DJ Krush // Kiseki

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[TEXTO] Diogo Pereira [FOTO] Direitos Reservados

O pioneiro japonês do trip hop está de regresso com um álbum de recorte clássico que consolida o seu estatuto de peso no hip hop mundial.

Kiseki é uma nova dose de hip hop cru, puro e duro do mestre japonês, pleno das mesmas batidas pesadas a que sempre nos habituou e que só ele sabe cozinhar.

Muito tempo passou desde que DJ Krush reinventou o hip hop instrumental de cariz mais cinematográfico, mais conhecido por trip hop. Ou talvez devêssemos dizer inventou, já que a sua obra-prima e segundo álbum, Strictly Turntablized, de 1994, antecede Endtroducing….., de DJ Shadow, por dois anos.

 



Pelo caminho, além de ter definido as coordenadas estéticas daquilo a que veio a chamar-se trip hop ou “hip-hop cinematográfico”, juntamente com DJ Shadow, ajudou a pôr o Japão no mapa da cena rap mundial, deu mérito artístico ao hip hop, movendo-o numa direcção vanguardista, estabelecendo afinidades com o jazz e a música experimental, e tornou-se um dos mais respeitados DJs e produtores a nível mundial, em oito álbuns de trip hop bem atmosférico e fumarento, com batidas profundas, muito scratch e muitos loops de flauta e piano ominoso.

Mas os tempos são outros. Já não estamos nos anos 90, os tempos áureos em que Krush dominou o mercado do hip-hop de vertente mais instrumental, contemplativa e cinéfila. O século XXI é a era do trap e do dubstep, não a do trip-hop.

O que é que define, então, este Kiseki, décimo álbum de uma longa discografia e regresso após Butterfly Effect, de 2015, que marcou o fim de um jejum de onze anos? À primeira escuta, diríamos que parece mais uma mixtape que um regresso a sério de um dos mais carismáticos e respeitados músicos do hip hop internacional.

Mas há bem mais a dizer do que isso.

Kiseki (palavra japonesa que significa vestígios) é modesto na sua duração e ao ostentar marcas notórias de regionalismo: edição apenas no seu país, na sua própria editora, títulos em grafia japonesa (com algumas exceções) e emcees japoneses, a rimar em japonês.

Krush, que comemora 25 anos da sua carreira a solo em 2017, assinalou a data com este pequeno álbum. Para o efeito, convidou um conjunto ecléctico de rappers japoneses, diferentes no seu grau de experiência, estilo e registo vocal. De fora ficaram os músicos de jazz, com quem trabalhou amiúde no passado, e os convidados internacionais, presença frequente em quase todos os seus álbuns.

Anunciado como o seu primeiro álbum de rap, o que é certo é que Krush já colaborou com emcees no passado, embora não de forma tão acessível e tradicional (por isso dissemos que este álbum se assemelha a uma mixtape).

 



A sua curta duração impede-o de brilhar (não há nada aqui de tão ambicioso como “Duality”, por exemplo, ou de tão instantaneamente memorável como “Mu-Getsu”), e ficamos com a sensação de que se houvesse 18 faixas em vez de 10, haveria espaço para mais instrumentais e momentos de DJing, mas talvez não seja essa a intenção.

Kiseki é, de facto, do mais imediato e porventura menos interessante que Krush já produziu, ao longo de uma extensa e profícua carreira, mas a sua música continua fiel aos sacrossantos princípios que definiu desde o início: crua, despida, minimal, abstracta. Às vezes bucólica e serena, outras vezes intensa e sinistra. E aos mesmos elementos que a compõem: batidas pesadas, esqueléticas e insistentes, baixos profundos e sub-sónicos, melodias que enganam pela sua simplicidade, efeitos de origem misteriosa, tudo isso conflui num hip hop atmosférico, denso e complexo, pleno de ambiência e estilo.

Kiseki é um álbum de rap mais tradicional, com ritmos mais convencionais, longe dos beats arrastados, poeirentos e sujos e atmosferas fumarentas de Strictly Turntablized e Krush, nos seus tempos Mo’Wax.

 



Krush tem vindo a afastar-se do seu estilo clássico, que o tornou conhecido em meados dos anos 90, e o lânguido acid jazz a meia luz dos seus primeiros dois álbuns já é algo do passado, mas as suas fontes de samples permanecem as mesmas (é notório o amor pela música tradicional japonesa, e as suas melodias delicadas de flauta, koto e samisen).

