Chris Orrick // Portraits

[TEXTO] Diogo Pereira

A sua pequena biografia não deixa margem para dúvidas: Chris Orrick é o rapper de colarinho azul, de raízes humildes, que faz hip hop para o homem comum, um Bukowski do século XXI. E haverá melhor exemplo para compreendermos a sua obra do que o famoso escritor, poeta hedonista que celebrou a low life, a versão americana do nosso Luiz Pacheco, que não quer salvar o mundo nem salvar-se a si próprio?

Orrick descreve-se como alguém entre Bukowski e Thoreau, duas referências fundamentais para perceber quem estamos a ouvir: se o primeiro era um boémio incorrigível com pendor melancólico e tendência para um certo miserabilismo, e o segundo um amante da natureza e da liberdade, Chris é também, em doses iguais, um hedonista, um libertário e um miserabilista.

Portraits é o seu terceiro álbum, e foi chamado um regresso à forma, o que não está longe da verdade porque é tão melancólico, auto-depreciativo e comiserador como Look What The World Did To Us (2015) e Instinctive Drowning (2016). E as suas marcas de escritor e pessoa estão todas lá: Chris continua tão autobiográfico, introspectivo e nostálgico como em álbuns anteriores, demonstrando a mesma dificuldade em crescer (de músicas como “Smile”), a mesma atitude de “cada dia é uma luta”, a mesma procura por dar significado à sua existência, a atenção ao mundano, a disposição bipolar e a busca do prazer nas pequenas coisas. E continua tão preocupado e atento a desigualdades sociais e ao que se passa dentro do seu país (como em “All of Us”). Quanto a isso nada mudou. A música, também ela, continua semelhante, o mesmo boom bap clássico com tons daquilo a que se convencionou chamar de “soulful hip hop”. Mas está mais amargo, fruto da entrada nos trinta.

“Just pour me a stiff drink and leave me the fuck alone
My story is missed links and riddled with undertones
Of various insults in between compliments”

E surge numa altura de reinvenção do artista, que abandonou o seu alter-ego de Red Pill (sob o qual gravou dois álbuns) em favor do seu nome verdadeiro, por não desejar ser associado a um grupo online que promovia a misoginia e outras formas de preconceito e discurso de ódio.

E que melhor casa para o acolher do que a Mello Music Group (cujo lema é “Sounds Beautiful Like The Truth”), morada de “boom bap inteligente e urbano” onde vive gente como Oddisee e Jean Grae?

Portraits não é um álbum positivo, mas também não transborda de negritude: é melancólico, hesitante, apreensivo. Por isso foi descrito por Ryan Meaney como “o acordar de uma ressaca mortal”.

À primeira vista (ou escuta), Chris Orrick parece um típico rapper de Detroit, daqueles que vimos em 8 Mile, a trocar rimas com os colegas de trabalho no intervalo de almoço, antes de regressar à linha de montagem. Mas há mais nele que à superfície parece: há um poeta que transcende as suas raízes operárias e fala-nos de vícios e virtudes, num tom humano, despojado e comovente. E capaz de momentos como este, no brilhante e mui íntimo “Barfly”, um dos pontos altos do álbum, que faz do ouvinte o barman a quem se confia os segredos:

“Don’t be afraid when the vultures start to circle us
The lot of us will die, never knowin’ what our purpose was
You’re always in the future when you live in the past
‘Cause bar time is fifteen minutes fast
Get reckless when I’m introspective
With my hand across my left tit, I swear to God tomorrow morning after breakfast
I’m gonna change, I’m gonna tell all my confessions
But for now I’m talkin’ to this whiskey bottle till there’s nothing left”



Ouvi-lo é ouvir um ser humano igual a todos nós, mas mais interessante, porque dotado de aguda consciência das suas limitações, humildade e coragem para falar delas em público e talento poético para as transformar em arte.

Chris não tem medo de se mostrar (afinal foi ele que disse “I will stand on my honesty with one hand in my comedy, mix it up with some modesty”), e isso leva a momentos corajosos de auto-exposição catártica como:

“Every picture tells a story of a risk I was scared of
And you can feel the self-consciousness
Where every pen stroke lacks confidence
Maybe I’m having trouble tryna paint you because I hate you”

Ou:

“Met you when I was twelve, met you long before the two of us could know ourselves
Met you long before I knew what love is and how that felt
And now I’ll love you till I say farewell”

Ou ainda:

“There’s not an addict in this world with no excuses
Temptation and desire, the scent of it seduces”

Em nenhum outro momento esta coragem está mais em evidência do que em “Anywhere Instead”, crónica do seu estilo de vida auto-destrutivo:

“I take my coffee with three sugars and some cream
Killin’ myself softly with a pump of nicotine
Yeah, my heart’s emotive and I’m cloggin’ the machine
Gettin’ up hungover, that’s just part of the routine
Was gonna kill myself by using exhaust fumes
Turns out the regulations made that shit too clean
So thanks Obama for the disappointment, now I just avoid it
Only time I ever die is in my dreams”

 



Chris é um homem simples e humilde, e as suas histórias reflectem isso: “Stories” fala-nos do seu gosto em fazer compras ao domingo de manhã, quando é sossegado e não há ninguém, “Design Flaw”, estudo da toxicidade do vício e do remorso, é sobre a incapacidade de mudar, “Lazy Buddies” é uma história de amor sobre a sua namorada de liceu, “Anywhere Instead” é sobre pequenos pensamentos que passam pela cabeça de americanos com tendência ligeiramente depressiva, “Mom” é sobre lidar com o falecimento da sua mãe alcoólatra.

Mas também há espaço para momentos mais sérios e interventivos, como “Bottom Feeders”, canção de protesto anti-capitalismo e manifesto do que significa pertencer à classe baixa. Ou “Jealous of The Sun”, parábola catastrofista dos tempos modernos:

“Deadly water on the rise because of burning seas
But no emergency, just the emergence of the anti-science”

Embora as suas raízes fizessem prever uma associação com o tipo de público operário que se sentiu alienado pelos democratas e votou em Trump, a verdade é que Orrick é conhecido pelo seu ideário progressista de esquerda. Por isso os seus alvos são os ricos e os poderosos.

“They acting like they got the world on their shoulders
Looking at us like we’re earners or soldiers
Fill up their banks or go fill up their tanks”

Estes retratos, de que falam o título, como disse ao Consequence of Sound, são tanto retratos de si, como de operários da sua cidade natal, ou retratos da sociedade actual. São retratos de alguém que vê poesia no banal, beleza no mundano, sem nunca o achar foleiro. De empregados de mercearia que limpam o vómito da noite anterior numa manhã de domingo, dos simples actos de parabenizar uma colega que acabou de ficar noiva, de dividir uma garrafa de vinho com a namorada nos arredores de Paris, que revelam empatia pelo homem comum e os seus problemas.

“I tried to strip everything down to what I think I’m best at: simple, concise portraits of who I am. Whether that be finding myself through self-portraits, portraits of everyday workers, portraits of the current political moment or portraits of myself told through the eyes of people I encounter daily.”

Chris é um desses homens, o homem comum, cheio de vícios e contradições, e percebe-o melhor do que ninguém: é ambicioso mas indolente, generoso mas auto-centrado, amante do prazer mas depressivo e auto-destrutivo, sonhador mas desesperado, simpático mas um pouco misantropo lá no fundo. Umas vezes é o poeta romântico que quer beber vinho com a sua namorada, outras é o niilista com crises existenciais que não se quer levantar da cama. Quem nunca se sentiu assim?

As suas letras impressionam pela sua honestidade e o tom confessional em que as recita. Estas são as histórias de alguém que sofreu, com as quais é impossível não nos identificarmos. Afinal, como é possível não gostar de alguém cuja fantasia romântica é morar a uma hora do centro de Paris, e beber vinho barato com a namoradinha de liceu?

Além destes retratos emocionais e humanos de cariz autobiográfico, Chris também conta outros retratos, mais violentos, os da América contemporânea. Nas palavras do próprio:

“Portraits can often be overlooked, but there are so many details in the face that tell innumerable stories about what the person portrayed might have been feeling or going through. I’m trying to find those details, within myself and within America today.”



Nada disto é novo, claro. Chris não é o único rapper branco de classe operária a sofrer problemas económicos e familiares. Aliás, por vezes, entra em território de Marshall Mathers, como na faixa em que fala sobre a perda da sua mãe alcoólatra (“Mom”), mas sempre com mais melancolia do que melodrama. E sendo um rapper de Detroit, a sua obra acusa as suas origens, tanto na música, um boom bap ligeiro e melódico de fácil digestão semelhante ao de Dilla e Slum Village, como no tom dolorosamente franco e auto-depreciativo das letras, que evoca Eminem.

Portraits é um álbum sobre adversidades, sobre momentos, sobre a dignidade humana em resistir a sevícias, sobre o mundano, sobre a vida diária de todos nós. Sobre sonhos perdidos e promessas por cumprir. É humano, honesto e temperado com humor. E, por isso, enternecedor e comovente.

Chris procura melhorar-se, procura a felicidade, mas tem noção das suas falhas, e admite-as sem pudor, com humildade. No fundo, é um “warm man”, de que fala a School of Life.

Rapper tragicómico por excelência, Orrick é o artista que percorre a linha ténue entre a comédia e a tragédia, entre a auto-depreciação de língua na bochecha e a vontade sincera de mudar.

Essa ideia é reflectida de forma brilhante no vídeo para “Design Flaw”, a mais honesta e pungente de todas as faixas, de Malcolm Critcher, que nos mostra uma marioneta alcoólica, “cujo vício deriva da negação de que é um objeto inanimado”, símbolo de si mesmo, a beber, drogar-se e na marmelada com uma prostituta disfarçada de Miss Piggy. Perante tudo isto, o verdadeiro Chris assiste, como espectador distante, impotente para mudar o que quer que seja. Ou seja, enquanto tenta expiar os seus pecados, ao mesmo tempo tenta acomodar-se à ideia de que vai ter de conviver com eles até ao fim da sua vida. E não há sentimento mais humano do que o de querer mudar e não conseguir.

