Bonga reedita em vinil os dois primeiros álbuns da carreira

[TEXTO] Alexandra Oliveira Matos [FOTO] Direitos Reservados

Angola 72 e Angola 74, trabalhos inaugurais da hoje muito celebrada obra discográfica do cantor angolano Bonga, vão merecer, pela primeira vez em décadas, relançameto em vinil. São discos que, nas palavras do músico Conductor, nome central da modernidade angolana que foi um dos arquitectos do Conjunto Ngonguenha e que depois militou em Buraka Som Sistema, “representam uma saudade que só se mede nas lágrimas de quem ouviu e sentiu a questão da emigração”. Pedro Coquenão assegura que tem os dois trabalhos “muito juntinhos e próximos de outros tantos” que lhe são “essenciais”. “O timbre dele faz parte da vida de tanta gente. Da minha também”, confessa o produtor que assina como Batida.

 



Em plena guerra colonial, foi em Roterdão que Bonga, o nome artístico de José Adelino Barceló de Carvalho, encontrou refúgio do Estado Novo que o perseguia por ser militante do Movimento Popular pela Libertação de Angola, mas também campeão nacional (em Portugal) dos 400 metros em atletismo. Na Holanda lançou pela Morabeza Records, editora de raízes cabo-verdianas, o seu primeiro álbum: Angola 72. Deste é marcante o choro da guitarra de “Mona Ki Ngi Xica”, uma música de luta revolucionária pela independência angolana, ou “Paxi Ni Ngongo”. Temas “ouvidos em loop em inúmeros momentos de saudades e de reunião com os cambas”, recorda Conductor.  A Pedro Coquenão agrada que Bonga seja “um cantor improvável pela própria estranheza que provocou a sua voz, mas que se veio a revelar corredor de fundo onde não fica em segundo de ninguém”. Sobre Angola 72 acrescenta ainda que gosta do facto de “ter sido gravado sem nacionalismos tacanhos, influências e amores vários assumidos, mas com um identidade própria”. Angola 74 foi gravado em Paris e também lançado com o selo da holandesa Morabeza. Na capa, que na versão de 2018 se mantém, já vemos o sorriso de Bonga Kuenda. É neste segundo álbum que se ouve pela primeira vez a letra de “Sodade”, escrita nos anos 50 pelo cabo-verdiano Armando Zeferino Soares e eternizada a partir de 1992 na voz doce e profunda de Cesária Évora. Bonga, no entanto, gravou-a primeiro.

Dois álbuns do acarinhado “cota” que “ultrapassam gerações, porque muita história se repete, e com isso se aprende”, acredita Coquenão, relembrando-nos também que no dia 16 de Abril vamos poder ver Bonga no Africa Dance, no Campo Pequeno. A música do artista angolano manteve a sua energia singular: que o diga Rocky Marsiano, produtor que acaba de colocar o seu twist em “Mona Ki Ngi Xica” e que tem no mestre angolano uma das suas referências.

 


Alexandra Oliveira Matos

Alexandra Oliveira Matos

Questionar é o verbo pelo qual orienta o olhar. Licenciada em jornalismo na Escola Superior de Comunicação Social, mestre em continuar a aprender.
Alexandra Oliveira Matos