Club Atlas: “Olhar para tudo com uns olhos novos”

[TEXTO] Alexandra Oliveira Matos [FOTO] Direitos Reservados

Cresceu na Amadora e a única ligação familiar à música é o facto de um bisavô ter tocado banjo, conta-lhe a mãe. A verdade é que na vida e na música de Branko tem cabido um pouco de todo o mundo. No Club Atlas, que estreia dia 19 de Fevereiro na RTP2, não é diferente.

Lisboa, Cidade da Praia, em Cabo Verde, e Lima, no Peru: foram as três primeiras escolhas de uma produção “feita muito a três”, revela. João Barbosa fez-se rodear de amigos, o realizador João Pedro Moreira e Rastronaut, para levar a bom porto esta demanda pelo que anda a ser feito por aí na cena musical electrónica, com todas as raízes que nela cabem. Pelo meio, “estar à beira de um AVC várias vezes durante o ano 2017” foi mesmo o pior, assegura o produtor, ansioso por que todos possam ver o resultado final de vários meses de viagem e mais ainda de produção e pós-produção.

“A música e a forma como a música aproxima as pessoas socialmente e tudo isso acaba por nos fazer olhar para cidades de forma diferente, olhar para a música de forma diferente, olhar para tudo com uns olhos novos”, assegura o artista. Lisboa é como que “o episódio zero” e em momento algum é esquecida a multiculturalidade da cidade, das cidades, e da música. Há até algures, num dos episódios, um dos muitos entrevistados que define a Amadora como “a décima primeira ilha de Cabo Verde”. Revelador?

Como fruto de toda esta imersão, o músico diz que passou a segunda metade de 2017 a produzir e que há uma música para lançar em breve com os Dengue Dengue Dengue e a família Ballumbrosio — que ficamos a conhecer no episódio de Lima. No caminho, Branko não perde a oportunidade de “aproveitar o espaço para dizer as coisas” que observa. “Não são uma provocação a ninguém especificamente, é só o tentar abanar da estrutura a ver o que cai — se caem as coisas que já estão podres e vão outras coisas mais recentes e mais frescas para o lugar delas”, acrescenta.

 



De onde e de quem surgiu a ideia? 

A ideia nasceu de um projecto que eu fiz paralelamente enquanto estava a gravar o Atlas, chamado Atlas Unfolded, em parceria com a RedBull. No fundo foi agarrar no processo de gravação do disco, que passou por cinco cidades diferentes, e cada uma dessas visitas a essas cinco cidades deu um episódio de uma webseries que ainda está disponível neste momento no YouTube. Essa é um bocadinho, digamos, a ponta do icebergue de ideias e de coisas que eu continuei a tentar construir. A partir daí eu sempre achei que havia possibilidade de contar toda a esta história da música electrónica que mistura o tradicional com produção em computador ou o que quer que seja, de contá-la de forma super abrangente e para pessoas que não têm de estar necessariamente tão dentro da cena ou tão ligadas à música ou tão especialistas dos géneros – no fundo de uma série de coisas que uma pessoa sabe e anda sempre a tentar vender e desvendar pelo mundo todo. Então cheguei a esse formato e a essa ideia de um programa de televisão que no fundo é um travel show, tal como existem milhares sobre comida, mas este é sobre música.

De que é que gostaste mais em todo este processo, em todas estas viagens que fizeste para este programa?

Acho que o que gostei foram mesmo as viagens. É uma pergunta que acaba por ser fácil. Há muita pré produção, de contactos, de escolhas. Contextualizando, a produção esteve na nossa mão do princípio até ao fim – não foi feito por uma produtora e eu só apareci para filmar. Foi mesmo todo um processo que começou por escrever um formato, depois pela escolha de cidades, escolha de personagens dentro dessas cidades, escolha de locais a visitar. Depois toda a pós-produção e, como estivemos quase sempre a filmar tudo a toda a hora, ainda houve um guião que foi escrito após as viagens e uma construção de cinco dias para tentar encaixar num formato de dois dias de programa. Obviamente que a parte mais divertida disto tudo são as viagens, o resto são milhares de e-mails e de horas em frente ao computador a ver milhares de gigabytes de brutos.

Participaste então em grande parte do processo, o teu nome aparece várias vezes nos créditos das várias partes técnicas incluindo a realização. Isso não foi novidade para ti?

Acho que sempre fui uma pessoa interventiva, de ideias e de comunicação. Eu não consigo estar envolvido num projecto sem tentar contribuir um bocadinho com… se eu tenho uma ideia vou tentar passá-la ao máximo possível. O convite que fiz ao João Moreira para fazer isto comigo aconteceu porque sei que ele também é uma pessoa com quem consigo dialogar bem e conseguimos os dois chegar a uma ideia interessante. Confio muito nele, no trabalho dele e acho que ele é um realizador excelente que desde sempre teve uma sensibilidade gigante para tudo o que tenha que ver com música — obviamente que isso tem que ver com o facto de ele também ser músico e de ele ter essa linguagem. Dou-lhe espaço total para ele fazer o que acha que tem de fazer, e ele também me dá espaço total para eu tentar impor aquilo que eu acho que são as coisas que têm de acontecer, aquilo sobre o qual cada personagem tem que falar e todos esses pormenorzinhos. Acabámos por nos completar bem. O João Pedro Silva, que é o DJ Rastronaut, também acompanhou o processo todo em termos de criação de todos os conteúdos e de definição daquilo que vieram a ser depois hoje os episódios. No fundo, foi uma coisa feita muito a três.