 



A escrita de Chris é de uma simplicidade curiosa: não se serve de metáforas e comparações, de grandes floreados ou artifícios linguísticos, ou esquemas rimáticos complexos. É apenas descritiva. Chris fala sobre o que vê, como um pintor de paisagens (se tivéssemos de o integrar num movimento literário ou escola de artes plásticas, diríamos que pertence ao Naturalismo). Não se esconde atrás de simbolismos ou linguagem figurativa. As suas letras estão cheias de referências concretas e objectivas a pagamentos em atraso, salários baixos e andar na rua com um cantil antigo cheio de whiskey. Como diz em “Stories”:

“Not every story has a meaning, not every moment has a reason,
Sometimes you just let the music play and tell you what to say”

Muitos dos seus versos são surpreendentemente denotativos, como estes, do seu hino auto-depreciativo “Self-Portrait”, que abre o álbum, fazendo jus à afirmação de John Cage de que “a melhor arte é uma forma de queixume”:

“I hate the way your living room and kitchen is a mess
I hate the way you stress, the way you overeat
I hate the way you can’t get out of bed and oversleep
I hate the way you worry, I hate the way you smile”



Sendo um álbum tão pessoal, é frugal em convidados, e é sobretudo Orrick que o carrega, sozinho, numa aventura que é sobretudo acerca de si próprio e a forma como vê o mundo. E que é também, diga-se, uma lufada de ar fresco dos habituais braggadocio e ego tripping tão comuns no hip hop. Enquanto a maioria dos rappers usa as suas proezas e os seus sucessos para servir de inspiração às suas letras, Chris usa as suas neuroses (“You know the inside of you’s gorgeous/But on the outside it gets morbid”).

Anteriormente conhecido como Red Pill (a mesma tomada por Neo em The Matrix, para mergulhar na toca do coelho e escolher a verdade em vez da ignorância) Chris é o rapper de colarinho azul, ex-maquinista, que ainda trabalha para o pai a distribuir comida a restaurantes de Detroit. Porta-voz de uma América ansiosa, dá voz às suas ansiedades e dramas com toda a honestidade de um niilista com plena noção da sua iminente finitude e o olhar maravilhado de um poeta, sem nunca esquecer o seu amor pelas coisas simples da vida, como o cheiro a gasóleo numa manhã fria.

Quanto à música, é orgânica e minimal, e a produção, a cargo de gente como Exile, L’Orange e Onra, enfatiza a melancolia, o estado de espírito poético por excelência, e o seu minimalismo funciona como um espelho sonoro da simplicidade comovente das palavras e dos temas abordados, que acusam as suas origens e revelam a sua identidade.

Sendo o ambiente fumarento e nocturno, de bar (uma das faixas, “Barfly”, evoca o famoso filme de Barbet Schroeder escrito por Bukowski), o jazz é a principal presença aqui (com um ocasional piscar de olhos à soul, como o refrão de “Design Flaw”), em loops nostálgicos e ermos de piano e saxofone tirados de vinis perdidos no passado, em cima de batidas lentas de recorte clássico, uma espécie de boom bap do século XXI, semelhante ao de produtores como os Sound Providers, Nujabes ou Dela, inspirados pela escola da Nova Iorque dos anos 90.

 



O álbum termina, como seria de esperar, num tom melancólico: “What Happens Next?”, tentativa de reconciliação com o envelhecimento, é um curioso jogo em que se põe no papel dos outros, falando de si na terceira pessoa, e nos apresenta retratos de si mesmo visto pelos olhos de pessoas com quem interage diariamente, como o dono da loja de bebidas onda compra gin, que o confrontam com as suas falhas. E que termina com uma curiosa questão (que repesca o refrão de “Ten Year Party”, do seu primeiro álbum: “And if I got to work for the man for the rest of my life/I’d probably kill myself/I’d rather live for ten years the way that I want/Instead of 70 for someone else”), que deixa em aberto o seu futuro:

“You can live for ten years the way that you want instead of 70 for someone else
But what happens next?”

É assim que Portraits chega ao fim, com apreensão e dúvida, em modo de narrativa aberta, deixando-nos a temer pelo futuro do artista (tanto quanto o próprio), pela sua precária sanidade mental e pela sua tão adiada entrada na idade adulta.

O terceiro álbum a solo de Chris Orrick, o rapper de colarinho azul que faz boom bap em 2018, confirma o seu talento como autor de letras vulneráveis e humanas e contador de histórias com pendor cinematográfico, bem como o seu amadurecimento, notório na amargura de alguns temas. E é um capítulo meritório na história do rap de Detroit. Será interessante continuar a acompanhá-lo.

Na sua página do Spotify, diz-nos: “Pour a drink, call a friend and listen”. É isso mesmo que faremos.

 


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