Boom Festival 2018: ver para crer

[TEXTO] Manuel Rodrigues [FOTOS] Jakob Kolar

Ambiente. Seria impossível começar um texto sobre o Boom Festival sem ter esta palavra como entrada principal, como mote para um conjunto de parágrafos que, não sendo novidade para muitos, serão certamente ainda utópicos para outros tantos. É verdade que as reportagens em formato vídeo e os documentos escritos nos ajudam a ter uma ideia do que ali se passa, bem como o passa-a-palavra dos amigos e conhecidos que de lá regressaram, mas uma coisa é certa: este é daqueles casos em que é preciso ver para crer. E só depois de estarmos no terreno, decorridos quatro ou cinco longos e intensos dias de festival, é que realmente nos cai a ficha relativamente à missão ambiental deste festival. Não existe par em Portugal.

Contudo, há que meter os pontos nos Is para não nos deixarmos deslumbrar com esta ideia. Não podemos esperar que na sua lotação máxima, 30 mil pessoas, segundo dados avançados pela organização, o festival esteja todo ele sintonizado na mesma frequência, seria um pensamento demasiado ingénuo. Como é óbvio, há sempre alguém que se desprende deste sincronismo espiritual e que decide, sem mais nem menos, arremessar lixo para o chão, ou simplesmente deixá-lo arrumadinho a um canto à espera que venha uma espécie de brigada anti-poluição recolhê-lo. Um olhar rápido pela plateia do Chill Out Gardens, no sétimo e último dia de evento, sendo este o derradeiro espaço a encerrar as suas actividades, às seis da manhã, remete-nos para esse mesmo pensamento: o lixo amontoado no chão, em ilhotas que procuram estupidamente causar menor impacto, num alívio de consciência bacoco, só pode ter sido causado por pessoas que, em sete dias de evento, não conseguiram esvaziar o lixo que têm na própria cabeça, o que faz deles uma excepção e não a regra.

Se por um lado há quem precise de mais uma edição do Boom Festival para lá chegar, por outro, há quem assimile estas pequenas regras logo à primeira, como aqueles que não se importam de andar com o bolso dos calções carregados de beatas de cigarros ou até aqueles que fazem questão de caminhar mais uns metros para colocar o lixo no local certo. Em certas zonas, como acontece no Central Plaza, a meca dos comes e bebes (já lá vamos mais a fundo), os caixotes do lixo, para além de estarem devidamente identificados com os materiais que visam recolher (plástico e metal ou matéria orgânica), têm colados a si, na parte superior do contentor, mesmo de frente para os olhos, para auxiliar os mais distraídos, alguns exemplos do que se poderá eventualmente neles colocar: pratos, talheres, latas de cerveja… Nem o Gervásio da famosa publicidade sobre reciclagem se enganaria nesta situação. E a verdade é que, depois de um olhar curioso para o interior dos depósitos de lixo, também aqui a separação é meticulosamente cumprida.

 



Toda esta missão ambiental se reflecte no espaço que nos rodeia. Ir do Central Plaza ao Dance Temple sem encontrar lixo no chão não é um desafio mas sim uma certeza. Encontrar pelo caminho pessoas que arrastam o lixo que produzem até ao caixote mais próximo não é uma utopia mas sim uma realidade. Ver pessoas em pleno dancefloor com cartazes com as palavras “make love, not waste” em riste não é uma visão mas sim uma intervenção ambiental, em carne e osso, palpável. E são essas mesmas pessoas, a tal brigada anti-poluição, que tratam de limpar o lixo daqueles que, no sétimo dia, encerradas as festividades, ainda têm a coragem de deixar a sua pegada na área que serve de plateia ao espaço Chill Out Gardens. Não existem mundos perfeitos, é verdade, mas o Boom procura caminhar nesse sentido.

