DJ Reverend P: “Quero que o edit flua naturalmente como se fosse a produção original.”

[ENTREVISTA] Rui Miguel Abreu

The Legacy Of é uma importante série com que a Sony mergulha nos arquivos, sempre com a figura do DJ na cabeça: volumes dedicados aos terrenos da soul, do funk, do jazz, do disco ou do hip hop (com as Costas Oeste e Este a merecerem volumes diferenciados) são polvilhados com pérolas dos arquivos de diversas etiquetas que hoje fazem parte do universo Sony. Um dos principais responsáveis pela curadoria da série é o francês Reverend P, homem do leme das noites parisienses dedicadas à Motown e profundo conhecedor da história da música negra.

Falámos com Reverend P sobre a cultura de re-edits e a série que agora se encontra disponível nas lojas portuguesas. Uma verdadeira arca de tesouro para DJs e amantes da história dos sons mais relevantes para as pistas de dança.

 


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Podes começar por contar-nos sobre o teu envolvimento nas séries The Legacy of Sony? Como é que se deu a ligação?

Eu tive o prazer e grande privilégio de seleccionar os volumes de soul, funk e disc da colecção de legado e também aprovei as selecções dos outros volumes. Fui abordado pelo Romain Pizon, o manager do legado da editora que foi aconselhado pelo Richard Lecoq, o gestor de redes sociais deles que por acaso também é o fundador da Invicible Mag, que é a única revista regular dedicada a Michael Jackson. Conhecemo-nos quando o Richard estava na minha noite 100% MJ na discoteca Djoon, em Paris, e rapidamente se tornou um dançarino regular da festa da Motown e um bom amigo. Ele sabia do meu trabalho com os clássicos, também sabia que o público era muito especial, e pensou que era a combinação perfeita para a colecção. Estou muito agradecido e tenho muito respeito pelos dois.

Como é que abordaste o processo de fazer a selecção para cada título? Começaste por olhar para a tua própria colecção?

Na verdade, tive de dar a selecção muito rapidamente. Por isso mergulhei nos meus próprios discos e primeiro reorganizei-os por editoras, tudo o que era Philadelphia International, Buddah Records, Epic, Columbia, Arista, e RCA fazia agora parte da Legacy Recordings. Por isso, a partir desses discos, escolhi as minhas canções preferidas e tentei montar uma selecção de faixas que seriam adoradas por conhecedores mas também por toda a gente que não estivesse tão familiarizada com este género de música. Tentei pôr mixes raros, versões 12″, grandes edits

 



Quando foi a parte dos re-edits, tiveste acesso aos masters originais?

A Sony forneceu-me muitos grandes masters dos seus cofres, mas alguns perderam-se e eu percebi que tínhamos de procurar por masters de primeira geração noutro sítio. Este foi um foco muito importante que tivemos. Dar o melhor som possível. Tom Moulton, Joeyy Negro e John Luongo deram-nos os masters de primeira geração. Para algumas faixas, tivemos de ir ao vinil, encoding com um turntable a laser e cirurgicamente limpar, pelo nosso engenheiro de masterização David Hachour da Color Sound Mastering. Os edits que eu forneci eram coisas que eu já tinha, que tinha produzido para o meu próprio uso como DJ. Eu não tinha as multi tracks na altura, são edits dos masters com produção adicional de percussão que acrescentei.

Fizeste selecções que transpuseram a fronteira entre o funk, o funk electrónico, o disco, jazz e soul. Isto, claro, deve reflectir a tua própria relação com a música negra. Por isso consegues falar-nos sobre o teu processo de descoberta desta música? Como é que te apaixonaste por estes géneros?

Eu seleccionei os volumes de disco, soul e funk, mas o resto da colecção, eu aprovei as tracklists mas foram feitas pelo Romain, e ele teve ajuda do Richard no volume de new jack. A selecção do jazz foi feita pelo Daniel Baumgarten. Um pioneiro do jazz que era amigo do Miles Davis. Toda esta é a música que eu mais amo. A minha mãe é uma disco head, é uma grande dançarina, e ela tocava grandes faixas de disco em casa quando eu era um miúdo. Ela era amiga do DJ dos Les Bains Douches, um clube mítico dos anos 80, e ele dava-lhe mixtapes que eu estava sempre a ouvir quando era miúdo. Quando cresci, a música sempre foi uma parte muito grande da minha vida. Tinha 9 anos quando saiu o Thriller, e tive o álbum na semana em que foi lançado nos EUA, trazido pelo meu Uncle Sam que viajava muito. Eu já era um grande fã de Michael Jackson… Crescer naqueles anos foi especial, o hip hop era gigante em França, quando eu tinha 9 ou 10 anos havia um programa de televisão chamado Hip-Hop, animado por Sidney, com montes de lições de dança e música… Todos os miúdos da escola tentavam reproduzir os moves que eles ensinavam no programa. A partir daí, eu ouvia hip hop e isso levou-me a descobrir música soul original através dos samples. E também havia grandes rádios, como a Rádio Nova e a Couleur3.