E muito em família, como a Enchufada, não é?

Foi um bocadinho essa a ideia. A partir do momento em que a RTP comprou a ideia, havia várias voltas a dar a isto. Ponderei falar com uma produtora grande, acho que seria interessante para qualquer produtora pegar neste projecto. Obviamente que não seria um projecto para ganhar dinheiro, mas seria um projecto de charme. Pensei em vários formatos de como fazer e de como conseguir pôr em prática o projecto. Passado uma fase de digestão, de como é que eu queria fazer, cheguei mesmo à conclusão de que o que faria sentido era sermos nós a fazê-lo, porque tínhamos tanto uma noção daquilo que queríamos ver a acontecer.

E o que é que gostaste menos ou foi mais difícil?

O que gostei menos foi o facto de ser um processo bastante moroso. Sempre fiz música, sou produtor de música, e para mim os timings da música estão completamente encaixados na minha cabeça. A partir do momento em que estou no estúdio tenho mais ou menos noção de quando é que a música vai estar pronta para estar na rua, acho que tenho já uma calendarização automática dos eventos todos que começam com o terminar de uma música e quando é que a mesma vai ter realmente resultados. Neste caso eu não fazia ideia nenhuma! Portanto, a coisa mais difícil de controlar era aquela ânsia de ver as coisas a avançarem com uma velocidade muito maior. Ver materializar-se a ideia, já com a junção dos elementos todos. Houve bastante outsourcing de várias coisas, toda a parte gráfica veio da Solid Dogma, por exemplo, as legendas vieram de outro sítio. No meio disso tudo há muita imaginação à mistura até se conseguir ver um episódio finalizado. O que gostei menos foi mesmo isso, estar à beira de um AVC várias vezes durante o ano 2017.

Há um senhor em Lima que te apresenta como DJ e jornalista. Como é que foi ser jornalista?

Pois foi! [risos] Foi brutal a relação que ele fez, ele diz “periodista” e a ficha caiu-me nessa altura, quando ele disse essa frase. Pensei: realmente o que eu ando aqui a fazer é meio jornalístico e eu ainda não tinha pensado muito no assunto. Não o vejo tanto como um lado jornalístico, mas como uma curadoria que eu já faço mais vezes na minha vida. Continua a ser mais um lado de apresentação de música e de pessoas, essa sempre foi a minha interpretação. Não me senti jornalista, não senti que tinha de contar a história real, senti que tinha de contar a minha história, a minha perspectiva dos acontecimentos. Se calhar ninguém explicou isso ao senhor em Lima [risos].

Mas no fundo cada episódio é, digamos, um shot fortíssimo de conhecimentos para quem está a ver. São 30 minutos, ou quase, muito enriquecedores. Também o foram para ti?

Completamente. A produção de tudo isto foi uma viagem enorme entre aquilo que era a minha ideia do que iria filmar e de com quem ia falar nos sítios até depois realmente estar, essas pessoas começarem a falar comigo e termos que construir uma história com aquilo que nos estavam a contar, termos que acrescentar uma série de outras coisas que não estávamos minimamente a ponderar que teríamos de falar e que de repente enriqueceram muito mais o episódio e serviram para todos nós, que estávamos envolvidos no processo, estarmos constantemente a aprender. Confesso que era um bocadinho naïf e tinha uma ideia um bocadinho inocente do que eu achava que ia encontrar nos sítios. Desde a primeira viagem que fizemos para filmar um dos episódios que senti que todas as ideias iam ser construídas à medida que íamos caminhando e à medida que iam passando os dias e as entrevistas. Houve um reequacionar de cada episódio a meio de cada viagem de filmar esse episódio.

Qual foi o conhecimento, a descoberta, que mais te surpreendeu? Consegues destacar?

Acho que o episódio de Lima, talvez por ser uma cidade em que nunca tinha estado. Em todo o episódio falei com pessoas que me surpreenderam imenso. Toda a experiência que tive numa cidade a duas horas de Lima, chamada El Carmen, em que fomos conhecer a família Ballumbrosio que nos apresentaram toda a cena afro-peruana. Todo esse processo para mim foi sinónimo de passar dois dias inteiros de boca aberta simplesmente a ouvir a música, a falar com músicos, e depois — essa parte não está no episódio — acabei com toda essa gente no estúdio a fazer música. Portanto, correu bem.

Era o que te ia perguntar, se alguma destas viagens já tinha inspirado algum som que já saiu ou que está para sair.

Completamente. Todas essas viagens aconteceram na primeira metade de 2017, principalmente nos primeiros quatro meses, e passei a segunda metade de 2017 no estúdio a fazer música. Foi mesmo um shot total de inspiração e de criatividade em que obrigatoriamente tive de me fechar e fazer música. Há coisas que nascem directamente do resultado do episódio, como acabei de descrever do de Lima. Essa sessão de estúdio vai ter frutos em breve num tema que estou a criar com os Dengue Dengue Dengue, com a participação da família Ballumbrosio.

