Buddy // Harlan & Alondra

[TEXTO] Moisés Regalado

A relação entre o rap e o r&b não começou agora mas está, muito provavelmente, cada vez mais estreita. As trocas de influências limitam-se cada vez menos ao sampling ou às colaborações casuais, apesar de ser uma simbiose que, a exemplo do passado, (também) funciona como resposta aos apelos do mercado — quem não se lembra de “Boom Boom Pow”, em que Fergie assumiu as rimas, delegando a will.i.am o papel de cantor? Mas Buddy não se fica por aí e, num registo mais próximo dos OutKast ou de Chance The Rapper do que de Bryson Tiller ou Tory Lanez, veio para surpreender — apesar de não ter chegado propriamente agora.

A insistência está finalmente a dar frutos. Foi aposta da Columbia entre 2014, ano em que se estreou com a mixtape Idle Time, e 2017, quando lançou os EPs Oceans & Montana e Magnolia, para depois assinar pela RCA Records, propriedade da Sony. Os singles “Shine” e “Find Me” valeram-lhe algum burburinho mas nenhum dos videoclipes ultrapassou o milhão de visualizações. “Black”, ao lado de A$AP Ferg, já é o seu registo vídeo mais bem-sucedido de sempre (apenas ultrapassado pelo áudio oficial da música com Ty Dolla $ign) e serviu para abrir as portas deste Harlan & Alondra, embora não seja um resumo fiel da obra.

Faixas como “Trouble On Central” ou “The Blue” (com Snoop Dogg, outra das suas “contratações” cirúrgicas) indicam o caminho. A fotografia que serve de capa ajuda a envolver os ouvinte no tom saudosista com que Buddy escreve canções, a sua técnica imaculada encaixa em qualquer opção estética e os vídeos nunca fogem à sintonia das músicas e do conjunto, só que a força de “Black” revelou-se irrepetível. A fome evidenciada pelo rapper na música de apresentação acabou por dar lugar a um discurso mais acomodado que, apesar de válido, parece não encaixar com o que Buddy tem para mostrar.

 



A complexidade do MC de Compton ultrapassa as barreiras da música radio friendly sugerida por Harlan & Alondra, e os limites a que provavelmente se impôs acabam por ser visíveis. Seja por convicção sua ou por indicação da editora que o acompanha — mas que ainda não conseguiu o melhor de si –, a expressão escrita de Buddy, irrepreensível, é frequentemente projectada com o tom de quem tem algo mais para dizer, e chega a parecer que o rapper está a forçar “a saída do bairro”, à procura da “falsa felicidade”, como um dia disse Sam The Kid.

O talento e o bom gosto não se compram, mas isso o rapper já tem e ninguém lhos tira. E o dinheiro das majors consegue pagar bons featurings, mas foi Buddy que escolheu rodear-se de nomes como Snoop Dogg, A$AP Ferg, DJ Khalil ou Scoop DeVille. Só que este artista, como tantos outros, não precisa de excelentes convidados que olhem para a sua música como mero trabalho, nem de uma direcção artística que lhe condicione ou acomode o discurso. Há lugar, na indústria e em Buddy, para a tranquilidade que Harlan & Alondra propõe, apesar desta não ser a altura certa. Buddy saberá que é um dos mais promissores artistas da sua geração e região, e, por isso mesmo, basta deixá-lo escalar com a garra de quem se sente underrated e sem esta falsa sensação de que já é um artista acabado.

 


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