Como transformar um auditório de brandos costumes numa eficaz pista de dança: o manual de Xinobi posto em prática no CCB

[TEXTO] Manuel Rodrigues [FOTOS] Nash Does Work

Há músicos que parecem ter consigo uma espécie de magneto capaz de contagiar tudo em seu redor. É o caso de Xinobi, músico e produtor que subiu ao palco do Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém, ontem, no contexto de mais um CCBeat, para apresentar ao vivo On The Quiet, o mais recente álbum, editado no decorrer deste ano. Bastou-lhe uma mão cheia de palavras logo no início da actuação (qualquer coisa como “é a primeira vez que estou a tocar para uma plateia sentada”) para injectar uma espécie de concentrado de energia no público, que prontamente abandonou os lugares onde se encontrava sentado, confortável, para tratar de mexer o esqueleto, como se a íngreme plateia em questão tivesse de repente adquirido propriedades de pista de dança. Foi assim desde a terceira música, “Morning Fix”, até ao final do concerto, quando Xinobi convidou Paulo Furtado para dar guitarra e voz a “Do Come Home” (do repertório de Tigerman) e “Bogotá”, tema que encerrou o espectáculo com chave de ouro, no qual os músicos deram o tudo por tudo perante uma plateia que parecia querer tudo menos ir para casa.

Os momentos que antecederam a entrada de Xinobi em palco não faziam prever tal desfecho. Nem a música ambiente, a trazer à lembrança aquelas compilações recheadas de sons da natureza para relaxar corpo mente; muito menos o palco decorado com abacaxis (peças de fruta que casaram na perfeição com a faceta tropical de “Crime”, lá mais para meio do alinhamento). Quem diria que este cenário quase paradisíaco acabaria por herdar os contornos de uma efusiva e ritmada discoteca? Xinobi, claro. Por mais que o espectáculo tenha arrancado de forma calma e serena, ao som de “Deriville” (Máximo Francisco no piano acompanhado pelo respectivo poema em francês) e “Skateboarding” (batidas e melodias que nos trazem à lembrança as dinâmicas de um circuito de skate, recheadas de ollies, kickflips e grinds), o anfitrião da noite não esperou pelo fim do tempo regulamentar para ter o público na mão e fez questão de sacar de trunfos como “Morning Fix” e “And I Say” (versão do original de Nicolas Jaar) logo no início – desde então secundado pela sua banda de suporte, constituída por Sequin, Óscar Silva e Vasco Cabeçadas.

 


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No campo das participações especiais (prometidas no preâmbulo do concerto), o destaque vai para Mike El Nite. O rapper e produtor lisboeta, conhecido pela sua assinatura vocal e pela qualidade da sua rima, emprestou a voz a “See Me” e “Searching for”, de telemóvel em riste (“peço desculpa mas uma boa parte da letra foi escrita hoje”, partilhou com os presentes), usando e abusando da homofonia de palavras como “a cena” e “acena”, com a destreza de Ayrton e a pujança de John. À sua direita, de guitarra à tiracolo e de sorriso estampado na cara, Xinobi tratou de garantir o instrumental que, mais uma vez, colocou o público a bater pé – houve ainda tempo para ouvir uma remistura de “Darkest Night”, do produtor Moullinex (Luís Clara Gomes fez também parte do momento), e “Far Away Place” (que contou com a participação de Margarida Falcão, das Golden Slumbers). Tudo isto acompanhado por um jogo de luzes sóbrio, onde uma fileira de barras de led assumiu principal protagonismo, acendendo e apagando de modo alternado e síncrono.

Sempre comunicativo, Xinobi tratou de derrubar todas e quaisquer barreiras que pudessem existir entre o palco e a plateia, criando uma espécie de ponte de fácil transposição. Começou por perguntar se o público já tinha jantado (a aproximação do horário de início do concerto à hora de saída do trabalho deixou muita gente sem o merecido repasto e reposição de energia), assumiu-se fã dos convidados da noite (recorda ter sido em Coimbra – cidade onde nasceu mas onde nunca chegou a viver – o seu primeiro contacto com os Tédios Boys de Paulo Furtado) e ainda escreveu o epílogo para a noite, depois de ter admitido não ser fã de encores, numa altura em que o Pequeno Auditório do CCB se estava quase a transformar numa sala de convívio, com o artista e público a trocarem agradecimentos e impressões (“há Dâm-Funk daqui a pouco no Lux”, relembrou…). Bizarra mas eficaz discoteca, esta.

 


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