Não sendo propriamente uma novidade (mas lá está, é ver para crer), os sanitários de compostagem são também eles exemplos da missão ambiental do evento realizado em Idanha-a-Nova. As regras são simples e surgem afixadas no interior dos cubículos de madeira para que ninguém se possa queixar de não ter sido informado: não usar água,  produtos químicos e, como é óbvio, não arremessar plástico, vidro, ou qualquer outra matéria que não seja estritamente orgânica. Compreenda-se ou não este método, compactue-se ou não com a prática (isto no caso de alguém que não se imagine a fazer as suas necessidades sem depois puxar o autoclismo), uma coisa é certa: depois de sete dias de evento, qualquer um destes sanitários tem um ar mais sóbrio e asseado do que qualquer instalação convencional no final de dois dias de qualquer outro festival.

Um outro exemplo de boas práticas ambientais prende-se com a alimentação. Esta, sendo maioritariamente vegetariana e, em muitos casos, vegan, sublinha o ideal de que é estritamente necessário reduzir o consumo de carne (peixe incluído) para construir um futuro sustentável e saudável para as gerações vindouras. A problemática da agropecuária não é certamente novidade e só não a tem em conta quem não quer, quem se esforça em rejeitar uma realidade exposta em inúmeros documentários e palestras sobre o assunto. Ainda assim, o Boom Festival parece deixar uma ponta solta nesse sentido. Não seria imperativo um evento desta envergadura e com esta preocupação ambiental ter uma ementa estritamente vegan, transformando algumas das bancas que se dedicam à venda de carne em alternativas que fomentassem tal prática de um modo unilateral? Sendo as emissões de metano um dos maiores agentes poluidores do planeta, não faria sentido essa posição aguerrida?

 



Ainda assim, é de louvar toda a oferta que o festival coloca à disposição, esquivando-se às banais e facilitadas ofertas nos meandros da soja e derivados. Existe um pouco de tudo, começando nas fideuàs recheadas de legumes, nas sandes de húmus com feijão preto e nas massas orientais confeccionadas em wok, passando pelos hambúrgueres de cânhamo, pelas salsichas vegan de origem biológica, pelo caril de seitan, pelas pizzas vegetarianas, pelas generosas doses de Fallafel, e acabando nas limonadas, chás, smoothies, crepes, brownies, citando apenas alguns exemplos. Em suma, todo um leque de opções capaz de proporcionar um menu diferente para cada dia de festival. Neste âmbito, o Boom é sem dúvida um exemplo a seguir.

No campo musical, a oferta também é vasta, por mais que se pense que no Boom só se ouve trance. Esta é, aliás, uma ideia que só os mais preguiçosos conseguirão defender, pois basta passar os olhos pela programação do festival para se perceber que é uma gigantesca falácia, a não ser que artistas como os Dead Combo (concerto cancelado por motivos de saúde), Sensible Soccers, Filho da Mãe, Fogo-Fogo, Black Bombaim, Kumpania Algazarra e O Gajo, entre outros, tivessem decidido construir sets de trance para apresentar em Idanha-a-Nova, o que obviamente não aconteceu. E a prova que não só a música electrónica enche as medidas destes festivaleiros aconteceu precisamente com O Gajo, no lusco-fusco da noite de lua cheia, no dia 27 de Julho, com várias pessoas a marcarem presença nas imediações do Sacred Fire para desfrutarem da sonoridade da sua belíssima e hipnotizante viola campaniça.

Mas há mais. No Chill Out Gardens, espaço todo ele erguido em bambu e onde este vosso escriba teve a honra e o privilégio de trabalhar, a missiva era apenas uma, garantida pelo próprio programador do palco: não haver trance e manter a pulsação em valores inferiores a 120 batidas por minuto. Quer isto dizer que este local, que operou quase 24/24 (havia apenas uma pausa entre as 18h e as 21h para limpar equipamento e montar a banda que abriria um novo ciclo até ao dia seguinte), procurou ele próprio afastar-se do standard do Dance Temple, criando uma identidade policromática. O resultado não podia ter sido mais completo. Houve espaço para melodias matinais próximas do sussurro, para apaziguar as mentes e os corpos mais agitados; ritmos da América do Sul pensados para a hora de almoço; batida inspirada em África para o final de tarde e uma visita aos subúrbios de Inglaterra na programação nocturna. Nos entretantos, ouviu-se tech house, liquid funk, acid jazz, grime, trip hop e – qual a surpresa – “Alright”, de Kendrick Lamar, tocada na madrugada da noite de lua cheia e, claro, entoada por muitos (inclusive na régie…).