Já eras um trendsetter na música, digamos assim, achas que te podes considerar mais agora depois de as pessoas verem o Club Atlas na RTP2 ou tudo isto não te passa sequer pela cabeça? Vai chegar a mais gente, a pessoas que se calhar não estão despertas para esta Lisboa mestiça e para este mundo todo mestiço que vais mostrando. 

Não me tinha passado muito pela cabeça. É uma coisa de que já falámos e que eu costumo sempre dizer, as peças todas do puzzle encaixam muito bem — desde que começámos com esta aventura, Buraka Som Sistema, Enchufada, tudo isso. A narrativa é sempre a mesma e a ideia de celebrar a música, celebrar a diversidade, celebrar as potencialidades infinitas que toda a cena “do it yourself” trouxeram para a música electrónica e o facto de haver tantos núcleos de produção de música electrónica tão únicos no mundo. Tudo isto tem sido sempre a nossa história desde o início, ás vezes vai-se focando nuns pontos, outras vezes noutros. Para mim tudo isto é um continuar do mesmo filme que ainda não acabou, para mim ainda estamos sempre na mesma longa metragem e o Club Atlas é só uma forma de explorar um meio novo de entretenimento e de chegar a pessoas que se calhar têm uma forma de pensar sobre a música muito mais generalista e de tentar incutir-lhes um bocadinho um certo bichinho de que a música electrónica também tem este lado cultural, também tem este lado de celebração de cultura e de tradição. Essa é a ideia que tento passar com a série e acho que toda a realização e edição do João, o estar constantemente com imagens a acontecer, quase o trazer a Internet para a televisão, acaba por marcar e acompanhar de forma perfeita essa narrativa que estava a descrever.

Tens agora um espaço privilegiado para deixar algumas pistas ou dicas à indústria musical. Quando falas, por exemplo no primeiro episódio, do Deejay Telio e do facto de os músicos como ele ainda não estarem a encher grandes espaços em Lisboa. Sentiste aqui esta abertura e achas que é importante alguém como tu ir deixando essas pistas?

Se eu acho que é verdade, acho que é um espaço que vou tentar aproveitar para o dizer. Neste sentido, a partir do momento em que estou a fazer uma análise sobre o que está a acontecer em Lisboa — da mesma maneira que tenho uma análise de que se faz muito pouco com a música tradicional portuguesa — também acho que tenho de ter uma análise de que há música que acontece que continua invisível e continua a não ter uma expressão propriamente dita naquilo que são os meios de comunicação normais de música (os meios mais antigos, jornais e por aí), ou até mesmo em termos de uma estrutura de música construída em torno dos grandes festivais, grandes eventos em que vemos muitos artistas com milhões e milhões de plays e de seguidores a não tocarem nesses sítios. Sem dúvida que é de aproveitar o espaço para dizer as coisas que observo e que vejo à minha volta. Não são uma provocação a ninguém especificamente, é só o tentar abanar da estrutura a ver o que cai — se caem as coisas que já estão podres e vão outras coisas mais recentes e mais frescas para o lugar delas.

Achas que Lisboa não valoriza o que tem?

Acho que poderia valorizar mais, sim, completamente. Há uma visão aqui muito única e uma experiência que é possível ter aqui que é muito um meio de várias coisas. É mais fácil às vezes olhar para outras cidades para percebermos o que temos aqui. A minha quarta viagem para o Club Atlas foi à cidade de Montreal que eu comparo muito com Lisboa no sentido em que é uma cidade que reúne o melhor da Europa com o melhor da América do Norte. Eu acho que Lisboa acaba por reunir o melhor da Europa com o melhor do continente africano e uma parte muito grande ainda, que ainda são 200 milhões de pessoas, do continente sul-americano. Acho que isso é importante celebrar e é importante valorizar. Acho que já há muita gente que valoriza e nota-se pelas charts que a música lusófona tem impacto, mas podia ser valorizada a um nível mais generalista em todos os meios de entretenimento — televisão, anúncios, tudo e mais alguma coisa.

O que é que gostavas de dizer às pessoas para as captar a ver estes oito episódios na RTP2?

Não sei muito bem como é que os consigo convencer a ver, sou horrível a vender os meus próprios filhos. Mas acho que se virem vão descobrir um universo de que se calhar não tinham noção e uma perspectiva um bocadinho diferente desse universo. A música e a forma como a música aproxima as pessoas socialmente e tudo isso acaba por nos fazer olhar para cidades de forma diferente, olhar para a música de forma diferente, olhar para tudo com uns olhos novos. O episódio de Lisboa eu considero-o um bocado o episódio zero, a explicação do jogo, dos próximos episódios.

 


Alexandra Oliveira Matos

Alexandra Oliveira Matos

Questionar é o verbo pelo qual orienta o olhar. Licenciada em jornalismo na Escola Superior de Comunicação Social, mestre em continuar a aprender.
Alexandra Oliveira Matos

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