E embora se note uma ausência do scratch (presença tão abundante nos seus primeiros álbuns), as batidas têm uma familiaridade inconfundível. Têm o mesmo cuidado, a mesma atenção ao detalhe. Talvez não sejam tão luxuriantes e cinematográficas como já foram, sendo mais cruas e imediatas, mas continuam a induzir involuntários movimentos do esternocleidomastóideo.

Desta vez, Krush não usa a voz como mero elemento estético, para acrescentar atmosfera às suas produções, como é seu apanágio, mas dá espaço aos emcees para brilhar e se fazer ouvir.

As batidas pesadas (a mais pesada é sem dúvida Monolith) e as paisagens bucólicas continuam presentes aqui, caminhando lado a lado na mesma obra, mas desta vez há um piscar de olhos a sonoridades diferentes, incluindo algumas mais comerciais, que parecerão perfídia aos ouvidos mais fiéis. E os que procuram aqui o virtuosismo instrumental de álbuns passados ficarão inevitavelmente desiludidos, porque só há uma faixa sem voz. Serão estas incursões uma forma de Krush se manter relevante no século XXI, dado que os anos 90 já se foram, e com eles os tempos áureos do trip hop?

Na verdade, isto não é nada de novo. Krush sempre assumiu o experimentalismo como um dos pilares da sua obra, desde o seu dueto com o trompetista Toshinori Kondo em Ki-Oku à colaboração com Sakamoto em Zero Landmine.

 



Mas desta vez é a electrónica, a par do hip hop, que assume a dianteira.

Krush já tinha começado a abandonar os vinis poeirentos e a virar-se para o digital em The Message At The Depth, de 2002, e Jaku, de 2004, onde experimentou com o drum’n’bass, e mais recentemente em Butterfly Effect, de 2015, em que brincou com o trap e o dubstep. Ficamos sem saber se é vontade de experimentar ou uma tentativa de acompanhar os tempos. Mas isso não importa, porque a música não perdeu a qualidade.

O seu último álbum, Butterfly Effect, já parecia muitíssimo removido do hip hop tradicional e mais próximo da electrónica contemporânea, com os seus efeitos digitais, texturas sintetizadas e batidas artificiais polidas e exactas a bater desde o início (e até um número de rockalhada big beat à anos 90).

Com dois anos de distância em relação ao seu antecessor, Kiseki mantém semelhanças e diferenças com o mesmo.

Por um lado, é um álbum de recorte mais clássico, com sonoridade inegavelmente boom bap, que podia ter saído nos anos 90 (não fosse a presença tão ostensiva da electrónica), e não é tão ecléctico no seu elenco de convidados, contando apenas com emcees locais. Por outro, envereda pelo mesmo caminho de experimentações electrónicas contemporâneas.

Kiseki abre com batidas diferentes do habitual: mais crocantes, mais dubstep e trap do que trip hop, mais século XXI do que anos 90. Por momentos, depois de ouvirmos a intro de sabor a trap (efeitos, ecos, vozes filtradas), suspiramos de medo e pensamos que Krush se adaptou aos tempos modernos da pior forma possível.

No entanto, logo a partir da segunda faixa entra o bom e velho boom bap, e voltamos a suspirar, desta vez de alívio.

“Romromnotaki” (uma das melhores músicas do álbum) abre com o som familiar da música tradicional japonesa, neste caso um loop de cordas de samisen, seguido imediatamente de uma batida pesada mergulhada no crepitar de um vinil antigo, temperada com o rap tenso e ominoso de OMSB e levada a fritar numa tempura de sabor forte e amargo, e já entramos no território inconfundível do DJ japonês.

 



“Back to the Future” continua em território boom bap, embora com raps mais leves, em registo galhofeiro e muitíssimo anglófono, com muitos anglicismos pelo meio.

“Jakuhai” começa por levar-nos a um templo japonês com um loop minimalista daquilo que parece o som de espanta-espíritos a abanar ao vento apenas para nos submergir escassos minutos depois em batidas metálicas com efeitos de reverse que parecem latas de graffiti a ser pulverizadas.

“Yuhukunakuni”, por outro lado, sem dúvida o momento mais acessível e melódico, e o menos pesado, parece deslocado.

 



“Mukyo” é familiar, algo que poderia ser confundido com um dos Petestrumentals de Pete Rock, ou a sua própria “Song 1”, com as suas teclas à Bob James e o seu loop de flauta a fazer lembrar a melodia de “Água de Beber”, muitíssimo abrandada, e devolve-nos a território chill out entre as faixas vocais mais intensas, evocando os pisos lounge das discotecas com vários andares.

