Blasph: “Não sinto necessidade de estar a forçar conteúdos”


[ENTREVISTA] Ricardo Farinha [FOTOS E VÍDEO] Sebastião Santana [EDIÇÃO VÍDEO] Luís Almeida

Com rimas de rua na ponta da língua, Blasph está de volta com um trabalho a solo, depois de no ano passado nos ter mostrado o seu OProcesso conjunto com Beware Jack por cima dos instrumentais de Kilú. Stracciatella & Braggadocio é o nome do EP de oito faixas que é lançado esta terça-feira pela Mano a Mano.

O Rimas e Batidas falou com o rapper da Margem Sul sobre o novo trabalho, processo criativo, as alterações à tracklist apresentada inicialmente e outros planos de Frankie Diluvio.

 



O que procuraste fazer diferente neste álbum, em termos de sonoridades e letras?

Primeiro do que tudo, sonoridades: quis fazer uma cena diferente. O meu primeiro álbum, Frankie Diluvio Vol. 1, tem assim uns beats mais electrónicos — não quer dizer que este também não tenha, não é? Mas, no todo, acho que [esse] é mais electrónico. Em relação aos assuntos, não sou assim um gajo… não tenho outro assunto, se calhar [risos].

Mas gostavas de mudar isso?

A nível de letras não invento muito. Porque acho que perde um bocado de credibilidade…

Quando tentas forçar algo?

Exacto. Tenho 30 anos, já faço rap há alguns anos, e acho que é fatela um gajo mudar um discurso, tentar ir por outros lados porque está na moda ou porque o pessoal está a curtir o ballin’ e essas merdas. Eu sempre fui um baller, man [risos]. Há coisas que o pessoal aborda e que está na moda e que eu já fiz, e eu também falo disso, e já fiz há muito tempo. Não sinto necessidade de me estar a forçar, forçar conteúdos.

O ano passado lançaste OProcesso com o Beware Jack. Como é que muda a forma de trabalhares sozinho em comparação com trabalhares com outra pessoa? Tens de ser mais disciplinado quando trabalhas a solo?

Claro. Porque a cena de trabalhar em equipa é que um aperta com o outro, o outro aperta comigo, e as coisas acabam por sair. Agora, sozinho tens de estar bem focado. O processo é diferente, contas só contigo, não tens ninguém para: ‘ei, bora lá fazer isto, bora combinar hora de estúdio. Escrever, rimar, tratar de vídeos, etc.’ É essa a única diferença.

Como é que funciona o teu processo criativo, neste caso?

Eu só rimo, não faço beats, não tenho muitas noções de mistura e masterização, então tenho que contar [à mesma] com pessoas a trabalhar comigo. E aquilo a que me estava a referir era exactamente isso: não depende só de mim. As coisas têm que acontecer, mas tenho que trabalhar com outras pessoas, e arrasta-se um bocado mais porque não tenho esses conhecimentos. Não porque não queira, mas porque não se proporcionou.

Mas gostavas, por exemplo, de aprender a fazer beats?

Claro, só que, neste momento, não tenho assim tanto tempo para poder… a minha vida não é só isto. Mas gostava de aprender. Não digo que daqui a um tempo não tire um curso ou aprenda de outra forma.

Isto foi um trabalho em que começaste a pensar há quanto tempo?

Talvez a música mais antiga tenha por volta de três, quatro anos.

Qual é que é?

A “Euros Ramazzotti”, que passou por um processo de mudança de beat. O próprio formato da música alterou-se um bocado. Não só essa. [Foram] várias. Tive alguns problemas com beats também: já tinham sido usados e não me tinha sido comunicado. Tive de recorrer a outros produtores. Foi assim um atraso significativo para lançar este EP.

Até porque tinhas revelado uma tracklist que entretanto já não está actualizada, certo?

Exacto. E o pessoal mais atento se calhar vai notar que a produção fica a cargo de outro producer. Contactei alguns produtores: com uns resultou e com outros não, e chegámos até este trabalho final. Posso-te dizer que contactei alguns produtores que não conseguiram. Não desfazendo os outros [produtores iniciais], mas acho que ficou um trabalho superior, pelo menos mais trabalhado. Não tão em bruto. Porque não tínhamos chegado a uma fase final do trabalho, não é? Então o instrumental, como estava na minha posse, ainda não estava muito lapidado.

 


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E suponho que algumas dessas faixas também tenham mudado bastante de vibe.

Sim, completamente. E é uma cena de que gosto de fazer. Isto é um bocado revelar o meu segredo, mas não é segredo nenhum, quem rima sabe bem que as coisas acontecem desta maneira. Que é, por exemplo, eu escrevo num beat, gravo noutro beat e, pode ou não acontecer, vou tirar essa [voz] acappella e vou dar a um produtor para fazer um beat para essa acappella. Eu gosto de trabalhar assim. É desafiante. O ritmo está lá, tu é que tens o ritmo. Tu é que és o senhor do ritmo. Ao fim ao cabo tu vais pedir emprestado o ritmo a um beat, vais gravar noutro, e se a cena não te agradar muito, e agrada-te só o ritmo das vozes, dou a um produtor para construir um beat em cima da minha voz. É uma maneira que curto de trabalhar. Já no Frankie Diluvio Vol. 1 aconteceu e acho que vai continuar a acontecer.

