Defski: “Consegui novas texturas e enveredei por caminhos que não eram possíveis há 10 anos”

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Defski editou um novo EP pela Língua Nativa. O produtor esteve à conversa com o Rimas e Batidas e revelou vários detalhes importantes na sua caminhada até chegar a O Dadaísta de Gabú.

O produtor franco-portugês fez parte do grupo Factor Activo entre 1991 e 2006 e agora, a solo, tem aproveitado toda a experiência que adquiriu, traduzindo-a em novos trabalhos. Também conta com criações dedicadas às artes performativas, para as quais contribuiu com várias paisagens sonoras, e ganhou destaque na americana 8Dio, onde assinou algumas das texturas presentes nos bancos de sons “Free Radicals” e “Free Angels” para o software Kontakt.

Em O Dadaísta de Gabú, o produtor traduz em sons uma rica experiência pela qual passou na Guiné-Bissau. Entre samples e novas técnicas de composição rítmicas, Defski destaca ainda a importância das vivências que adquiriu num ciclo mais fechado em conjunto com alguns griots locais.

 


Já lá vão mais de 10 anos desde a tua estreia no projecto Factor Activo. O que é que mudou  no teu som, e em especial neste EP a solo?

Houve uma mudança a nível da composição. O Ableton Live permite-me outro tipo de manipulação. A aquisição de um Moog Sub Phatty levou a uma abordagem diferente no que toca às linhas de baixo. Mantive a minha opção pelo analógico, mas o Juno 106 ficou de lado. Consegui novas texturas e enveredei por caminhos que não eram possíveis há 10 anos. O meu som é muito diversificado, mas, para mim, continua a ser hip hop. Continuo fiel aos Public Enemy e aos Run The Jewels.

No teu currículo somas várias edições internacionais. Como surgiram essas oportunidades e que experiência retiras delas, nesse acto tão tipicamente português de descobrir novos caminhos além fronteiras?

Tive oportunidade de editar pela 8Dio (editora de San Francisco) uma série de texturas sonoras produzidas para o software Kontakt. Em Factor Activo, experimentávamos muito com todo o tipo de sintetizadores, do DX7 ao MiniMoog. Tínhamos acesso a muito material. Após esse período ao trabalhar durante vários anos com companhias de teatro, fui acumulando um certo “savoir-faire”.

Em relação à Língua Nativa, é uma editora que defende uma certa visão progressista que eu também defendo. Por isso, contactei o Ricardo Cascalhar via email e ele mostrou-se logo interessado em editar o EP.

Procuro sempre novos caminhos, seja em Portugal seja no estrangeiro, tento sempre evoluir e aprender com outros músicos/produtores. Tive a sorte de trabalhar ao lado de Pierre Bastien, o protegido de Aphex Twin, um génio com quem aprendi imenso.

Na press release do novo trabalho falas na viagem a Gabú. Foi importante enquanto fonte de novos samples?

A nível de percussão foi muito profícuo. Acabei também por gravar algumas vozes, gravei muitas ambiências que aparecem transformadas em texturas dificilmente reconhecíveis, mas estão lá, em cada tema estão presentes.

Como é procurar pelas “raízes do hip hop” num local que nos parece tão distante dessa cultura americana?

Ao ter crescido numa “Cité de Transit” em França, a minha percepção do hip hop tem um lado muito cosmopolita. No início dos anos 80, os meus amigos mais velhos ouviam muito funk, muita música brasileira, o reggae tinha uma legião de seguidores, o costa-marfinense Alpha Blondy era um monstro sagrado. Em relação à música portuguesa, eu gostava de ouvir os Bombos de Lavacolhos e pouco mais. Quando surge o hip hop para nós era uma continuação, era música negra, e começaram a aparecer aqui e ali programas em que se falava de “griots urbanos”. Fiquei um bocado intrigado e fui tentando perceber o que eram os tais griots. Há dois anos atrás tive oportunidade de viajar e viver durante um longo período na Guiné-Bissau, e aí percebi melhor toda a componente do ritmo e dos ciclos inerentes à iniciação do griot. Descobri igualmente alguns instrumentos musicais.

Uma coisa é a Internet ou os documentários do Canal Arte, outra é viver dentro de comunidades muito fechadas, partilhando vivências e emoções.

Em O Dadaista de Gabú, tens uma abordagem ao hip hop mais “dançável”, meio disco, quase a fazer lembrar as batidas que ouvimos nos campeonatos de breakdance, bem como um par de temas mais virados para o downtempo e o experimental. Qual foi a receita para este trabalho?

Neste EP a solo, tudo passou por mim: toda a programação, as texturas sonoras, o sampling, os temas a serem incluídos. Portanto, é um trabalho mais pessoal. Tem um lado old school muito ligado ao breakdance, pois foi por aí que eu abracei o movimento hip hop por volta de 1984. Semanalmente, via o programa homónimo que era transmitido na TF1 (canal de televisão francês). Aí descobri a Rock Steady Crew, Sugarhill Gang, Herbie Hancock, Afrika Bambaataa… Era uma revolução e eu tinha 11 anos. Neste EP, tento ir buscar à fonte sem esquecer um lado experimental que já existia no Factor Activo. Sempre fui muito influenciado por MC 900 Ft. Jesus e sempre gostei de “brincar” com sintetizadores analógicos.

 


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira