Dois anos de ReB: ainda é só o começo

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [Cartaz] Dialogue

A 20 de Abril de 2015, o rimasebatidas.pt arrancava a sério, depois de alguns meses de testes em circuito fechado, com o Ricardo Vieira, o Bruno Martins e o César Furtado a revelarem-se incansáveis aliados de uma ideia que, em boa verdade, já vinha de longe.

Apetece-me fazer o percurso inverso, só porque hoje é um bom dia para balanços, e tentar localizar o começo de tudo: talvez essa ideia tenha nascido da minha paixão pela escrita, a mesma paixão que alimenta o trabalho que desde 2004 fui fazendo para o Blitz, primeiro, e para a Blitz, depois, tendo sido acolhido pelo Pedro Gonçalves numa fase inicial e pelo Miguel Cadete mais tarde, quando a publicação se transformou e passou a aterrar nas bancas uma vez por mês. Esse foi, seguramente, um dos princípios da ideia, mas houve outros.

 


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Talvez o facto de ter imaginado o ReB como uma publicação digital tenha nascido das imberbes experiências que conduzi no Hit da Breakz, primeiro, blog que nasceu em 2004, no 2 4 the Bass, depois, e, mais recentemente, no 33-45, blog que já existia numa plataforma mais avançada, o wordpress, e para que contei em termos de design com a preciosa ajuda do Edgar Matos. Mas isso eram tudo ingénuos esforços para acompanhar a evolução das novas plataformas e que, com excepção do Hit da Breakz, foram, no essencial, operados em modo solitário, com poucos ou nenhuns meios e sem um real conceito editorial a sustentar a vontade de fazer alguma coisa.

A ideia do ReB terá, então, tido algo que ver com o facto de já há muito trabalhar com o hip hop na Antena 3: desde 2002, se a memória não me falha, que fui explorando semanalmente aos microfones da 3 os labirintos de que se foi fazendo esta cultura, usando o programa – Nação Hip Hop no início – como um pretexto para explorar o que se ia fazendo de novo e diferente, dentro e fora de portas. O Rimas e Batidas radiofónico com o formato actual terá nascido já neste milénio, talvez em 2006 (não imaginei que seria importante fixar as datas, o importante sempre foi fazer…) e foi determinante por manter a minha proximidade com esta cultura e por me ter dado vontade de fazer mais. Mas esta aliança entre hip hop e rádio começou para mim muito antes, em 1998, quando fui para a Rádio Marginal com o Cristiano “DJ Jaws-T” Cunha fazer o Hip Hop Don’t Stop, emissão semanal de duas horas que tinha o apoio do D-Mars, do DJ Bomberjack e do DJ Kronic e por onde passou toda a gente, de Chullage a Valete, de Sam The Kid a Sanryse e Xeg e Boss Ac, para fazerem freestyles ao vivo nos microfones, em directo e sem rede, algo que nunca se tinha experimentado antes na rádio portuguesa… na verdade até terá começado antes disso, quando a convite do Carlos Dias, no Verão de 1988, me estreei aos microfones da pirata Nova Rádio, em Coimbra, e logo aí reuni discos de Bomb The Bass, Run DMC, Beastie Boys e Malcolm McLaren para fazer a minha primeira emissão hip hop num programa de que já nem recordo o título… mas este é o problema dos novelos de memória: é difícil parar quando se começam a desenrolar…

O ReB será, enfim, também uma consequência de tudo o resto: da Loop:Recordings, a editora que criei com o D-Mars em 2001 e através da qual editámos importantes discos de Micro, Bulllet, Sam the Kid, Fuse, Melo D, DJ Ride e tanto, mas tanto mais; do trabalho que comecei a fazer na Valentim de Carvalho, logo em 1995, ano em que trabalhei com Cool Hipnoise e Mind Da Gap e que foi o arranque de um vertiginoso percurso de meia dúzia de anos em que aprendi a fazer discos ao lado do Pedro Tenreiro com quem depois imaginei o selo Kami’Khazz que deu para lançar tudo, maxis de house e de hip hop abstracto, de techno e de drum n’ bass…

 



Certo, certo é que o Rimas e Batidas será uma consequência última de qualquer coisa que nasceu dentro de mim quando eu ouvi o “Buffalo Gals” do Malcolm McLaren pela primeira vez em 1983, uma consequência do espanto que trazia estampado no rosto quando saí do Teatro Avenida, em Coimbra, em 1984 após ter visto o Beat Street com a minha prima Helena, uma consequência do admirável mundo novo que descobri da primeira vez que pousei o Man Machine dos Kraftwerk no prato do gira-discos, em 1985, e ouvi o “The Robots”…

 



Foi disso tudo, portanto, e certamente de muito mais que o rimasebatidas.pt nasceu. Apontado o “código genético” da ideia, para referência futura, isso agora pouco importa. O que importa mesmo é que há uma alargada equipa que todos os dias faz o Rimas e Batidas acontecer.

Hoje somos uma revista digital, um programa de rádio, uma rubrica diária na casa da alternativa pop, a Antena 3, hoje somos uma marca que quer aplicar-se a um curso escolar, a curadorias em festivais, ao nosso próprio festival que terá este ano, certamente, a sua terceira edição, uma marca que quer um dia destes adornar a contracapa de um livro ou surgir ligada a várias outras formas e plataformas de comunicação: documentários, discos, redes sociais…

Se há coisa que aprendi desde que em 1983 me senti arrepiado por aquele grito no início do “Buffalo Gals” é que não há limites: quando se gosta muito do que se faz as coisas só não acontecem se não houver vontade e determinação. E no Rimas e Batidas temos isso de sobra: faltarão outras coisas talvez tão importantes quanto a tal vontade – mais meios, mais capacidade técnica, mais conhecimentos, mais ideias até… – mas é para isso que o futuro serve, certo? E o futuro começa já amanhã. Hoje é dia de festa, no PARK, com amigos, com música daquela que nos inspira e que nos faz querer fazer isto cada vez melhor. Apareçam. E depois voltem aqui, amanhã: há sempre coisas novas para ler e ver e pensar.

Obrigado!

 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu