BK: “Sempre que você começa a trabalhar com arte a sua sensibilidade para o mundo é maior”

[TEXTO] Núria R. Pinto [FOTO] Direitos Reservados

Abebe Bikila e companhia estavam a poucas horas de fazer um dos concertos mais memoráveis da noite única de Maze Fest em São Paulo, e talvez da carreira enquanto grupo dos Pirâmide Perdida, quando o MC do Rio de Janeiro esteve à conversa com o Rimas e Batidas. Quase dois anos depois do lançamento de Castelos & Ruínas, o Rimas e Batidas encontrou BK nos bastidores do Audio Club e aproveitou a ocasião para saber como tudo começou para ele, ficar a par das especificidades do seu trabalho enquanto artista e conhecer um pouco mais da cena hip hop do Rio.

 



Ouvi numa entrevista que não tinhas nascido “directo no rap”. Como é que isso se deu?

Não. No Rio de Janeiro – e eu falo do RJ porque, claro, é onde eu fui criado – a gente sempre ouvia muito na nossa infância muito pagode, era muito funk, muita música ali da região onde a gente morava e eu fui conhecer o rap depois, entrando na adolescência, assim… Tipo, o rap não é uma música que a gente ouve desde a nossa infância, ali…

Talvez agora, de agora em diante, possa ser para essas gerações que estão vindo. Mas na minha época não era e a gente não tinha tanto acesso a Internet e tal… Nem sei se havia Internet na época, nem lembro se tinha (risos)… Aí eu fui conhecer o rap depois, e conhecendo eu me interessei muito porque eu via o povo preto de outra forma, ali. Eu falei “mano, eu quero ser isso. É isso que eu quero.” E mesmo assim quase que eu não segui esse caminho do rap porque onde eu morava, em Jacarepaguá mesmo, era só eu que curtia rap da minha rapaziada, na época…

Estavas meio isolado, portanto, não deve ter sido fácil para ti…

Isso, é. Então eu fui deixando meio um pouco o rap de lado, assim. Eu fui escrevendo algumas coisas mas aí mas eu quase fui MC de Funk, eu comecei a escrever umas paradas muito para baile e meu freestyle era muito de funk mesmo, ‘tá ligado? Aí depois nesse lance de vida mesmo a gente foi se mudar, foi morar no Catete e tal, e lá eu conheci outra rapaziada, outro pessoal que já curtia as mesmas coisas que eu curtia e se interessava pelas mesmas coisas. Não que eu não me interessasse pelo pagode e o funk, muito pelo contrário, acho que são tudo bases para eu poder fazer o meu rap, hoje em dia. Mas é eu não nasci no rap, eu me apaixonei pelo rap, pelo hip hop, no meio do caminho.

Isso com que idade, mais ou menos?

Cara, eu lembro que o meu primeiro contacto assim directo eu devia ter uns 13 ou 14 anos. Eu lembro que, com 16 [anos], eu já escrevia algumas coisas. Eu fui deixando morrer mas nessa época eu já estava escrevendo algumas coisas e eu já estava começando a sair, a ver as coisas da rua e aí eu fui deixando um pouco de lado para viver o que eu tinha que viver ali, entendeu?

Tu sentes que tens um papel de educador, também, no sentido mais amplo da palavra? Sei que o conhecimento é um dínamo importante para ti…

Então, é o que eu falo… A gente pode se considerar, sim, um educador porque a gente tem visões de mundo – não vou falar talvez diferentes – mas mais amplas pelo contacto com a arte. Sempre que você começa a trabalhar com arte a sua sensibilidade para o mundo é maior então você consegue enxergar mais coisas e ser menos neurótico, ser menos conservador com algumas coisas e tentar passar isso para os outros… tentar fazer as coisas mais simples. Eu sempre tento passar uma visão, por mais que eu escreva de uma forma talvez complicada ou às vezes mais complexa, de simplificar as coisas. A gente vive num mundo muito neurótico, muito frenético… A gente tem que falar “calma, mano!”. O que a gente não pode é proibir ninguém de fazer o que quer ou deixar que o interesse de um afecte a vivência do próximo, acho que a minha visão é mais essa. Minha educação talvez seja essa de libertar as mentes. Dei uma volta mas agora achei o que eu queria falar… Tipo isso. Libertar as mentes, a gente está aí para educar, né?

Quando eu voltei a me focar mais no rap eu comecei a estudar mais o rap. Aí eu fui acompanhando várias formas de fazer… Dos caras daqui, dos caras da gringa. E esse jeito de escrita mais complexo foi um jeito que me encantou muito. O Jay-Z, o Big L, o Lil Wayne… eles faziam uma linha e de uma linha eu podia dar três sentidos, fazer várias analogias e podia, talvez, numa linha passar bastante informação, entendeu? Eu falei “cara, isso é maneiro!” e eu fui aprendendo a fazer isso e consegui fazer isso da minha forma, entendeu?

