Drake: o líder da GeraçãoEu

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A internet 2.0 é terreno fértil para especulações e por vezes torna-se um labirinto complexo de navegar quando se procuram factos, sobretudo quando a única coisa que ainda suplanta a velocidade a que se circula na autoestrada da informação (continua válida, esta designação?) é a própria vida. Lista de factos relativa a Drake disponíveis no site de referência Hot New Hip Hop: vestiu a pele de um personagem chamado Jimmy Brooks na série de televisão Degrassi: The Next Generation; saiu durante uns tempos com a cantora de R&B canadiana Keshia Chanté; escreve todas as letras num Blackberry; jogou hóquei no… “Hold Up! Wait a minute….”: “escreve todas as letras”? “Blackberry”?… É tempo de parar um bocadinho…  Factos, ainda não negados pela vida ou pela internet: Drake lançou If You’re Reading This It’s Too Late sem aviso prévio no primeiro trimestre deste ano – é um disco forte, de ajuste de contas, disco forte de quem finca os pés no chão afirmando a sua posição no competitivo ecossistema do hip hop (e nem sequer é o seu novo “disco a sério” – que deverá levar o título Views From The 6, tal como anunciado há exactamente um ano, mas uma mixtape que serve para cumprir contrato); ao que tudo indica, o próximo disco “a sério” de Drake será lançado em exclusivo na Apple Music, o novo serviço que o gigante tecnológico anunciou ao mundo em Junho passado e de que Drake é um dos principais rostos (juntamente com os U2, Dr. Dre ou Taylor Swift…): “Há que estar focado num corpo de trabalho em vez postar as nossas coisas em todos estes lugares diferentes e por vezes confusos. Assim fica tudo num local: Connect”, explicou o rapper, referindo-se à nova plataforma de interacção entre público e artistas que é um dos features distintivos da Apple Music. Mais um facto: nas últimas semanas, a Guerra dos Tronos foi apimentada com um dramático twist com dois novos e improváveis personagens – Drake, claro, e Meek Mill. O beef voltou a entrar em força no menu hip hop.


A faixa-resposta de Drake a Meek Mill.


[AS ORIGENS]

Tempo para fazer um pequeno rewind, e explicar quem é e de onde vem Drake. Aubrey Drake Graham nasceu em Outubro de 1986, em Toronto. O seu pai, Dennis Graham, natural de Memphis, era baterista – tocou com Jerry Lee Lewis, entre outros – e é irmão de Larry Graham, baixista de Sly Stone e fundador do notável grupo de funk Graham Central Station. A mãe, uma professora judia, facto que ajuda a explicar que Drake tenha tido direito a Bar Mitzvah e tudo, educou a futura estrela com algumas dificuldades depois do seu divórcio, conseguindo, ainda assim, garantir residência num tranquilo bairro de classe média da capital do Ontário. Num momento em que a discussão da autenticidade preenche boa parte do espaço disponível na agenda hip hop, a relação de Drake com o seu próprio passado é importante para se perceber plenamente a sua dimensão artística. Aos 15 anos, o futuro rapper ingressou no elenco da série de televisão canadiana Degrassi conseguindo assim os rendimentos que garantiram a sua sobrevivência e a da sua mãe: “A minha mãe estava muito doente”, recordou o músico em 2011 à revista nova-iorquina Complex, “e o único dinheiro que entrava lá em casa vinha da TV canadiana, o que não era muito. O ordenado era mais baixo do que o de uma professora”. Alguma da frieza que é atribuída a Drake poderá ter origem nesse período: “Tive que me tornar homem muito rapidamente e ser o suporte para uma mulher que amo do fundo do coração, a minha mãe”.

Por outro lado, os períodos passados em Memphis, onde o seu pai residia, não lhe trouxeram memórias mais risonhas. O seu pai teve problemas severos com a lei, foi encarcerado por duas vezes durante períodos significativos e Drake foi mesmo obrigado a assistir a uma das suas detenções. “Eu vi muito”, admitiu o rapper. “Não vou dizer que andasse com crack no bolso, porque essa nunca foi a minha luta. Passei tempo com miúdos privilegiados. Passei tempo com gente que não podia ter batido mais fundo. Fiz um programa de televisão. Frequentei a escola de artes. Frequentei escolas do bairro. Vivi. Vivi 24 anos cheios”, explicava Drake em 2010, quando lançou o seu primeiro trabalho na Cash Money.



[O SUCESSO]

Drake é um dos protagonistas de uma série de curtos documentários produzidos pela revista FADER com o título genérico Obey Your Thirst, que se explica primeiramente pelo facto de ter sido uma famosa marca de refrigerantes a pagar a factura de produção, mas também por mostrar artistas que se afirmaram graças a uma força motivada por uma óbvia sede – e fome! – de vencer. Essa sede dirigiu de facto a carreira de Drake que lançou três mixtapes de impacto crescente entre 2006 e 2009, preparando assim o caminho para o seu contrato com a fortíssima Cash Money que também projectou a carreira de Nicki Minaj. Em 2010, Thank Me Later colocou-o definitivamente no caminho do sucesso, com Drake a garantir logo na estreia – onde apareceram convidados de luxo como The Dream, Nicki Minaj, Lil Wayne ou Jay-Z – a subida ao primeiro lugar da mais desejada tabela de vendas da Billboard.

