Diálogos entre som e espaço: Do granítico Ghuna X ao bucolismo de Live Low, com Pedro Augusto

[TEXTO] Ricardo Nogueira Fernandes [ILUSTRAÇÃO] Riça 

Jacinto, no romance A Cidade e as Serras, de Eça de Queirós, afirmava: “Na Natureza nunca eu descobriria um contorno feio ou repetido! Nunca duas folhas de hera, que, na verdura ou recorte, se assemelhassem! Na Cidade, pelo contrário, cada casa repete servilmente a outra casa; todas as faces reproduzem a mesma indiferença ou a mesma inquietação; as ideias têm todas o mesmo valor, o mesmo cunho, a mesma forma, como as libras; e até o que há mais pessoal e íntimo, a Ilusão, é em todos idêntica, e todos a respiram, e todos se perdem nela como no mesmo nevoeiro… a mesmice – eis o horror das Cidades!”

O percurso do músico Pedro Augusto, formado em escultura pela FBAUP, encontra‑se entre estas duas dimensões espaciais. Nos seus projectos cria, com a sua sonoridade, uma relação directa com o espaço que evoca. Enquanto o som de Ghuna X é pétreo, granítico, fruto do contexto urbano e geológico da cidade do Porto, Live Low aproxima‑se, à primeira vista, de um bucolismo e de uma serenidade campestre.

Augusto afirma que o seu caminho se iniciou durante o curso, momento em que começou a experimentar criações musicais e construção de objectos sonoros, tentando harmonizar o interesse na música com o que tinha que fazer ao nível curricular. À medida que foi evoluindo, a parte musical e de som foi tomando mais espaço naquilo que era o seu trabalho e a certa altura pôs de parte toda a matéria mais concreta e foi‑se dedicando mais ao som, lidando com esse corpo de uma forma mais escultórica. A exploração de circuit bending de rádios e brinquedos, de electroacústica com assemblage de madeira ou colunas velhas, ajudaram Augusto a dedicar‑se à composição do que considera elementos plásticos invisíveis. A isto acresce‑se um método dotado de uma dimensão de revisão e alteração contínua do processo criativo, como, por exemplo, com o microfone no estúdio, gravar noutro espaço, fazendo com que a distância do corredor (e o que pode acontecer nesse percurso) possa modelar o som.

Tal como Oliveira e Galhano afirmavam, para a casa tradicional, apesar de ser influenciada pelo contexto geográfico e social, pela disponibilidade local de materiais e pelo clima, os factores culturais são determinantes na escolha dos materiais. Tal significa que em regiões diferentes — com condições atmosféricas, climáticas e economia agrícola semelhantes — os mesmos materiais, com a mesma função, possuem tipo, forma e pormenores decorativos diferentes. Por outro lado, também o próprio material limita ou amplifica a plasticidade das decorações, uma vez que, por exemplo, o granito e o xisto não permitem a riqueza de forma e fantasia que o barro, a taipa ou o calcário proporcionam. Ora,  se o granito do Porto apenas permitia uma escultura sonora mais marcada, o terreno barrento de Live Low permite uma construção mais subtil.

 



Segundo Augusto, Ghuna X é sobretudo um projecto focado no Porto, como algo devoto à cidade, pretendendo ser uma visão musical sobre esta, com input do espírito rude da figura do guna. Este universo foi, de certa forma, verbalizado no projecto de Ghuna X e Rey, Ghunagangh.

Por outro lado, Live Low, com Augusto a par de  Miguel Ramos, Ece Canli e Gonçalo Duarte, segundo a jornalista Mariana Duarte, surge como um êxodo urbano. O músico esclarece que o projecto é acerca de uma vida despojada, uma existência frugal, e vai buscar o nome a Live Low To The Earth, In The Iron Age, um álbum de tranquilidade ecologista do compositor Eyvind Kang e ao documentário Yama No Anata, de Aya Koretzky, acerca dos pais da realizadora, que se instalaram com a filha ainda pequena numa serra próxima de Coimbra, iniciando uma vida auto‑suficiente após terem fugido da poluição das centrais nucleares de Tóquio. De acordo com Augusto, existe uma relação directa da pulsação da música com o ritmo do trabalho, que é muito espaçado, como os ligeiros atrasos e a irregularidade da cavação de um terreno, o que, desde início, se traduz em ritmos muito lentos, como que se fosse uma caminhada.

Contudo, a sonoridade de Live Low revela uma consciência de que cidade e campo não são um binómio. Além do organicismo de latas, pedaços de madeira, almofadas e ferragens, foi utilizado um sintetizador para fazer as linhas de baixo. O ruído e a distorção analógica, decorrentes do mau funcionamento dos instrumentos electrónicos, conferem um  drone constante que resulta num plano horizontal contínuo. Esta intenção acaba por ser reforçada pelo vídeo da reinterpretação de “Lembra‑me Um Sonho Lindo”, de Fausto, em que, em plano contrapicado, aparecem, de noite, uma série de edifícios habitacionais, seguidos de massas arbóreas, associando‑se vagamente os dois ao amanhecer. Augusto esclarece que o realizador Dinis Santos conferiu uma carga dramática e misteriosa a este diálogo urbano‑natural.

 



Este factor acaba por enfatizar a ideia do esbatimento da dualidade da dimensão urbana e rural. De acordo com o geógrafo Álvaro Domingues, a dicotomia entre campo e cidade não existe em Portugal e reforça que é fácil desmontar a mitologia da ideia de ruralidade portuguesa, dado que a produção agrícola não chega a 3% do PIB nacional. Justifica que as ideias de perda da cidade e do campo extremaram os imaginários da boa cidade enquanto centro histórico e o campo como aldeia típica. Enquanto, quer uma como outra podem dar dois belos postais turísticos, mas não são a realidade, são ficção. Com a mudança da paisagem, os referentes estáveis que as imagens desta produzem entram numa atrapalhação e num acelerar de diferenças em que melhor se reconhece o que se perde do que o se ganha e a forma como esse ganho é avaliado — imbuído de uma conotação estranha ou exótica –, como não sendo dali, não sendo “vernacular”, como eram denominados pelos romanos os escravos que nasciam em casa em contraponto aos que eram recrutados no exterior.

Em contraste com o romantismo de Jacinto, o ensaísta Walter Benjamin dilui as fronteiras e afirma que não conhecer bem os percursos de uma cidade não tem muito que se lhe diga. Perder‑se, no entanto, numa cidade, tal como é possível acontecer num bosque requer instrução. Os nomes de ruas devem então falar àquele que se perdeu como o estalar de ramos secos e pequenas ruas no interior da cidade devem reflectir‑lhe as horas do dia com tanta clareza como se fosse um vale.

 


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