 


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Eu passava a maior parte do tempo em lojas de discos, sempre a descobrir nova música. Eu podia passar lá um dia inteiro, mesmo quando era miúdo. Era um tempo diferente. Havia tantas lojas de discos em todo o lado. O jazz é uma história diferente, o meu pai era fã de Miles Davis e Louis Armstrong por isso isto era familiar, mas envolvi-me mesmo como estudante, eu costumava levar flirts a pequenos concertos de jazz, como Le Caveau de la Huchette ou o Blue Note Cafe, e a um adorável bar de jazz na rua Monsieur le Prince, Le bar de la Paillotte. Eu achava que era romântico. Como um fã de Woody Allen, sempre achei que o jazz era a melhor música para nos apaixonarmos, e eventualmente fui eu que me apaixonei por esta música.

 



Tu lançaste edits na G.A.M.M. e, como sabes, a cultura do edit nem sempre foi vista com bons olhos pela indústria musical e a maioria destes exercícios era descrita como bootlegs. O que achas que mudou para que um gigante como a Sony reconheça a tua arte como um DJ e editor?

Não sei, primeiro tenho a dizer que o Romain Pizon, o label manager, é um verdadeiro amante de música! E isso ajudou muito. Ele estava a vasculhar pelos meus edits, e convenceu o chefe dele na Sony. Além disso, acho que lendas como Danny Krivit e Dimitri from Paris abriram portas para os restantes. Editoras como a Strut, Bbe e Harmless editaram o trabalho deles e também tornaram isto popular.

E depois o SoundCloud tornou-o grande e acho que a indústria percebeu que havia uma procura, que também ajudava a novas gerações descobrirem a parte antiga dos seus catálogos. Agora as editoras major entram no game. Isso são grandes notícias… Já estamos a trabalhar num próximo volume, só com edits e remixes… vai ser mais fácil pedir multi tracks e fazê-lo da maneira oficial! Isso é uma coisa boa para toda a gente: os fãs, as editoras, os músicos e os DJ.

Danny Krivit deve ser uma referência quando se trata de edits. Tu fizeste DJ sets com ele e ele também está nesta série Legacy Of. Ao longo dos anos, tiveste a oportunidade de partilhar dicas de edits com o mestre? Aprendeste alguma coisa com ele?

O Danny é um mentor e amigo, é grande parte da minha inspiração. Eu aprendo com ele sempre que o vejo tocar, sempre que vou comprar discos com ele ou falo com ele ao telefone. Eu estava nas sessões 718 dele quando vivi em Nova Iorque por um ano. Ele impressiona-me sempre. Ele sabe exactamente sobre o que é que é um disco e que parte vai fazer o público sentir-se especial. Ele também é um grande storyteller com os discos. Há uma mensagem quando ele toca. Eu tenho montes de coisas para aprender com ele mesmo que eu faça os meus edits e sets à minha maneira. Aprendei da maneira como ele toca, deixando o disco tocar durante sete minutos, sem nunca tentar forçar muito o público, guiando os dançarinos por onde eles estar com classe, sempre a fazer com que as pessoas descubram nova música. Ele é tão apaixonado, tão humilde, e sabe tanto. Estou tão orgulhoso que o edit dele de “Love is the Message” finalmente tem um lançamento oficial nestas compilações!

 



Que outros mestres do edit é que tens como influências?

Há muitos DJs a fazerem grandes edits, demasiados para mencionar. Beside Danny, Tom Moulton, Dimitri from Paris e Joey Negro estão no topo da minha lista.

Qual é que dirias que é a tua filosofia quando se trata de editar faixas?

Tento manter-me o maior fiel possível à faixa original focando-me nas partes de que gosto mais, e skipping as partes de que gosto menos. Gosto que a pista de dança não note muito que foi re-trabalhado. Quero que o edit flua naturalmente como se fosse a produção original.

Podes dizer-nos que ferramentas usas para editar?

Na maior parte das vezes uso Ableton Live porque é muito fácil para trabalhar, e às vezes Cubase também.

Podes dar-nos três edits clássicos que tu passas sempre quando fazes sets?

MFSB “Love Is The Message” Danny Krivit Edit
Michael Jackson “I Can’t Help It” Todd Terje Edit
The Jacksons “We’re Almost There” DJ Spinna Edit

 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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