbrio, harmonia e coesão, em oposição às passadas mais recentes de Kanye. Em Scorpion, Drake mantém-se na sua zona de conforto. Não arrisca quer a nível de temáticas quer a nível de textura, o que lhe garante uma homogeneidade constante ao longo do álbum.

Se levarmos para laboratório factores como a escrita, a estrutura de rima, o flow, o arrojo, as temáticas abordadas, a consciência social e o equilíbrio entre artista e pessoa, nem Drizzy nem Yeezy merecem ter em sua posse a coroa proposta pelo site Complex. É que no conjunto de todos os factores evocados e mesmo sem ter um álbum novo editado, Lamar consegue ser superior a ambos. Está noutro patamar. Numa liga onde, de momento, lidera completamente isolado. Sem par. Sem igual. Entende-se agora o porquê do nome do rapper de Compton não ter surgido na equação proposta pelo artigo referido no início do texto.

 


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