Crónicas de um HipHopcondríaco #4: Satori, o tanatório

[TEXTO] Manuel Rodrigues [ILUSTRAÇÃO] Riça

No dia 16 de Agosto de 2017, Mundo Segundo e Sam The Kid subiram ao palco da discoteca Bliss, em Vilamoura, para apresentarem mais um episódio do concerto em conjunto que já há algum tempo vem fazendo as delícias dos fãs da obra individual e partilhada dos dois rappers e produtores. A grande surpresa deste espectáculo em particular focou-se não só na escolha de “O Recado” para integrar o alinhamento (esta era a primeira vez que eu me cruzava ao vivo com um dos mais nobres storytellings de Samuel Mira), mas também na aceitação que o concerto recebeu no seio de um público que, na sua maioria, pouco ou nada compreendia da língua articulada, o que prova que o hip hop, apesar de viver muito da palavra, transporta consigo uma mensagem universal.

No final da actuação tive oportunidade de privar com Mundo e Sam. Foram várias as temáticas abordadas, algumas delas relacionadas com o passado e presente do hip hop, onde não se esqueceram as quatro vertentes que representam a cultura e, claro, recordando alguns dos seus principais ícones. O facto de nos encontrarmos em Vilamoura levou, todavia, a que a conversa desembocasse numa mão cheia de eventos realizados na região mais a sul de Portugal, dos concertos na discoteca Black Jack, onde o malogrado episódio com o mini-disk de Sam The Kid atingiu proporções de clássico (dada a avaria no aparelho, o rapper de Chelas optou por continuar a actuação em modo improviso, que contou ainda com a participação de Élton Mota, actualmente conhecido como Perigo Público), ao festival no IRS (que ainda hoje em dia é saudosamente relembrado por alguns dos que marcaram presença), aos eventos na Associação Recreativa e Cultural de Músicos de Faro, que conta com uma extensa lista de apresentações ao vivo.

 



Depois de longos minutos de partilha de informação e de confirmada a falência dos discos rígidos que muitas vezes consideramos eternos (falo por mim, claro), eis que Mundo evoca um lugar icónico, localizado em pleno concelho de Loulé, o Satori.

Guardo muito boas recordações deste espaço, não só das festas de hip hop em geral mas acima de tudo de um concerto em particular, o de Fuse. Não sei ao certo a data, mas penso que terá acontecido há cerca de década e meia, quando ainda nem sequer sonhava vir morar e trabalhar para Lisboa. Perante uma generosa moldura humana, Fuse, o mais sombrio elemento do quinteto dealemático, serviu um espectáculo intenso, recheado de canções retiradas da sua caminhada a solo, tingidas com o seu habitual negrume de fazer inveja a muitas bandas de inclinação satânica, uma assinatura que foi ao encontro das próprias características do Satori, casa-mãe de muitas actuações oriundas do universo mais obscuro do metal (a própria decoração do espaço, com teias de aranha e caveiras por tudo quanto era sítio, ia nesse sentido).

Era curiosa a forma como os artistas de hip hop eram recebidos no Algarve, com a adoração de quem só tinha a oportunidade de ver os seus profetas de cinquenta em cinquenta anos, quase como se se tratassem de cometas num longo e demorado processo de translação. Era assim um pouco por toda a parte, do sotavento ao barlavento, com igual aclamação. Contudo, havia um lugar especial em Salir onde as forças se alinhavam todas, de modo ímpar, como se de um raro fenómeno bíblico se tratasse. A peregrinação a Fátima pode não ser coisa fácil, mas a viagem até ao Satori não lhe ficava nada atrás.

Por mais que todos os caminhos levem a Roma, nem todos são os mais directos e confortáveis. O percurso até ao Satori fazia-se por entre curvas e contracurvas tumultuosas, facilmente equiparáveis às mais complexas provas de rally. A inexistência de smartphones e de sistemas de navegação acessíveis, num tempo em que a palavra tomtom era exclusivamente associada ao instrumento de percussão que muitos produtores usavam nos beats, levava a que fosse muito fácil a malta perder-se nos matos circundantes. Os carros arrancavam ao mesmo tempo, mas havia sempre quem aparecesse quase uma hora depois. Por norma, a alegria de ver ao longe o grande casarão e o riacho que ao seu lado fluía era motivo mais que suficiente para suplantar a frustração de ter gasto mais combustível em voltas manhosas. “Andámos perdidos” eram as palavras mais ouvidas à entrada do santuário.

Não obstante o cansaço provocado pelos longos minutos de condução, que levava a que a chegada a Salir se fizesse tardia, o ritual acontecia da mesma forma, com a mesma intensidade. Não é por isso de estranhar que o concerto de Fuse tenha sido tão celebrado no seio da audiência, que chegou, inclusive, a entoar um dos temas propostos de ponta a ponta, numa altura em que o rapper desligou sem querer a ficha XLR que ligava o cabo ao microfone – se não estou em erro, o espanto de Fuse, visivelmente satisfeito com o que diante dele sucedera, levou-o a entregar o microfone, já conectado, a uma pessoa na plateia que não perdoou uma palavra que fosse à letra. Tenho a certeza que Fuse guarda este momento na sua memória, assim como nós, os algarvios, guardamos com especial estima a sua passagem pelo sul.

Satori, para sempre o nosso sagrado necrotério.

 


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