Boots and Keys: John Miller lança EP com selo Rimas e Batidas

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] Direitos Reservados

Para já, o nome de João Monteiro passa despercebido no meio da vasta oferta de produtores de hip hop que Portugal tem actualmente na “montra”. Apaixonado pelas baixas frequências que pulsam de baixos gulosos e pelas linhas melódicas de teclas poeirentas, é como John Miller que se tem vindo a apresentar ao público nos últimos anos. Boots and Keys é o seu mais recente EP, lançado hoje através do YouTube do Rimas e Batidas.

 



“Em puto queria ser baterista mas fazia muito barulho num apartamento. Por isso, os beats foram amor à primeira vista”, recordou numa conversa com o ReB. A apetência para os ritmos levou-o a explorar um groove bastante implícito nas suas batidas desde cedo. John Miller pode nunca ter voado até Detroit mas a histórica revolução do swing na produção electrónica, alavnacada por J Dilla, deixou-lhe marcas profundas nos pulsos, que o ajudam a executar de forma automática esse frenético e descompassado jogo de bombos e tarolas.

Em 2011, ganhou algum following através da No Karma, juntando-se a um luxuoso plantel de MCs e produtores irreverentes como Tilt, Metamorfiko, Osiris ou Haka. Lost Files e Walking On Blue Shoes são os “únicos” EPs editados autonomamente no formado digital, ele que em 2015 deu a volta ao mundo em apenas três meses, tendo utilizado a música como diário de bordo ao dar origem a uma série de 14 projectos de curta duração, nos quais atacou as sonoridades mais distintas que a cultural global nos pode oferecer.

Passados três anos, o seu portefólio no Bandcamp não voltou a somar mais nenhuma edição mas João Monteiro não tem estado parado. Quem o segue no Instagram pode diariamente assistir aos seus ensaios na MPC. Há até um rapper que teve o seu baú das batidas debaixo de olho: Stracciatella & Braggadocio, de Blasph, conta com duas produções de John Miller.

Boots and Keys chega a esta plataforma para terminar esse silêncio editorial em nome próprio. Enquanto se concentra a trabalhar no seu disco de estreia, que promete ter alguns convidados vistosos, John Miller compilou seis batidas que voltam a colocar o seu nome no mapa da produção nacional.

 

 



O “Diving” foi o primeiro tema que ouvi teu. Na altura assinavas como John Miller Trio e estavas associado à No Karma. Tens algum material anterior a isso? Como foram os teus primeiros passos na produção?

A sério? Fixe, adoro esse tema. Isso saiu em 2011 e demorei mesmo muito tempo para conseguir lançar esse EP, Walking on Blue Shoes. Esse foi o primeiro trabalho que lancei como John Miller mas ja tinha editado cenas antes, também pela No Karma, enquanto Mojo. John Miller foi o início de uma fase que continua a fazer sentido agora. Mas já faço desde muito novo, comecei com 12 anos. O meu irmão também produzia e, como ele era mais velho, sempre foi uma influencia muito grande para mim. E é normal um puto que gosta de música, que era viciado em hip hop, querer aprender a fazer beats. Não me lembro de não querer fazer musica sequer. Em puto queria ser baterista mas fazia muito barulho num apartamento, então os beats foram amor à primeira vista. Era o meu “jogo” da altura. Mas só em 2010/2011 é que comecei a estabelecer relações mais fortes no movimento e comecei a lançar umas coisas. E foi também quando senti que estava a soar a algo que gostasse. Agora tens tudo à tua disposição, a nível de informação. Na altura tinha o Reason e o Cool Edit, e como não sou de um meio muito grande não havia muito conhecimento à minha volta. Era mais difícil evoluir.

Deixaste entretanto cair o “Trio” do teu nome artístico. Que ideia era esta de te apresentares como um conjunto de músicos?

Supostamente esse alter-ego era apenas para o primeiro EP de John Miller. Eu produzi aquilo imaginado que tinha um baixista e um baterista a tocar comigo. Queria soar orgânico e fui beber muito de cada instrumentista. Andava a ouvir muito jazz na altura e adoro trios. É um formato que gosto mesmo. Passados alguns anos consegui tornar esse trio real. Juntei-me com um baterista e um guitarrista de estilos completamente diferentes e fizemos uns ensaios. Correu fixe, ainda demos uns concertos, mas por motivos de trabalho de cada um de nós tivemos de deixar o projecto na gaveta. Talvez um dia. [risos]

Editaste um par de projectos antes de dares a volta ao mundo em 2015, ano em que editaste nada mais nada menos do que 14 beat tapes com sonoridades específicas de vários países. O que te levou a ingressar nesta viagem?

Andava numa fase em tinha tempo para fazer musica mas estava preguiçoso. Então obriguei-me a cumprir esse objectivo — produzir uma beat tape por semana. Diggin‘, beats, misturar e fazer capa. Foi principalmente por isso, mas não pensei que fosse fazer tantas series. Só que depois fiquei viciado, cada país era uma novidade, uma sonoridade nova. E ainda sonho fazer isso sem ser pelo YouTube.

 



De que forma é que este treino intensivo te ajudou a aprimorar os teus skills?

Acho que foi uma das fases que me deu mais bases para tudo o que tenho feito até agora. Aprendi muito a ouvir musica, deu-me ritmo e vontade de fazer musica. Fiquei mais rápido. Mas é a tal cena, quanto mais fazes melhor ficas. A tendência é evoluir consoante o trabalho.

Certamente que também te ajudou a encher a tua própria base de samples, bem como te deu alguma destreza extra no processo de procura por discos esquecidos pelo tempo. Houve alguma zona do globo ou época em específico que te tenha seduzido mais? Que ensinamentos retiraste desta série de trabalhos?