É precisamente na noite de lua cheia (este ano com direito a eclipse) que se dá o ponto alto do Boom Festival. É ali, em plena natureza, com a visão desafogada, longe das toneladas de betão das grande cidades e sem nuvens de poluição a filtrarem a realidade, que milhares se reúnem para observarem o nosso majestoso satélite natural a rasgar os céus, belo e iluminado, redondo, perfeito, imperial. É também ali, sem filtros, que milhares se despem de si próprios em profundos rituais extáticos. Há fogo por toda a parte, caras pintadas, cânticos, meditação, percussão, malabarismo, uivos, danças – todo um rol de acontecimentos que procuram, mais do que comunicar com entidades sobrenaturais, uma séria e determinada purificação. É precisamente ali, junto às águas que banham o recinto (e que belo e perfeito é todo o ambiente circundante) que milhares lavam as suas almas dos costumes malignos da sociedade, das práticas corrosivas do quotidiano. O ter deixa de fazer qualquer sentido, vão-se as marcas e o valor geral daquilo que trazemos sobre o corpo. Não é por isso de estranhar ver pessoas nuas a caminharem ao nosso lado, outras descalças, de pés no chão, como forma de garantirem uma ligação directa à natureza onde se inserem.

 



Terminado o ritual junto ao lago, inicia-se o cortejo em direcção ao Dance Temple, local escolhido para a última etapa deste programa de purificação. E quem melhor do que os Hilight Tribe para garantir que a purga se finda em condições? Este é outro daqueles casos em que é preciso ver para crer. Capazes de incendiar por completo uma pista de dança com trance orgânico, ao vivo e a cores (muitas cores mesmo), repartidos entre didgeridoo, dungchen, congas, bateria, guitarra, baixo e voz, os Hilight Tribe oscilam entre ritmos tribais e sonoridades budistas, sempre acompanhados pela habitual cavalgada do baixo e do bombo, garantindo ao público um combustível que se recicla a cada música e atingindo o ponto alto de combustão em “Great Spirit”, altura em que se limpam as derradeiras toxinas. É de louvar a forma como os Hilight Tribe conseguem servir um concerto com tamanha entrega e eficácia, sem nunca deixar que a energia se coloque em níveis inferiores aos exigidos e sem nunca comprometer o ritual a que foram propostos. Das melhores coisas que já se viu ao vivo.

Por fim, as drogas. Elas existem, estão lá, sem dúvida alguma. Só é lamentável que a comunicação social opte quase sempre por abordar este capitulo quando decide escrever algo sobre o Boom. E por mais que a organização insista em sublinhar que não se revê em tais práticas, parece haver uma constante perseguição a esta temática, como se não fossem relevantes todas as outras que realmente moldam a identidade do festival. Há tanto para salientar no Boom, tanto para explorar, tanto para relatar. Se não for suficiente toda a missão ecológica, existem também várias palestras interessantes no Liminal Village, aulas de Ioga, workshops de dança, verdadeiras exposições de arte onde se enquadram as construções de areia, de bambu, as autênticas aldeias construídas do nada, o próprio mapping numa colossal estátua de madeira, obras que levam semanas a serem construídas e que acabam reduzidas a cinzas por esse ideal que prefere olhar para o Boom através das apreensões de drogas e das overdoses. E se não bastar tudo aquilo que foi aqui dito, talvez uma visita ao festival ajude a perceber que há famílias acompanhadas de crianças que saem do acampamento, de manhã, mal o sol começa a raiar, para aproveitarem umas horas no Dance Temple, e que essa peregrinação se faz, ao contrário do que se poderá pensar, com sandes, bolos e batidos de fruta no estômago, sem toxinas, unicamente inebriados pela vontade de dançar e confraternizar. Há quem vá ao Boom para aproveitar todas as vertentes do festival e não apenas aquela que os desinformados insistem em vender aos demais. Chama-se a isso preconceito. E mais do que a questão ambiental, esta parece ser a maior batalha deste certame.

 


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