A usar esses duplos sentidos, essas metáforas…

Isso, isso. Acho muito maneiro, isso. Acho muito maneiro… E foi uma forma que eu gostei, cara. Fui aprendendo, consegui adaptar para a minha forma. Além de… não só os caras da gringa, tem vários caras fazendo isso aqui: Black Alien, Marechal, os caras mais das antigas. Então a gente vai aprendendo um pouquinho ali e vai passando dessa forma. Eu acho que é isso, o lance de ser complexo é que você consegue dar muito sentido ali e às vezes você consegue passar informação que a pessoa não conhece e a pessoa fala “cara, maneiro!”. E esse é o lance da educação também, quando você faz uma referência e você conta alguma história e não conhece, e conhece aquilo ali e fica encantado…

Ou que às vezes a pessoa já conhecia e nunca lhe tinha sido explicado daquela forma e ela finalmente entendeu.

Exacto. Então é o jeito ali da pessoa aprender. É maneiro, cara, me amarro.

Tu achas que se não tivesses seguido o caminho do rap poderias ter vindo a ser professor ou educador, de alguma forma?

Cara, eu não sei o que é que… Ó, eu trabalhava com vídeo, antes. Eu comecei a fazer Faculdade de fotografia que eu abandonei no segundo período e eu tava pensando em, talvez, depois fazer cinema porque vídeo, eu gosto muito. Tanto que nos meus vídeos ou eu estou fazendo o roteiro ou co-dirigindo; eu estou sempre presente nos meus vídeos. Mas vou-te falar, no momento assim… Eu não sei o que é que eu iria estar fazendo agora se não fosse rap. Talvez o vídeo… Se não fosse um dos dois eu não tenho noção do que iria ser Abebe Bikila agora.

 



Castelos & Ruínas saiu em Março de 2016, daqui a pouco já faz dois anos. 2016 foi um ano em grande para ti… como é que tem sido esse percurso até agora?

Em 2015 a gente lançou a mixtape do Néctar (Gang) e a gente começou a fazer os trabalhos ali na cena underground do Rio de Janeiro. No Castelos & Ruínas eu consegui… Tipo, eu fiz muita coisa com o Néctar mas eu tinha muita coisa para falar, ainda. Tinha muita coisa minha para falar. O Castelos & Ruínas foi uma porta ali para poder soltar tudo o que eu queria falar. E quando se lançou o álbum a gente começou a fazer uns trampos no Rio, São Paulo e tal… E depois a galera foi começando a ouvir no natural, mesmo. No orgânico. De ouvir falar “ó, isso aqui é maneiro, ouve!” e foi bem assim. A gente conseguiu chegar e agora está fazendo show todo o final de semana, no Brasil todo e… maneiro pra caralho, entendeu? (Risos)

Às vezes cansa mas é um cansaço que eu dou graças a Deus de estar cansado fazendo isso. Podia estar cansado fazendo outra coisa que eu iria odiar. Mas eu estou cansado fazendo o que eu gosto.

Esperavas um feedback tão bom desse primeiro álbum? Porque, de certa forma, é um álbum muito focado em ti próprio, introspectivo, de dualidades mas com o qual as pessoas também se identificam.

Porque é o que eu falo, antes de cantar rap… eu nem gosto de dizer que é rap de mensagem, no rap eu falo vida. Tem uma música nova minha que ainda não saiu, vai sair no próximo disco e que fala…

Como é que se chama? Quando é que vai sair? (Risos)

(Risos) O disco vai sair o ano que vem e o nome da faixa é “Titãs” e nessa faixa eu falo “Eu não canto rap, eu canto vida”. E é isso. É por isso que as pessoas se identificam. Eu conheço muitas pessoas que não estão propriamente no circuito e ouvem rap ali e se identificam muito com as coisas que eu falo. Porque é de vida, do ser humano passando ali por situações como jantar, dormir, acordar, tomar banho, sei lá… é coisa de ser humano, entendeu? E é isso. E sobre a questão do feedback, cara, é o que eu sempre falo: quando terminei o disco eu falei “mano, esse disco ‘tá foda”. Portanto, eu sabia que o disco estava bom, ‘tá ligado? Eu sabia que o disco estava bom. Eu tinha a certeza, entendeu? E foi rodando, rodando, e aí chegou no finalzinho de 2016, ali, já começou a bater muito. A bater bastante. Eu fui começando a fazer vários trabalhos e estamos aí, agora. Fazendo um monte de trampo. Vou soltar outro EP agora no mês que vem…

 



Em Dezembro.

