Don L // Roteiro pra Aïnouz, Vol. 3

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[TEXTO] Núria Rito Pinto [FOTO] Vice

Roteiro pra Aïnouz, Vol. 3 não é trap, não é boom bap, não tem punchlines suadas. E pode não ser do teu MC favorito, mas é Don L, o favorito dos teu favoritos.

J. Cole, Lupe Fiasco, um pouco de Kendrick. No argumento, escrito e realizado por Gabriel Rocha para Aïnouz, as influências da tríade supra são inevitáveis. A vontade sempre foi a de fazer diferente, aliada a uma certa e constante intolerância em relação ao que considera ser a mesmice do rap brasileiro. Há poucos a fazer o que faz, isso é certo. E a estética sonora a que conseguiu chegar ao lado de Deryck Cabrera torna único um dos trabalhos que, em expectativa, já o era.

 


“É, então cê quer ser o gangsta rap / Posando com seu skank em snaps / Porque maconha é muito gangsta, né? / Todo mundo é rock star / Quando chegam os flashes”



As suas vivências e a forma como, inevitavelmente, é afectado pelo contexto pessoal ou o momento sócio-económico do Brasil estruturam a primeira parte de uma trilogia que chega de trás para a frente. Karim Aïnouz (O Céu de Suely, Viajo Porque Preciso Volto Porque Te Amo) realizador natural de Fortaleza, a mesma capital que assistiu ao êxodo do rapper em direcção a São Paulo, é a primeira das grandes referências e aquela que, no fundo, dá forma e substância ao álbum.

Grávida aos 21, Hermilda abandona o Ceará para rumar a SP, com o namorado. Sem grande sucesso, volta a casa, é abandonada pelo pai do filho e regressa à estrada, desta vez com destino ao Rio Grande do Sul. Adopta o nome de Suely e decide, literalmente, rifar o corpo por “Uma Noite no Paraíso”.

O segundo, um road movie poético cujas cenas são registadas na Bahia, Sergipe, Ceará, Alagoas e Pernambuco, acompanha a missão de um geólogo de pesquisar e avaliar o possível percurso de um canal numa região semi-desértica, onde se retrata, pelo caminho, o isolamento e a sensação de abandono vivida no sertão nordestino.

 


“E eu deixei o nordeste / Há dois ano com uma sede de secar a Sabesp / Sem chapéu de palha nada cliché e velho / Eu vim pra tomar o jogo / Não pra ser um boneco exótico”


O Céu de Suely tem essa coisa de ser estrangeiro em todo lugar, inclusive no lugar de onde você veio. Você vislumbra coisas maiores, pensa ‘essa cidade não é suficiente pra mim, preciso ir embora’, e, quando você vai, acaba se sentindo mais estrangeiro ainda. No fim, você será sempre um estrangeiro”. São as palavras do próprio que ajudam esclarecer essa ambiguidade, logo nas primeiras faixas, “Eu não te amo” e “Fazia Sentido”, com participações do pernambucano Diomedes Chinaski e o paulistano Terra Preta. Ao mesmo tempo, começa a apontar o dedo à educação para a mediocridade, ao game do hip hop brasileiro e às suas falácias de marketing, que engole até os olímpicos Emicida e Criolo, semi-deuses reféns dos seus próprios trabalhos.

 


“Agora imagina eu ter que explicar views a minha intro / Olha como tá o nível / Eu num tô tirando o Criolo e Emicida / Eu tô falando do jogo.”


Não se trata aqui de medir genitais ou de um inflar desmesurado de ego barrado com a testosterona da indústria: Don L diz o óbvio, fazendo-o parecer simples. Rap não são milhões de views, não é branding em troca de promoção, não são caps nem ténis. O respeito chega sempre, ontem e hoje, no rap ou no rock, para quem faz sentido. A referência à mediocridade é, ainda, mais macro do que isso e encontra combustível na forma como se alimenta o povo (o próprio Estado, que seja) o que o povo “quer” consumir porque, como diz o ditado, “para quem é, bacalhau basta”.

O projecto vai-se desenhando assim, numa oposição ao que é imposto em regime de não conformidade até ao momento em que o discurso vira para dar lugar a um esperança, ora agressiva ora pragmática, baseada na necessidade de deixar algumas coisas morrer para dar lugar a outras. De resto, como o próprio já afirmava em entrevista exclusiva ao ReB, ainda esta semana, acerca do lançamento do single “Laje das Ilusões.”

 


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“Putz a vida é um loop do Fight Club / Dirigido por Aïnouz / Muita treta pra Tarantino / Muito denso pra Hollywood / Muito gueto pra Kerouac / Mais Saara do que Arizona / Do Ceará como um tuaregue / Babilônia em Babilônia”


A produção, normalmente a cargo do MC, contou desta vez com a parceria de Deryck Cabrera. Diomédes Chinaski, Terra Preta, Nego Gallo, Fernando Catatau, Thiago França e Lay engrossam a lista de participações e, na co-produção, encontram-se nomes como Léo Justi, DJ Caique, Sants e Luiz Café.

Da primeira mixtape até aqui, cresce um rapper que amadureceu no confronto de realidades e carrega o peso da inevitável destruição das ilusões na bagagem lírica. Entra com a mesma segurança com que entra J. Cole na sua morada de Forest Hills Drive e passeia-se ritmicamente pela esquina de Tetsuo & Youth onde, à espreita, encontramos tanto Lupe quanto Kanye, a tentar decifrar os próximos improvisos de um sax em To Pimp a Butterfly.

Há espaço para o amor e o sexo nas letras de Roteiro pra Aïnouz, Vol. 3 embora não possa dizer que se sinta a sua falta: nesse aspecto, a primeira mixtape deixou a fasquia a um nível difícil de igualar e “Mexe Para A Cam” talvez seja a menos forte do todo.

São 9 faixas num trabalho curto que não chega aos 40 minutos. Ainda assim, é urgente construir uma prateleira nova para lá por o hip hop feito por “seu chapa” Don na grande estante do Brasil.

 


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