Black$ea Não Maya homenageiam “os nossos dois guetos” em Kumaica

[TEXTO] Ricardo Miguel Vieira [FOTO] Marta Pina

Reconhecido pelo seu regular contributo à cena kuduro e tarraxo progressivos de Lisboa, o colectivo Black$ea Não Maya estreou-se recentemente em edições fora da esfera Príncipe com a edição do EP Kumaica na portuguesa Vnlimited Records.

A compilação é assegurada por cinco faixas de “batidas agressivas” e títulos abstractos (“Duracell” ou “Rav I Ano”, por exemplo) que homenageiam os bairros da Margem Sul do Tejo de onde são originários os produtores envolvidos no colectivo – DJ Kolt, DJ Perigoso, DJ Joker (a residir no estrangeiro) e DJ Noronha (que não participou neste EP).

Kumaica é a junção dos nossos dois guetos: o Jamaica, onde passámos boa parte da nossa infância e onde demos início à nossa actividade musical; e o Cucena, onde vivemos desde há 12 anos e onde desenvolvemos o som que hoje levamos às pessoas”, contou DJ Kolt ao Rimas e Batidas. Na visão do jovem produtor, as criações de de Black$ea Não Maya definem-se por “batidas rítmicas para movimentar o corpo”.

Sobre a ligação à Vnlimited Records, Kolt sublinhou que o processo foi bastante simples. “A editora contactou-nos através do Facebook, propondo-nos o lançamento de um EP ou álbum só com batidas agressivas. Então foi só acertar condições e depois lançar o EP.”

Kumaica transborda ritmos espontâneos e um espírito de libertação capaz de virar as pistas de dança do avesso. “Delinquente” e “Rav I Ano” serão os mais significativos apelos físicos deste trabalho, cuja direcção se foi “moldando à medida que as faixas iam surgindo”. Ou seja, o projecto também tem muito de experimentação, de barómetro a outras explorações sónicas, como as que escutamos nos elementos adicionais em “Duracell” e “Vamo Embora” – os sopros poeirentos ou riffs distantes que oferecem diferentes dimensões ao EP.

A verdade é que a generalidade dos artistas conotados com a batida dos guetos da capital parecem ainda não ter esticado os limites dos ritmos kuduro e tarraxo. Isto para dizer que, salvo excepções como Marfox ou Nigga Fox, por exemplo -, a maioria é propensa a actualizar regularmente os ouvintes sobre as suas mais recentes experimentações em softwares como o Frutyloops. Não são raros os dias em que novas produções – terminadas ou ainda em fase work in progresso – surgem em plataformas como o Soundcloud, fruto do entusiasmo da partilha, mas também para retirar feedback sobre os caminhos que cada um destes produtores está a trilhar.

“O que nos motiva a partilhar com frequência [os nossos sons] é pôr as pessoas a par do que aí vem”, explicou Kolt. “Basicamente é o calor do momento, o produtor curte tanto aquilo que mete no Soundcloud, o que também demonstra que não estamos parados. Depois o feedback ajuda sempre no nosso direccionamento musical, principalmente quando arriscamos coisas novas, diferentes do nosso estilo.”

Para Kolt, o espírito saudável de entreajuda e colaboração entre todos os produtores é também testemunho da evolução da cena batida, especialmente fora de portas. “Quase que somos uma família na medida em colaboramos e também ajudamos na partilha dos nossos sons. A evolução da cena tem sido crescente e positiva a nível internacional. Há já algum tempo que ouvimos amigos ou conhecidos nossos dizer que a batida está a forte em países como Inglaterra ou Luxemburgo.”

Para o futuro próximo dos Black$ea Não Maya, Kolt sugere que este será um ano de intensa actividade. “Temos umas novidades no campo das colaborações e reservámos umas bombas youtubais, ou seja, planeamos rebentar no YouTube de várias maneiras. As coisas estão a andar.”

Kumaica está disponível para escuta em plataformas como o Spotify.

 


Ricardo Miguel Vieira

Escrevo umas linhas em revistas e sites. Cultura, música, activismo, DIY, surfing são o meu universo. Se não me encontrarem por aí de headphones entre orelhas é porque estou algures no oceano.