“Monolith”, a faixa mais pesada do disco, faz-nos lembrar The Streets com a sua batida e riff sintetizado minimal quase garage.

 



A cedência ao trap de “Dust Stream” não é bem-vinda, e é o mais comercial e menos Krush daqui. Mas é compensada logo de seguida pelo baixo viscoso e irresistível de “Daremoshiranai”, que bem podia ter sido samplado de Squarepusher. Quem não abanar a cabeça com isto que se acuse.

O álbum termina com “YUI”, que começa por um spoken word acelerado, que depois evolui para um rap velocíssimo que evoca um dos freestyles furiosos dos primeiros álbuns de Wu-Tang.

Krush nunca foi comercial, embora já tenha brincado com o r&b antes (lembremos “Keeping the Motion” e “Big City Lover” do seu álbum de estreia Krush).

Mas há aqui, com efeito, faixas muito comerciais, e muito distantes do início da sua carreira, como “Jakuhai” (com o seu refrão cantável e anglicizado) e “Yuhukunakuni”, que parece quase pop rap.

O namoro com o trap em algumas faixas é algo que certamente fará franzir os sobrolhos de muitos fãs, e esperemos que não se repita em futuros álbuns, mas de resto não há muito que nos preocupar: Krush continua fiel a si mesmo.

Hideaki Ishi sempre aplicou uma estética minimalista ao hip hop, despindo-o de todos os elementos menos o essencial: breakbeats e samples. Por isso as suas produções têm uma sonoridade tão crua. Estas músicas continuam essa tradição, embora com menos ênfase na atmosfera e na ambiência e mais nas batidas e nas vozes. E embora sejam, em geral, demasiado pesadas para serem comerciais (com algumas excepções), todas elas seguem uma estrutura tradicional, com refrões cantados entre versos.

E continua frugal na sua abordagem, não afogando as batidas em efeitos, e não acrescentando mais do que é necessário, deixando espaço aos emcees convidados para brilhar e se fazer ouvir. E deixa-os experimentar com a voz, cantando e oferecendo-nos diferentes registos e cadências.

Aliás, todo o álbum é surpreendentemente ecléctico em tons e emoções, desde a tensão e a intimidação até à serenidade, a alegria e mesmo o humor, como no final de “Romromnotaki”, em que o rapper de serviço cita o refrão clássico de “Can I Kick It?”.

 



No final de contas, Kiseki peca por não acrescentar nada de fundamentalmente inovador, o que é tanto o seu maior defeito como a sua maior qualidade: é bom ver que Krush é um veterano que ainda está em forma, mas poderá desiludir os fãs que procuram algo de refrescante, e estavam à espera de o ver pintar com novas cores, como já fez no passado.

Nos piores momentos, Kiseki é água benta parada; nos melhores, lembra-nos porque é que o seu autor ainda continua tão bom naquilo que faz, depois de uma carreira tão grande.

Longe de grandes experimentalismos, à parte das suas incursões em géneros de electrónica contemporânea, Kiseki não é, pela sua curta duração, sonoridade familiar e repetição de fórmulas, uma grande obra. Como já dissemos, parece mais um conjunto de batidas soltas com emcees convidados reunidas numa mixtape.

Não tem, certamente, a relevância de Strictly Turntablized, o experimentalismo de Ki-Oku, e não é tão complexo e cinematográfico como Jaku.

E sente-se a falta de um momento tão memorável como “Jugoya”, “Kemuri” ou “Dig This Vibe”.

Não obstante, Krush apresenta-nos aqui um sólido álbum, de produção impecável do princípio ao fim, que não tem grandes defeitos a apontar, cheio das mesmas batidas pesadas e melódicas a que sempre nos habituou e que só ele sabe cozinhar. Mas é mais para ser encarado como um EP entre álbuns (semelhante a The Petrified Forest de Biosphere, que analisámos aqui há pouco tempo), do que uma sequela a sério de Butterfly Effect, ou um statement artístico de um dos mais respeitados produtores da sua geração.

É simplesmente a confirmação do estatuto de um veterano que nos abre o apetite enquanto não nos brinda com um regresso a sério.

Não sendo o regresso de que estávamos à espera, é antes um amuse bouche para um álbum em condições, que já anunciou para o final do ano. Tal como Biosphere lançou recentemente um pequeno EP para nos deixar água na boca, também teremos de esperar mais para um regresso digno desse nome. Até lá, apuremos o paladar, pois.

 


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