Chance The Rapper estreia-se no Top 10 da Billboard 200

Chance The Rapper fez história e acaba de se estrear com Coloring Book no oitavo post do top Billboard 200, a tabela de referência mais importante para o mercado norte-americano. Como se previa por aqui na semana passada, Chance fez mesmo história ao lograr tal feito com resultados provenientes apenas do streaming já que o seu novo álbum não tem ainda edição física nem sequer está disponível para venda em serviços de download – Coloring Book é, aliás, um exclusivo Apple durante as suas duas primeiras semanas de vida. Ainda assim, o serviço reportou cerca 57.3 milhões de streams para o novo e ultra-aplaudido trabalho do rapper de Chicago que se torna assim o primeiro artista da história a alcançar o Top 10 da Billboard com o streaming como suporte exclusivo do seu lançamento.

A este propósito, Rui Miguel Abreu perguntava na semana passada na sua coluna da revista Blitz se a “música de borla pode ser um bom negócio”:

Chance The Rapper visitou-nos no ano passado para um memorável concerto no Ericeira Sumol Summer Fest que passou largamente despercebido por cá. O artista de Chicago trazia na altura na bagagem alguns temas do projecto Surf, assinado pelo colectivo The Social Experiment, dirigido pelo músico e produtor Donnie the Trumpet (que o acompanhou em palco) e também material da sua aclamada mixtape gratuita Acid Rap. O concerto deixou claro que Chance The Rapper sabe muito bem o que fazer e que percebe qual a dinâmica que se deve imprimir ao vivo – é um artista preparado para a grande arena pop. “Pormenor” importante: o artista americano pisou o palco principal de alguns festivais na Europa sem ter vendido um único disco.

Agora, Chance acaba de lançar Coloring Book, um ambicioso projecto que conta com a participação de gente como Kanye West, Justin Bieber, Young Thug ou Lil’ Wayne. O álbum está a ser distribuído pela Apple Music e é oferecido gratuitamente a quem o quiser descarregar. E apesar de Chano, como também é conhecido, nunca ter vendido um único disco, deverá esta semana estrear-se no top 10 da importante tabela de vendas Billboard 200.

É verdade que Kanye West já tinha conseguido um feito semelhante com The Life of Pablo, mas o caso de Yeezy é diferente: não só porque já tinha uma carreira convencional antes, apoiada numa discografia que pode ser adquirida nos normais canais de retalho, como o seu disco esteve durante algum tempo disponível para venda digital através do seu site. Ora, o conterrâneo Chance, que também participa em The Life of Pablo, nunca vendeu discos, nunca os editou fisicamente sequer, e consegue furar o cobiçado top 10 da Billboard graças a uma quantidade astronómica de streams na primeira semana.

Outros fenómenos americanos, como Kendrick Lamar, também basearam o arranque da sua carreira na distribuição gratuita de mixtapes. Tudo junto, é claro que isto indicia uma reviravolta no pensamento fundamental da indústria e parece dar razão ao que os defensores da distribuição gratuita de música sempre proclamaram: que esse pode ser igualmente um modelo viável para a indústria se os serviços de streaming recompensarem devidamente os artistas.

São artistas como Chance The Rapper que estão a mudar a face do negócio. Na semana passada, estrategicamente em vésperas do lançamento de Coloring Book, foi criada uma petição pública para pressionar a alteração das regras da Academia Americana que rege os Grammys, tentando que discos de distribuição gratuita possam ser considerados para as diferentes distinções que essa instituição promove anualmente.

Vamos, portanto, ter um disco gratuito num muito confortável lugar da tabela pop americana, vamos provavelmente ter um disco gratuito a receber Grammys. O facto das vendas e dos cobiçados “óscares da música” serem ferramentas da indústria é significativo: os agentes que mais resistiram à mudança começam a perceber que não os podem vencer e a decidir antes juntarem-se a eles. É o caminho certo.

 

 


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