Cannibal Ox // The Cold Vein

[TEXTO] Moisés Regalado

Raras serão as vezes em que a dimensão de Portugal se revela benéfica para o crescimento ou consolidação da cena hip hop nacional. Pode falar-se na falta de recursos, no crescente peso das relações públicas ou na (des)centralização dos meios e acontecimentos como factores inerentes ao tamanho deste pequeno rectângulo, mas nem tudo é mau na escala que nos caracteriza. Por exemplo: ao contrário do que se passa no outro lado do Atlântico, em que prodígios como Aesop Rock ou Slug parecem destinados a conviver numa liga própria, ainda há espaço no movimento português para que artistas indie — alternativos e/ou independentes — compitam lado a lado com os mais afamados, regulares ou solicitados nomes da praça.

Não faltarão motivos para justificar dinâmicas tão distintas, é certo, só que o fundamental será mesmo identificar o que une continentes, bem como aquilo que aproxima o universo indie do panorama mais clássico ou mainstream. As opções estéticas ou filosóficas de Cannibal Ox, vincadamente desviantes se comparadas com os cânones tradicionais, nunca atropelaram os mais basilares fundamentos da cultura. Os Matozoo de Kiko e Martinêz assentavam os pés em Matosinhos mas as ideias em Asgard, lugar mitológico referenciado em The Cold Vein, sem nunca abandonar os maneirismos típicos do rap feito mais a norte. Tilt não abdica do imaginário almadense, L-Ali continua a desconstruir o estilo livre que abunda em Lisboa e até Nerve, pouco dado a regionalismos, se foca q.b. na zona que o viu partir e na cidade que o acolhe.

Em Cannibal Ox, os incontornáveis tons de cinzento com que a música nova-iorquina se pinta servem como incubadora de ideias e ponto de partida para uma escrita cósmica com os pés assentes em Harlem e as ideias a flutuar algures entre os arranha-céus da Big Apple e um qualquer lugar imaginário. “The NY city got a nigga feelin’ shitty”, diz Vordul em “Stress Rap”, reforçando o que Vast Aire já tinha esclarecido em “A B-Boy’s Alpha”: “Flows be banging in the paint, throwing elbows/My first fight was me against five boroughs”, numa evidente referência aos maiores e mais conhecidos bairros de Nova Iorque. Os flows da dupla nasceram nas ruas de onde saíram nomes como Big L ou Black Rob e, apesar de prestarem homenagem indirecta aos antecessores, dando nova vida à escola dos anos 90, há uma clara intenção de superar a escrita preguiçosa ou inconsequente dos pioneiros.

Vast Aire, figura de maior destaque, não é menos dado a trocadilhos ou punchlines que os seu antepassados ou conterrâneos, mas esforça-se por elevar o jogo, numa cascata constante de dicas e imagens que fazem do escárnio poesia:

“This is the next lifetime and you want to battle
Either you like reincarnation or the smell of carnations
The sample is the flesh and the beat is the skeleton
You got beef but there’s worms in your Wellington
I’ll put a hole in your skull and extract the gelatin”

Ou:

“Plus your girl is sex technology, I want to plug in
Now every egg my goose lay stay golden
With your poker face, I punch you in the stomach and you folded”

Muitos não se lembrarão de Clã da Matarroa, duo associado à editora que lhes deu o nome, mas Vordul assume em The Cold Vein um papel semelhante ao que Paulo Leitão desenrolou em Conversas de Café. Se Vast Aire faz de Stray, principal voz e cara do colectivo, é em Vordul que reside o equilíbrio, numa presença sólida que permite digerir a complexidade do seu camarada sem nunca tirar os pés de Asgard. É nos seus versos que se encontram as variações métricas mais rocambolescas mas também são dele os momentos mais limados e certinhos do alinhamento — “Pop goes the flow of the weasel/Strapped with an Ox full of diesel/Trapped in the desert with eagles/Thoughts of ghetto acapellas in cathedrals/Spilling heavy gospels with cheaters”.

Em The Cold Vein, clássico incontornável para quem ambiciona conhecer as mais profundas raízes de uma árvore que diariamente dá frutos, a tentativa de unir o divino e o mundano, tão tipicamente hip hop quanto possível, atinge resultados de excelência como ninguém até então (o mais puro liricismo convive com momentos como “If you wait too long you gonna end up confessing/All I think about is you undressing/I extended my thoughts in a relationship/But they sunk like the Titanic relation-ships”). Os flows desalinhados, prova de confiança e serenidade a que Jay-Z, por exemplo, só chegou com 4:44, a par dos instrumentais de El-P, proprietário da Definitive Jux e produtor-executivo do projecto, fazem de cereja no topo do bolo. Dezassete anos depois, a prova está mais que dada: em 2001, The Cold Vein foi a verdadeira odisseia no espaço.

 


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