David Mancuso (1944 – 2016)

[TEXTO] Pedro Tenreiro [FOTO] Direitos Reservados

 

Toda a vida fui apaixonado por discos. Por quem os gravava e por quem os dava a conhecer. Sim. Porque, na minha geração e na que me antecedeu, passar discos para uma audiência era algo compulsivo, que reflectia o amor pela música e o desejo incontrolável de a partilhar. Não uma perspectiva de carreira que nos podia levar à fama, ao dinheiro e a um estilo de vida estrelar.

Talvez por isso tenha um fascínio tão grande pelos artistas por de trás da música que me arrebata, como pelos divulgadores que conseguiram que ela chegasse até mim. Quem ouve o Poder Soul percebe isso facilmente.

E ninguém terá feito isso como David Mancuso fez.

Nasceu em Utica, foi criado por uma freira num pequeno orfanato, engraxou sapatos durante a adolescência e mudou-se para Nova Iorque, em 62. Teve vários empregos, mas a sua obsessão pela música acabou por falar mais alto. Em 1970, começa a dar festas no seu Loft. Eventos que começavam depois da meia-noite e que estavam reservados aos amigos. E os amigos começaram a ser muitos.

Quase tudo nas suas festas contrariava aquilo que se explorava nos clubes.

Acessíveis apenas a convidados, a quem era pedida uma contribuição que cobria tudo aquilo que iriam usufruir, nas festas do Loft não se servia álcool, servia-se música com um cuidado extremo, para pessoas de todo o género, unidas por uma paixão comum. Nada era deixado ao acaso e tudo com um só objectivo: partilhar grandes discos nas condições ideais. O som, concebido em colaboração com Alex Rosner, era perfeito e toda a atmosfera também.

De repente, toda a gente em Nova Iorque ligada aos discos passava por lá. Desde os percursores – Francis Grasso, Steve D’Acquisto ou Michael Cappello – aos que moldariam o futuro – Nicky Siano, Larry Levan, François Kevorkian, Frankie Knuckles. E tudo era partilhado, sem segredos, o que, tendo em conta a quantidade de temas que Mancuso desvendou, faz com que haja um antes e um depois do Loft.

Lá moram as fundações da modernidade, tal como a conhecemos. Na forma emocional e afectiva como conviviam Barrabas, Blackbyrds, Alfredo de La Fé, Manu Dibango, Rinder + Lewis, Demis Roussos, Risco Connection ou Sun Palace.

Descobri o trabalho de David Mancuso nos anos 90, numa altura em que, depois do pós-punk me ter levado ao hip hop, ao house, ao rare groove e ao acid jazz, me dedicava a escavar todas as coisas Disco.

Através dele percebi que nem tudo era Disco, nestas coisas do Disco, como já tinha percebido que nem tudo era House, nestas coisas do House. Que, quando a música é dançada em comunidade, qualquer tema que valha a pena tem o seu lugar. Terá sido também o primeiro a mostrar-me que, se as canções forem do outro mundo e se as amarmos, não há como não contagiar.

Fez o amava até ao fim, sempre com níveis de exigência que reflectem bem a excelência do seu trabalho. E não precisou de tocar ou gravar o que quer que seja para ter ajudado a moldar o futuro.

Inspiração em estado puro!

 


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