Com uma parca experiência académica que não chegou sequer à faculdade, Drake tem apoiado os seus pensamentos num inabalável solipsismo que pode ajudar a explicar o seu impacto artístico. Em 2010, praticamente ao mesmo tempo que Thank Me Later inundava as ruas, Larry Rosen, professor universitário de psicologia, identificava a iGeneration num ensaio assinado para a importante revista Psychology Today: “uma geração”, explicava o académico, “de miúdos do novo milénio que se definem pela utilização dos novos media e das novas tecnologias, pelo seu amor pela comunicação electrónica e a sua necessidade de fazerem várias coisas ao mesmo tempo”. O professor Larry Rosen, pelos vistos, deve ter estudado Drake muito atentamente…  O rapper, que nas 14 faixas de Thank Me Later usa a palavra “eu” mais de 400 vezes, que canta, rappa, escreve e produz, que usa as redes sociais como poucos e que parece apostado em descartar os meios tradicionais de edição de música em favor de novas plataformas, registou um percurso fulgurante já durante esta década. Depois da sua estreia na Cash Money com um primeiro álbum que chegou ao mais desejado lugar na tabela de vendas da Billboard, Drake editou Take Care em 2011 (que vendeu uns “meros” cinco milhões de cópias numa era em que esses números já não se usavam) e Nothing Was The Same em 2013, mais dois números 1. Com esses três discos, Drake conseguiu a proeza ainda por igualar de colocar 12 singles na tabela que funciona como uma espécie de electrocardiograma do lado mais comercial da indústria hip hop, a tabela Hot Rap Songs da Billboard: nem Snoop, nem Kanye, nem Jigga lograram alcançar tal marca…


[O PRESENTE]

E agora? 2015 tem sido um ano muito preenchido por Drake, embora outras esferas da cultura se tenham vindo a animar com edições de Kendrick Lamar, A$AP Rocky, Tyler, The Creator ou Earl Sweatshirt. Dr. Dre também interrompeu o seu longo silêncio, mas ele é farinha de outro saco e merecerá na Blitz outro tipo de atenção. Com If You’re Reading This It’s Too Late, Drake arrumou o seu contrato com a Cash Money do polémico executivo Birdman (que tem Lil Wayne igualmente a rosnar-lhe aos calcanhares), mandou avisos a MCs rivais como Tyga ou Kendrick e conseguiu tudo isso garantindo que este ainda não é o sucessor de Nothing Was The Same, papel que deverá ser entregue ao já referido Views From The 6 que será mais um dos trunfos jogados pela Apple Music, talvez ainda antes do natal, presume-se.  E que mais? Há, bem, há o pequeno pormenor de “R.I.C.O.“, o tema com que Meek Mill procurou garantir a sua passagem para a primeira divisão ao comprar, certamente por uma quantia bem séria, uma participação de Drake. Mill, actual namorado de Nicki Minaj, usou o Twitter (lá está a iGeneration a funcionar) para denunciar que os versos rimados por Drake no seu tema teriam uma assinatura alheia, algo que no mundo do hip hop se conhece por ghostwriting. Drake não negou a acusação, mas embarcou numa série de respostas e contra-ataques que têm animado e de que maneira as redes sociais, os blogues especializados e os meios de comunicação mais próximos dos terrenos do hip hop.



Drake, pelos vistos, já não usa um Blackberry e provavelmente até já do seu próprio punho abdicou no momento de escrever pelo menos algumas das suas letras. Uma prática que tem uma longa história no hip hop – dos Sugarhill Gang a Dr. Dre, de P Diddy a Kanye West – mas que continua a ser um assunto delicado na esfera específica dos MCs. Diz Drizzy no tal mini-documentário Obey Your Thirst: “o rap foi sempre acerca de contar histórias e eu nunca percebi o sentido de criar uma história que não seja a minha. Só fazer rap já não impressiona. É preciso fazer mais e ser-se um artista multifacetado”. Drake tem essa capacidade e essa força. Rappa, mas também canta e representa, tem força para defrontar quem se atravessa no seu caminho – de Meek Mill a Pusha T, de Common a Chris Brown – mas também para assumir lugar de dirigente na equipa de basquete do seu coração, os Toronto Raptors. E tem a inteligência, não tão comum como seria de esperar, de entender que no futuro um artista precisa de se apresentar em novas plataformas, aceitar novos desafios e encontrar movas formas de expressar as suas ideias. E por vezes isso pode significar empregar punho alheio para assinar episódios próprios.

Seja como for, uma coisa Drake garantiu: toda a gente vai aguardar com ansiedade a próxima temporada da sua história. E quanto a esta Guerra dos Tronos, tal como nas histórias de R.R. Martin há sempre personagens a morrer e já houve quem garantisse que Meek Mill tinha cometido suícidio artístico em público.

 

 

*Texto originalmente publicado no Blitz.

Drake lançou esta semana a mixtape What a Time to Be Alive com Future. Podem escutar aqui.

Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu