Bob Da Rage Sense: “Eu sou uma pessoa movida por sentimentos muito fortes”

[FOTO] Mike Ghost

Bob Da Rage Sense lançou “Rei Morte, Rei Foste” na passada sexta-feira. O primeiro single desde “Montanhas” conta com a produção de Young Max.

Robert Montargil da Silva é um artista angolano com nome reconhecido no hip hop lusófono, dono de um discurso revolucionário – a nova faixa é mais um exemplo disso. Colaborou com nomes como Sam The Kid, Ikonoklasta, Sir Scratch ou NBC, mas foi sempre a solo que se destacou e mostrou que fazia parte de uma certa elite não declarada de liricistas a utilizar a língua portuguesa.

O Rimas e Batidas trocou algumas palavras com o MC e conversou sobre o mais recente tema, o novo álbum que está a preparar e a situação do hip hop em Portugal e Angola:

 



O título do single, “Rei Morto, Rei Foste”, está a referir-se a alguém em concreto, ou é antes uma crítica colectiva?

É uma crítica colectiva, as primeiras duas linhas da faixa dizem tudo, o resto são interpretações. Há toda uma indústria hoje em dia a propagar esse tipo de mensagens e eu simplesmente não gosto. Existem muitos reis e deuses no hip hop hoje em dia, tantos que a cultura em si está descaracterizada e os rappers perderam personalidade. No meu álbum de 2009, Diários de Marcos Robert, na faixa “Geração da hipocrisia” há uma passagem em que digo: “Não sou o Valete, nem sou o Sam, eu sou o Bob, pára senta e escuta ou então mano, foge/ E nunca virás a saber e aprender regras super importantes para sobreviver“. Isso quer dizer que foi um diss para o Sam e o Valete? É só real talk, nada mais, quem se sentir atacado problema seu, a mim já basta ignorância de algumas pessoas na Internet.

Porque é que escolheste falar sobre a possível degradação do hip hop português agora? Achas que o género está num ponto crítico?

Agora? (risos) Já falo sobre essa degradação há muito tempo, o problema aqui é que me parece que muitas pessoas têm memória curta, ou escolhem ter, não sei… Em 2007, no álbum M.P.L.A. tenho a faixa “Pseudo Americanos” que é um reflexo do que já se passava na altura. Em 2009 tenho muitas outras faixas do género no álbum Diários como a “Universal”, por exemplo, que também é uma chamada de atenção para esse tipo de abordagem. Em 2013, no meu álbum Ordem Depois do Caos tenho a faixa “Ser ou não ser”, portanto o discurso não é novo, mas é actual. O meu feeling em relação à isso não é uma novidade para os mais atentos, eu quase que já não consigo ouvir hip hop feito em português, de Portugal e de Angola, é quase tudo a mesma coisa que eu já nem sei quem é quem. Muito mais do que um ponto crítico é um ponto lamentável, penoso, na minha opinião. Só tenho pena de quem não consiga ver isto e pena também dos que vêem, mas optam por não se manifestar, enfim…

A faixa está com um discurso bem agressivo. Vamos encontrar isso mais vezes no novo álbum?

Não acho que o discurso seja agressivo, é apenas sincero. Há uma grande dificuldade nas pessoas em aceitar certas verdades hoje em dia porque a Internet oferece-lhes uma grande ilusão de resplandecência, grátis ainda por cima. A evolução tecnológica veio realçar também o facto de que insuflar o ego nas redes sociais é bem melhor do que aceitar o reflexo no espelho, não digo que essas pessoas não devam ter autoestima, muito pelo contrário, mas para tudo há uma linha que separa o que é real do que é fictício. Eu não censuro a música trap, o que torna a música trap fútil e banal é a falta de qualidade e talento do artista. Eu adoro música de festa também, não sou aquele MC revolucionário que fica a noite toda com a cara trancada no canto de um club porque abomina a música comercial, não sou esse tipo de MC, mas abomino música burra, sem qualidade e rappers que falam que têm isso e aquilo quando pessoas bilionárias que controlam o sistema como a Isabel dos Santos ou o Ricardo Salgado não têm nada a declarar. Há rappers da berra em Portugal e em Angola que eu ouvi apenas uma vez em toda a minha vida, fiz fast forward e senti vergonha alheia a seguir e nunca mais ouvi nada deles, mas isso sou eu, se as outras pessoas gostam tudo bem, eu não gosto nem oiço. Não tenho mais faixas do género no próximo álbum, tenho temas muito mais importantes para abordar, pessoais e não só.

Já tens data para o trabalho? Podes adiantar-nos outras coisas como colaboradores e produtores?

Não tenho datas previstas para o término do álbum, quanto mais para o lançamento… Não tenho muito para adiantar a não ser o facto de que vou trabalhar com muitas pessoas com quem nunca tinha trabalhado antes. Será todo feito em Londres e depois farei uma pausa por tempo indeterminado.

Pelo que percebi, esta é a primeira música que lanças desde meados de 2016. Há alguma razão para a ausência?

Eu sou uma pessoa movida por sentimentos muito fortes. Quando sinto, sinto a sério e, quando não sinto, não sinto mesmo nada. Há duas naturezas em mim: a primeira é ter noção das minhas capacidades e saber que posso construir pirâmides se me apetecer. A segunda é simplesmente pegar nessas capacidades para fazer coisas simples e complexas ao mesmo tempo, como preservar uma floresta para manter o ecossistema equilibrado. A faixa “Montanhas”, que gravei em 2016 para o projecto do Sam, era para o meu álbum e já estava escrita, se não me engano, há dois anos, que foi na altura em que ele me mandou o instrumental. Eu perdi o feeling de ir ao estúdio gravar, tenho tantas letras que podia gravar um álbum por semana se me apetecesse, mas perdi o feeling simplesmente, então decidi sair de Lisboa, vim viver para Londres e começar a viver experiências nunca antes vividas por mim. Adoro viajar, visitar sítios, absorver outras culturas, gosto imenso de arte e tenho um vício indescritível por museus. Acho que nunca estive tão bem comigo mesmo, não invejo ninguém e nem sei o que é querer ter protagonismo por conta de terceiros. Quando o álbum sair, saiu.

 


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