É. Eu soltei um EP no mês passado que se chama Antes dos Gigantes Chegarem, Vol. 1. Aí eu vou soltar Antes dos Gigantes Chegarem, Vol. 2 e o nome do álbum eu não vou falar mas é só as pessoas pensarem. (Risos) Pô, eu não vou soltar o nome do álbum mas é só as pessoas pensarem porque já está explanado, já… (Risos)

No volume 1 eu quis meio que dar um resumo do que eu fiz: um resumo de Néctar, um resumo de Castelos & Ruínas, um resumo da mixtape da Pirâmide Perdida. Algumas vibes, ali. O volume 2 já é um lance mais experimental, mais a cara do próximo álbum.

Para além disso o que é que podemos esperar, consegues desvendar alguma coisa?

O Castelo & Ruínas, ele é de fora para dentro, digamos assim. É a visão de fora para cá. O meu segundo álbum já acho que é, tipo, o contrário. Uma visão de dentro para fora, de relacionamentos, de pessoas com pessoas. As atitudes que você tem que ter no dia-a-dia. São atitudes que você passa até te tornar gigante, tipo isso… É o que você passa para te tornar gigante, ‘tá ligado? Mais ou menos isso…

Aproveitando que estamos aqui a “exportar”…

Já soltei o nome do álbum três vezes, agora! (Risos)

(Risos) Aproveitando que estamos a “exportar” o hip hop brasileiro, como é que tu vês a cena do hip hop no Rio? Que nomes queres destacar?

Eu vou falar o que eu acho muito da cena do rap do Rio de Janeiro… O hip hop, como é que eu posso dizer, eu não vejo muito a cultura hip hop em si… Por isso é que eu falo que o Bloco Sete é uma banca que é muito hip hop, porque ela tem varias vertentes do hip hop além do que eu acho que é o principal que é o de influenciar pessoas e dar pontos de vista.

E a cena do Rio de Janeiro… ele exporta muitos artistas mas não tem tantos evento de rap, assim. Ele não tem uma cena forte de rap. A gente pode falar que cresceu mas ainda tem uma dificuldade que eu não sei qual é nem como a gente melhora isso. Tem muito MC e muito MC bom, acima da média, mas não tem uma cena, em si, forte. É um movimento ainda pequeno dentro do Rio de Janeiro. A gente está crescendo mas não sei como é que a gente se organiza melhor. A gente tem que se organizar melhor… Eu não sei como é que a gente faz. Tem um lance das rodas de rima que fez crescer mil por cento mas mesmo assim ainda é um lance muito fechado, ali… E eu não falo isso por causa dos MCs ou do jeito que eles são. Mas ainda é fechado. Ele exporta muito mas a gente que está lá sabe que não é isso tudo. Não tem condição de ter três eventos de rap no Rio de Janeiro no mesmo dia. Não tem. É o meu lugar favorito de cantar, óbvio, no Rio de Janeiro. Na Lapa.

Gostas de cantar em casa?

Parece um ritual. É a coisa mais linda cantar na Lapa, ali. A coisa mais linda. Mas é isso. A gente está se estruturando para conseguir mais, para crescer mais. Acho que faz parte. O rap é um estilo musical novo no Rio de Janeiro. Eu acho que com o tempo a gente vai conseguir mais chegar no sonho de todo o mundo. Que é um sonho meu, dos amigos, de todo o mundo lotar tudo… Porra. Coisa mais linda. A gente espera um dia chegar nisso…. Falando agora nos nomes. Um nome que eu gosto do Rio, muito… Pirâmide Perdida não vale, né? (Risos)

Já não vale! (risos)

É… Queria fazer o jabá aqui mas não vale fazer o jabá! (Risos) Então vamos. Um que a galera já está conhecendo muito, o Choice. Gosto muito. O Sant, o Kayuá… Cara, esse ano de 2017 foram dos caras que eu mais ouvi rimar foram o Sant e o Kayuá juntos. Separados também, mas eles juntos têm uma fusão muito boa. Foi um dos trampos que eu ouvi e eu falei “Mano… muito bom, mesmo!”. Se destacaram brabo, aí, esse ano. Esse ano quer dizer…

Que se têm vindo a destacar…

Isso! Porque parece aquele negócio de lista: “MC que não sei quê lá…” e não tem nada a ver com lista. Tem um amigo – e não estou fazendo jabá porque o moleque é muito brabo, mesmo! – é o Lennon. Deve ter uns dois ou três sons dele na pista… Mas ele é muito bom. O BG que a galera já conhece. Tem o Jota 7, a rapaziada ali da Not Kind, uma banca que tem ali no centro da cidade, é um som muito sujo e muito underground que eu acho muito foda. Tem muita gente, ali no Rio… Tem o Lequinho, quase tinha esquecido do Lequinho. Mano, tem muita gente foda no Rio de Janeiro. Mas a cada hora vai nascendo um e eu ia te falar mais nomes. Se a gente falar na semana que vem já apareceram mais três nomes novos para eu te falar! (Risos)

BK, muito obrigada. Bom trabalho!

Eu é que agradeço. Salve, Portugal! Fé para tudo!

 


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