Como é que surgiu a ligação com estes produtores todos? Com alguns deles, obviamente, já trabalhas há muito tempo.

Com o Nerve é a primeira vez que estou a rimar num beat dele. Não! Minto. No ENPTO eu rimei num beat dele. Mas não é hábito o Nerve produzir para outros MCs. Esta música que é “Apanha Game” também teve esse problema. Tinha um beat do DJ Sims, que entretanto perdeu o projecto do beat, e, como eu queria fazer as coisas de maneira diferente, não queria ter só uma faixa mp3, decidi recorrer a outro produtor. E foi o Nerve: eu mostrei-lhe a faixa, ele curtiu pra caralho. Não queria que fosse um beat para mim, mas que fosse um em que ele se também visse a rimar. E não podia ter corrido melhor, foi fixe. [A “Euros Ramazzotti”] originalmente era para ter um beat do Here’s Johnny, que depois acabei também por não usar. O Lhast já conheço há alguns anos e estivemos para trabalhar algumas vezes. Eu não sabia que ele também estava a colaborar com o Slow J, que este beat é dos dois, ele mandou-me, eu mandei-lhe a acappella da música, ele mandou-me o beat por debaixo e eu curti logo. Tem um flavor diferente, nada a ver com o beat que eu tinha escolhido. O Keso também já conheço há alguns anos. Sou fã do Keso, claro, e da produção dele. Acho que tem muito a ver comigo. E então, numa ida ao Porto falei disso com ele… inicialmente até queria um refrão. Mas ele mandou-me para o caralho, completamente [risos]. “O pessoal quer todos refrões meus e tal”. “Pronto, ok, já vi onde queres chegar [risos]”. Um beat, ya. “Ya, tá-se bem, vou fazer um beat para ti”. Entretanto mandou-me o beat, adorei. Talvez seja a música ou o beat que eu sinta mais neste projecto. Acho que é mesmo aquele que é para mim. Para já foi feito mesmo para mim, e depois identifico-me bastante. Escrevi para esse beat, algo que não acontece muitas vezes. Houve uma mudança de instrumental também na “Juros”, que era para ser do Kacetado, o Skunk. Entretanto esse beat já tinha sido usado pelo Xeg. Houve ali uma falha de comunicação entre mim e o Skunk, eu fiquei a saber que já tinha sido usado, e entretanto não ia usar, claro.

E aí de certeza que houve uma mudança forte de sonoridades, pensando nas diferenças entre o trabalho dos dois.

Sim, completamente. A própria estrutura da música também mudou, tanto que aquilo foi de um boom bap raw do Skunk para um trap à Stereossauro, mesmo a abrir. E eu acho essas merdas engraçadas. Talvez o pessoal pense: isto não é assim muito profissional, mas eu também não sou profissional [risos]. Apesar de não termos assim um grande contacto, eu conhecia o trabalho dele e ele conhecia o meu, ele prontificou-se logo a fazer uma cena fixe.

E porque é que decidiste lançar um EP em vez de um álbum?

Porque queria mesmo fechar este capítulo, não queria fazer mais músicas. Não queria estar a arrastar muito, tentar fazer mais duas ou três músicas para ser um álbum, não. Aliás, isto é um EP porque não tem dez faixas. Mas para mim, é um álbum: o conteúdo, o sumo todo, para mim isto é um álbum. Agora o pessoal faz o que quiser, já não há limitações nenhumas. Acho que entre um EP e um álbum não há muita diferença, pelo menos no caso deste projecto que vou lançar.

Estás a planear fazer concertos de apresentação deste EP?

Claro que sim. Pelo menos de apresentação, em Lisboa e no Porto. Talvez uma apresentação aqui na Margem Sul também, apesar de ser perto de Lisboa, mas é outro ambiente. E se surgirem convites, vamos embora.

Vai ter edição física?

Primeiramente vai sair nas plataformas digitais. Na minha opinião, gostava de fazer edição física, claro que sim. Pelo menos para o pessoal ter como recordação, até eu próprio. Sou capaz de fazer um estudo do pessoal que realmente quer ter.

Já estás a trabalhar em coisas para o futuro?

A nível de música, quero fazer algumas coisas: tanto com MCs como com produtores. Posso dizer que neste momento estou só a ouvir beats, para ver em que direcção é que vou: qual é o projecto. Ainda não tenho nada estudado, mas quero fazer EPs com MCs e projectos com produtores. Trabalhar em conjunto com alguém. Tenho alguns nomes, mas não quero avançar porque as coisas podem dar uma volta… fora da música, também tenho alguns projectos que, a seu devido tempo, vocês irão saber.

 


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Ricardo Farinha

Ricardo Farinha

Jornalista. Colabora desde os 18 anos com várias publicações culturais — as rimas e batidas sempre foram inerentes à vida.
Ricardo Farinha