Eu perco bué cenas, tenho um bocado de azar com discos e backups. Já perdi o meu trabalho todo algumas vezes. Mas sim, enriqueces sempre o teu arquivo. Embora eu raramente pegue num sample que está guardado. Por norma, ou me dá pica na altura que ouço ou, se guardar, vai ser muito difícil ir pegar nisso novamente. A biblioteca de diggin‘ agora é interminável, o YouTube foi mesmo a melhor coisa que apareceu. Ouvi musica que se calhar nunca iria ouvir na minha vida. E também foi esse um dos objectivos das Series. Há musica incrível por todo lado. Mas se calhar o que mais me fascinou foi toda a América Latina, o rock das décadas de 60 e 70. É muito difícil samplar algo que passe muito os 70. Não por não ter material, mas porque não tem a sujidade que eu procuro. Pelo menos nesta fase. Ando sempre em mutação.

Editas agora o teu primeiro EP em três anos. O que mudou no teu método de trabalho desde esse teu último projecto?

Comecei a usar a MPC como peça central do meu setup, voltei a apaixonar-me pela máquina. E influenciou muito na minha sonoridade de agora. Continuo a usar muitas camadas de samples, synths e instrumentos tocados por cima. Mas estou a usar as coisas de uma forma diferente do que fazia até agora. A ausência de tempo para dedicar à música obrigou-me a criar hábitos de me sentar em frente à maquina, mesmo que não tenha vontade. É raro o dia que não faço um beat. Tenho milhares de cenas em arquivo. E isso fez-me passar a quase conseguir acabar os beats no mesmo dia em que os começo. Durante anos, era-me muito difícil chegar ao fim de tudo o que começava.

Fala-me dos temas que apresentas neste Boots and Keys. Tentaste seguir alguma ideia em específico ou funciona mais como uma compilação?

Foi engraçado porque na altura em que me fizeste o convite eu estava a trabalhar num álbum e estava a dedicar o meu tempo todo a isso. Mas já sentia a falta de lançar algo e um EP era algo fixe para me apresentar. Como disse, tenho montes de coisas antigas em arquivo e comecei a sentir que não fazia sentido ter musica “parada”. A ideia foi aliviar esse arquivo. Comecei a ouvir os beats antigos mas não estavam a soar ao que ando a fazer. Então mudei um bocado a ideia de concepção. Basicamente produzi tudo de raiz. Só usei uns samples que gostava. Dessa forma consegui criar um enredo e consegui soar ao que realmente queria mostrar, que terá seguimento nos meus próximos trabalhos. Uma compilação de beats simplesmente não é muito a minha onda. Gosto de criar uma certa uniformidade no som. Dá sempre um trabalho mais coeso.

Indo aos pormenores mais técnicos. Quais são os passos que segues quando estás a fazer um beat? Que máquinas/softwares utilizas para trabalhar?

Começa sempre com diggin‘, seja de onde for. Discos, CDs, filmes, TV, etc. Depois passa tudo pela MPC. Não tenho um grande setup. Basicamente é a minha MPC 1000 e um teclado midi. Tento sempre tirar o máximo partido do que tenho ao meu dispor e, para já, o meu setup enche-me as medidas. Claro que gostava de ter montes de teclados e samplers aqui pelo quarto mas se calhar nem ia fazer tanta coisa como agora. Estou confortável e conheço bem as máquinas que uso, o que me facilita o trabalho.

 



Tens o Blasph como adepto da tua sonoridade: colaboraram no Stracciatela & Braggadocio, por exemplo. Como se deu essa ligação?

É um grande prazer. É provavelmente o meu rapper português preferido. A sonoridade, o flow, a forma como ataca as cenas. É daqueles gajos que são mesmo hip hop! É uma maquina! A conexão foi pela net, atirei o barro. Na altura andava a falar com o MCs que admiro para fazer um álbum que já tenho na gaveta há uns anos. O Blasph, como é óbvio, foi dos primeiros com quem falei. Ele ouviu e ficou curioso. Fui começando a mandar beats, muitos beats mesmo, e fomos falando e curtindo a cena um do outro. Identifico-me bastante com ele e, apesar da distância, até é fácil trabalhar assim. Espero fazer mais cenas com ele em breve.

Não te contentando com esse trabalho em conjunto, remisturaste recentemente o “Ondulação”. É algo que tencionas ver acontecer mais recente? 

Isso foi mesmo porque o admiro e idolatro. Sempre foi o rapper com quem mais quis trabalhar e essa faixa está incrível. Dá-me sempre muito prazer ouvir o gajo em cima dos meus beats. Acho que foi o primeiro remix que fiz. Encaixou logo tudo direitinho. Vou querer colaborar com mais pessoal, claro. Há muitos rappers de que gosto. Ando a bulir com uns putos da minha zona, em breve vai haver notícias disso. E estou sempre aberto a trabalhar com pessoal que admiro e com quem me identifique.

Apesar da ausência das edições, quem te segue no Instagram consegue ver que continuas bastante focado nos treinos. Presumo que tenhas algo mais no forno para ser revelado num futuro breve. Falaste-me na possibilidade de um disco de estreia. Há algum dos teus planos a curto prazo que queiras antecipar?

Eu não paro. Podem não saber nada de mim mas continuo sempre a trabalhar e tenho bastantes projectos em aberto para lançar no futuro. Tenho um álbum em andamento e outras cenas que estão guardadas até sentir que é o momento certo. Mas vou tentar manter as edições mais presentes e ainda este ano deve sair mais um ou dois álbuns meus. Um instrumental e o outro fica em segredo.

 


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira