Crónicas de um HipHopcondríaco #9: Esconjurar demónios

[TEXTO] Manuel Rodrigues [ILUSTRAÇÃO] Riça

Paris é uma cidade que vive em constante sobressalto – assim como toda a França e a Europa em geral. Os ainda muito recentes ataques terroristas naquela que é considerada a capital do amor residem frescos na memória de cada um, seja pela perdas de familiares, amigos e conhecidos no massacre na redação do Charlie Ebdo (12 mortos; 5 feridos) e na carnificina no Le Bataclan (180 mortos; 350 feridos), ou pelo facto dos locais em questão serem, especificamente no caso da sala de espectáculos parisiense, espaços destinados ao lazer, onde, naquele dia e àquela hora, qualquer um de nós se poderia encontrar. É precisamente este o maior propósito deste tipo de crime: semear o medo e a insegurança sem nunca deixar adivinhar o quando e o onde.

Tal aleatoriedade cria um normal nervosismo e uma compreensiva inquietação nas pessoas que todos os dias são obrigadas a cumprir com a sua rotina profissional e, claro, a gozar os seus merecidos momentos de ócio com familiares e amigos. E tal situação ainda se agrava quando o país e a cidade em questão já foram palco de diversos ataques terroristas, situação essa que eleva ao cubo a insegurança e a necessidade de um contínuo estado de emergência. Por vezes, nem uma simples caminhada pela rua vive à margem de tal perigo, como servem de exemplo os episódios de Nice, em plena Promenade Des Anglais (84 mortos; 18 feridos), a 14 de Julho de 2016, feriado nacional, e de Barcelona, no coração das Ramblas (13 mortos; 100 feridos), a 17 de Agosto de 2017.

Há coisa de três semanas, viajei até Paris para testemunhar na primeira pessoa a passagem de Jay-Z e Beyoncé pelo Stade de France, em Saint-Denis, num concerto inserido na digressão On The Run II. Sendo este um momento único, decidi vivê-lo por inteiro, participando nas duas noites propostas no imponente estádio da capital francesa. A primeira com lotação esgotada e a partir do topo da bancada que fica de frente para o palco, com o intuito de medir a temperatura de 80 mil pessoas em ebulição; a segunda com casa cheia e em pleno relvado, a escassos metros do palco, para sentir de perto a energia emanada pelo casal mais poderoso do mundo – o resumo desta magnífica experiência poderá ser encontrado nas páginas digitais do Rimas e Batidas. Mentiria com os meus dentes todos e mais alguns se dissesse que não me passou pela cabeça a possibilidade de um acto terrorista nestes dois dias de evento. Passou-me, sim. Várias vezes.

Em França, todo o cuidado parece ser pouco. Na minha chegada ao aeroporto de Beauvais, a cerca de 79 quilómetros de Paris, deparei-me com uma situação pouco casual e que nunca testemunhara nos restantes aeroportos europeus onde aterrara: um cão-polícia a caminhar sobre o longo tapete rolante e a farejar bagagem a bagagem em busca de engenhos explosivos. Este era um fim-de-semana de festa na capital francesa. Primeiro, com as celebrações do 14 de Julho, ao longo dos Champs-Elysées, passados dois anos do massacre em Nice; segundo, com todo o frenesim criado pelo jogo da final do Mundial 2018, disputado entre a França e a Croácia, do qual os “Les Bleus” saíram vencedores, desencadeando várias festas pelo centro e arredores da cidade (e obviamente por todo o país). Talvez fosse essa a razão do cuidado redobrado no aeroporto, bem como nas ruas em geral, onde por diversas vezes vi militares a fazerem a ronda armados até aos dentes.

Na entrada para o Stade de France, logo no primeiro dia, a história repetiu-se. Revista de cima a baixo, minuciosa, realizada a uns generosos metros das entradas principais. Algumas ruas bloqueadas com viaturas da polícia atravessadas ao comprido e, claro, todo um contingente preparado para aquilo que mais se aproximava do início de uma guerra do que propriamente de um concerto, ou não estivesse na memória também ela recente o atentado no exterior da Manchester Arena (22 mortos; 60 feridos), no final da actuação de Ariana Grande, no dia 22 de Maio de 2017.

Apesar do concerto se ter iniciado por volta das 20 horas, as portas do recinto abriram umas horas mais cedo como forma de evitar a confusão nos acessos para as bancadas e relvado. Durante esse período, um DJ tratou de fazer o warm-up da festa, com um set que viajou dos clássicos da costa oeste dos Estados Unidos, como “California Love” e “Still D.R.E.”, aos temas que compõem a actualidade do rap, como “Praise the Lord” e “God’s Plan”, com esta última a ser entoada a plenos pulmões por uma moldura humana de causar arrepios – isto para não esquecer uma “Tonton du Bled” que fez maravilhas a jogar em casa. Nesse mesmo intervalo temporal, o público celebrou como conseguiu, acompanhando as letras das músicas, ensaiando alguns cânticos e desenhando uma bela e sincronizada ola mexicana. Naquele momento, depois de também ter participado no coro do single de Drake e de ter surfado na onda que varreu o estádio de lés-a-lés, comentei comigo próprio que ninguém, em circunstância alguma, seja qual for o motivo ou a justificação, tem o direito de nos roubar esta felicidade, estes momentos em que os corações batem como um só, esta liberdade de ser e estar, sem receio, despreocupados, felizes. Ninguém.

Apagadas as luzes e exorcizado o medo, era chegado o momento da noite. Restava-me aproveitá-lo ao máximo.

 


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