Crónicas de um HipHopcondríaco #8: uma jogada de sorte

[TEXTO] Manuel Rodrigues [ILUSTRAÇÃO] Riça

Se as minhas contas não estiverem erradas (acreditem que sempre fui melhor aluno a português do que a matemática, apesar de ter escolhido erradamente o agrupamento científico-natural na secundária) e dado o facto do álbum em questão ter sido editado em 2000, o episódio que se segue deu-se por altura dos meus 14 anos, andava eu ainda a gatinhar nesta coisa do hip hop.

Nunca fui louco por futebol. Sempre gostei de ver um bom jogo, com amigos, de preferência com umas minis e uns tremoços à frente, mas nunca perdi a cabeça com tal modalidade – aliás, se me perguntarem qual o 11 do meu clube, é muito provável que eu não o saiba discriminar. Infelizmente, e porque há pessoas que levam isto demasiado a sério, já me aconteceu ter que chamar um par de amigos à razão por estes não saberem tolerar uma brincadeira futebolística. Chama-se a isso fanatismo. É demasiado triste quando alguém parte para palavras menos simpáticas e, por vezes, ameaças físicas quando se esboça uma piada relacionada com o clube pelo qual torce (a título de curiosidade, devo ser dos poucos benfiquistas que acha piada à versão “Penta Xau”, derivada da tradicional italiana “Bella Ciao”). Não é sempre melhor rir do que levar as coisas demasiadamente a peito?

Este meu desapego com o futebol não é de agora. Quando era mais novo e apesar de ter feito uma mão cheia de treinos no Almancilense (Almancil, Algarve), nunca cheguei a envolver-me em demasia. Por outro lado, achava uma certa piada ao basquetebol. Não sei explicar o porquê. Talvez fosse derivado às grandes lendas da modalidade, algumas das quais ainda apanhei em função na minha juventude. Gostava de jogar mas gostava ainda mais de ver jogar. Não foram poucas as vezes em que assisti a torneios dentro e fora da escola que frequentava. Vibrava com as bandas sonoras, todas elas maioritariamente constituídas por clássicos de hip hop. Era um paraíso nesse sentido.

Certo dia, fui assistir a um jogo de basquetebol em Quarteira, perto de Almancil. Já não me recordo se ia sozinho ou acompanhado mas lembro-me que a dada altura do embate entre as duas equipas soou no PA um tema (entre muitos de 2Pac, Biggie, Nas, Jay-Z e tantas outras bandeiras daquele tempo) com um groove especial que casava na perfeição com as acelerações, defesas e afundanços dos atletas em cena. Era uma canção com um beat forte, propulsionado por uma possante secção de metais e assente num sample viciante que parecia ele próprio querer marcar a cadência do jogo. Várias vozes masculinas nos versos; uma voz feminina no refrão. Não sabia qual era a banda, mas fiquei rendido naquele preciso momento. O jogo chegou ao fim e na mesma fiquei. Não havia Shazam na altura.

Dei voltas aos CDs que tinha em casa, às colecções de discos dos meus amigos, tentei a todo o custo descobrir um rasto que me transportasse até à canção. Nicles. Hoje em dia seria tarefa fácil. Bastaria introduzir o refrão ou um excerto do verso no Google para ser imediatamente remetido para a totalidade da letra em questão e, consequentemente, para a música. Há dezoito anos, o termo googlar não só não existia como tenho as minhas sinceras dúvidas que uma pesquisa do género no Altavista (um dos motores de busca mais utilizados) me levasse a algum lado. Assim continuei, com o ritmo e melodia a ecoarem na cabeça, mas longe de saber a quem pertenciam. Os dias passaram-se, a esperança esvaiu-se.

Tinha por hábito comprar os meus discos numa loja localizada na marina de Vilamoura, um autêntico ermo em pleno coração de um dos maiores símbolos da riqueza e ostentação. Havia muito rock, música clássica, jazz e pop. Havia também, num cantinho muito tímido e, se bem me recordo, mal identificado, alguns álbuns de hip hop. Foi nesta loja, aliás, que comprei o meu primeiríssimo disco de rap (uma história para relatar num futuro episódio desta crónica). O ritual era quase sempre o mesmo. Chegar, dirigir-me à zona em questão e vasculhar até encontrar algo do meu agrado. Penso que não havia hipótese de fazer uma pré-escuta dos CDs, ou seja, levava os objectos para casa quase às cegas. Em alguns casos era um verdadeiro tiro no escuro. Lembro-me de um dia ter ficado vidrado num álbum com um “W” gigantesco na capa. O fundo era escuro e a letra em si também. Na verdade, era uma sobreposição de um “W” de pedra sobre um outro “W” mais abstracto que não me era nada estranho. Já o tinha visto estampado na roupa de alguns colegas de escola. A parte de trás do disco mostrava um conjunto de pessoas vestidas com fatos de macacão em que uma delas segurava orgulhosamente um lenço com as iniciais “O.D.B.”. Nem pensei duas vezes e levei o álbum comigo.

Tratava-se de The W dos Wu-Tang Clan, aquela que eu ainda considero ser a melhor obra alguma vez editada do colectivo. É bomba atrás de bomba, clássico atrás de clássico, interligados pelo fio da espada forjada numa das mais interessantes academias de hip hop norte-americano, a de Shaolin. Foi este o meu primeiro contacto a sério com uma das mais nobres bandas da história da cultura (apesar de já me ter cruzado anteriormente com Method Man, por altura do álbum Significant Other dos Limp Bizkit, à boleia do tema “N 2 Gether Now”). E qual não foi a minha surpresa quando, perto do final do disco, isto na primeira escuta efectuada, me deparo com o tão procurado tema-pautado-por-uma-secção-possante-de-metais-e-um-sample-viciante, banda sonora de um jogo de basquetebol a que assistira há meses atrás? Explosão de alegria no preciso momento em que “Gravel Pit” rasgou os altifalantes da minha aparelhagem, naquele que terá sido, muito provavelmente, o melhor shazam da minha vida.

Ainda hoje não a oiço sem me lembrar imediatamente daquele jogo em Quarteira. Mais depressa a associo à imagem de pessoal a encestar da linha dos três pontos do que propriamente ao vídeo com alusões pré-históricas que a acompanha.

Que clássico, este.

 


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