DJ Lycox // Sonhos & Pesadelos

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[TEXTO] Rui Miguel Abreu 

Por esta altura é mais do que evidente que o catálogo da Príncipe – que ultrapassou já as duas dezenas de entradas – abriga algumas das mais interessantes e originais propostas da modernidade electrónica nacional. O nítido retrato da nova batida de Lisboa que resulta do cruzamento dos trabalhos lançados por esta editora representa uma das mais vigorosas propostas musicais do presente, no sentido em que avança ao mundo uma música profundamente radical e resolutamente única, mas cujas ondas de choque têm ressoado nas mais variadas latitudes, inspirando trabalhos em estúdios caseiros de Tóquio a Bogotá, de Brixton à Amadora.

Sonhos & Pesadelos, estreia de DJ Lycox em nome próprio (depois de ter participado com dois temas – incluindo o incrível “O Tempo da Vida” – no EP colectivo de Tia Maria Produções (com DJ Télio, DJ B.Boy e Puto Márcio) e de ter cedido outro inédito, “Dor do Koto”, para a compilação Mambos Levis D’Outro Mundo), é também o segundo álbum da Príncipe em 2017, depois de Nídia É Má, Nídia É Fudida (que, curiosamente, mereceu número de série posterior ao presente trabalho de Lycox), sinal inequívoco que a urgência que esta música sempre carregou no seu ADN começa também a sintonizar-se com uma ambição discursiva mais pronunciada.

Sonhos & Pesadelos queda-se abaixo dos 28 minutos na versão física, mas acrescenta quase 6 minutos à sua versão digital, um autêntico maná tendo em conta que o material de Lycox até agora disponibilizado pela Príncipe não chegava aos 8 minutos (embora o DJ, entre sets e remisturas e outro material disperso, tenha uma conta Soundcloud bastante recheada). Esta contabilização temporal da música de DJ Lycox é importante porque é possível ver ambição artística no dilatar do discurso musical. Muitas vezes, os temas que se limitam aos dois minutos (como acontece com metade do material incluído em Sonhos & Pesadelos) ecoam a dinâmica que estes produtores costumam impor na cabine de DJ, com cada nova proposta a ceder rapidamente lugar à batida seguinte, numa vertigem rítmica que pode – e deve tendo em conta a qualidade das ideias – merecer uma diferente gestão quando em estúdio se projecta um álbum.

A audição mais “clínica” de Sonhos & Pesadelos revela o mapa dessa ambição discursiva já referida: a abertura com “Weekend” funciona quase como manifesto revelando uma apetência melódica cuidada, uma capacidade orquestral relevante, com diferentes camadas de texturas sintetizadas a sustentarem o que soa a sample levantado de um CD de baile cabo-verdiano dos anos 90; “Galinha” acrescenta vigor de graves à equação melódica; e “Domingo Abençoado” é uma entusiasmante leitura das normas rítmicas da house mais funda cujo único defeito – lá está… – é não se prolongar até ao infinito mercê dos seus frustrantes 2 minutos de duração; com “Virgin Island”, Lycox centra-nos no “kuduro continuum”, mas a projecção é definitivamente futurista; depois, tanto “Nichako” como, sobretudo, “La Java” são constituídos como munições capazes de destruir qualquer pista, verdadeiros rolos compressores ao serviço do abandono através das frequências debitadas pelo sistema de som: ambas funcionam com eficácia hipnótica se o volume de audição for considerável; “Parabéns Moh Baba” aguarda urgente atenção de um qualquer criativo publicitário que procure a banda sonora perfeita para nos vender mais um veículo de perfil citadino, perfeita na sua capacidade de ilustrar uma modernidade cromada e elegante; o tema colectivo – com input de PuTo NeLo, Puto WilsoN e MIX-BwÉ – “Quarteto Fantástico” é uma desbunda kudorizada até à última casa, caótica mas demolidora; e, finalmente, a maravilhosa dupla de temas que é “Sky” e “Solteiro” (este a verdadeira piéce de resistance do álbum, nos seus orgulhosos e gloriosos 4 minutos e seis segundos), duas amostras de que é possível combinar todas as pistas avançadas anteriormente – imaginação melódica, capacidade orquestral, eficácia rítmica, vénias à tradição e ousadia inventiva – em temas que parecem já ser de um qualquer outro lugar, certamente uma fantasiosa projecção em que o subúrbio lisboeta e a periferia parisiense (onde Lycox agora reside) se cruzam com a vibração urbana global que se estende de África à Ásia e daí às Américas e provavelmente só parando no Espaço…

Tal como há-de certamente acontecer com o álbum de Nídia, também a estreia de Lycox finca os pés entre a melhor colheita de 2017: trata-se de um ambicioso e extraordinário exercício de imaginação ao serviço da pista de dança, uma lição de sofisticação, elegância e eficácia absoluta a que é simplesmente impossível resistir.

 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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