Bispo: “Estamos a olhar para a frente, mas sem pensar na primeira liga”

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTOS] Mike Ghost

Bispo vai confirmar hoje no Porto, no Hard Club, e no próximo dia 20 em Lisboa, no Estúdio Time Out, porque mereceu a aposta de uma das mais importantes editoras portuguesas – a Sony – e porque tem vindo também a merecer a confiança de um público, manifesta em números expressivos que a sua música logra alcançar nas plataformas de streaming.

Bispoterapia, EP lançado em 2014, e Desde a Origem, álbum de estreia de 2015, foram etapas importantes num percurso que chegou já este ano a Fora D’Horas, novo EP em que continua a contar com apoios de peso, sobretudo o de Fumaxa, homem que lhe assina diversos beats e que o acompanha ao vivo, garantindo segurança na sua retaguarda.

E foi com Fumaxa ao lado que se projectaram estes dois concertos, sem abrir o jogo em relação às surpresas planeadas para ambas as cidades: o público do Porto será o primeiro a desvendar o que tem então Bispo para oferecer!

 


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Vamos começar por falar das duas datas, do Hard Club e do Time Out. O cartaz não abre muito o jogo, mas refere que vão existir alguns convidados. Explica-me se estes concertos vão ser um bocadinho diferentes e como é que os preparaste. 

[Bispo] Ya, estes dois concertos estão a ter um planeamento diferente. Estamos a preparar uma cena mesmo diferente para estas duas datas. Em relação aos convidados, é uma cena que eu não quero revelar. Quero que as pessoas se desloquem até lá para curtir a noite de hip hop e saiam de lá satisfeitas.

Vão ser convidados diferentes no Porto e em Lisboa?

[Bispo] Não vão ser iguais nos dois sítios. Vão existir pessoas que vão fazer as duas, outros que fazem só Porto ou Lisboa.

Como é que é a tua relação com o Porto?

[Bispo] Fogo, é uma relação boa, mesmo. Estejam 50 ou 5 mil, aquilo é uma cena contagiante do início ao fim porque cantam os sons todos. Do início ao fim. Até aquele som que não estás à espera que eles cantem contigo e eles cantam.

Como público, já viste concertos no Hard Club? É um dos templos do hip hop em Portugal…

[Bispo] Ya. pá, eu próprio passei por uma cena… Em 2014, que foi a primeira vez que fui ao Hard Club. 7 de Novembro foi o dia do Ser Humano. Aquela sala cheia… Não, arrepiou-me. Ali, eu vi mesmo a força. Começaram a gritar o meu nome e eu ali vi: “o meu som já está aqui assim desta maneira?” Não estava nada à espera. E todas as vezes que eu já fui ao Hard Club, vi sempre um público incansável, estás a ver? People já sem voz, people a suar. Agora, felizmente, já se encontra noutros sítios. Em 2014, eu não encontrava disso em todos os sítios. Aqui no Sol da Caparica foi dope dope dope.

 

Muito bem. Já percebi que não queres desvendar o que se vai passar em cima do palco. Estás a proteger os teus trunfos. Eu imagino que a tua relação com o palco se tem vindo a solidificar. O que é que tem de diferente? Estamos a fazer esta conversa num estúdio – estás já a preparar material para o teu novo álbum. O que é que é diferente no palco? O que é que tu sentes que acontece no palco e não acontece no estúdio? 

[Bispo] Não sei. É algo que eu não consigo bem explicar… Imagina: Jogas futebol. Estás nos treinos. Estás a ir aos treinos constantemente. Quando é o dia do jogo, é o dia do jogo. É diferente. Eu vejo um bocado as cenas por aí. Encaro as cenas dessas maneira. Eu chego ali e levo aquilo mais a sério. Porque ali estou a pôr em prática o que treinei e aperfeiçoei. Estou a pôr a prática aquilo que estive a fazer…

[Fumaxa] Ele vê logo a reacção do people à mensagem que ele está a transmitir…

Usando essa metáfora, é no palco que se marcam pontos e se ganham campeonatos? 

[Bispo] Ya, é no palco. Exactamente (risos).

E tu sentes que neste momento estás a jogar na primeira divisão?

[Bispo] Não, eu acho que estou só aí… Não estou a pensar na cena das divisões e isso. Eu estou só a treinar o máximo que consigo para fazer bons jogos, para ser chamado à selecção, para representar Portugal, estás a ver?

Estou a dar sempre o meu melhor como estamos agora no estúdio a pensar nas cenas do próximo ano. Estamos a olhar para a frente, mas sem pensar na primeira liga. A ver a cena dessa maneira.

Gramava que vocês os dois me dissessem uma coisa sobre o outro. O que é que ninguém sabe do Fumaxa que tu me podes contar? 

(Risos no estúdio)

O que é que podes revelar? Uma coisa que mostre a personalidade dele, a relação que tu tens com ele. Porque deu para perceber em palco – eu vi isso na Caparica – que há uma cumplicidade enorme entre vocês.

[Bispo] Ya, ya. Pá, assim uma cena muito rápida que me veio à cabeça, sem pensar muito. Pá, quando disserem que o Fumaxa está a dormir é mentira. Ele só está a descansar mesmo. Só fechou os olhos, mas está acordado. Ele nunca está a dormir.

Está sempre a meditar…

[Bispo] Se algum dia me virem a conduzir com o Fumaxa ao meu lado com os olhos fechados, podem ter a certeza que ele está a meditar. Não está a dormir, está a descansar.

(Risos no estúdio)

 


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Muito bom. Exactamente esse tipo de coisa. E tu, Fumaxa? O que é que podes contar do Bispo? 

[Fumaxa] No dia que virem o Bispo sem o carregador, quer dizer que alguma coisa está muito mal…

Vocês já estão aqui, no Big Bit, a preparar material para 2018, é isso? É material para um álbum? É nisso que tu estás a trabalhar? 

[Bispo] É nisso que estou focado agora. Estamos também aqui a trabalhar em prol disso. No meu segundo álbum, para 2018.

O que é que sentes que mudou? Pressão em cima dos ombros? O que é que as pessoas vão poder esperar em 2018?

[Bispo] Estou mais exigente. Estou a exigir mais de mim próprio. Também acho que é normal, mas estou a pensar mais nas cenas agora.

Mais exigente com a tua escrita e com a entrega?

[Bispo] Com a minha escrita também. Eu entrego-me sempre a 200%, mas agora sinto que já exploro outras cenas que não explorava antes. Se tu ouvires os primeiros projectos, raramente me ouvias num refrão ou quando me ouvias era de maneiras… No Desde a Origem já foi possível ouvir Bispo no refrão. E foi uma evolução. E agora também estou a aperfeiçoar ali cenas que vou explorar mais.

Em termos de escrita, sentes que estás a abordar coisas que nunca abordaste antes? Estás a explorar caminhos que já conheces bem?

[Bispo] Aquilo que eu posso dizer sobre o meu próximo projecto é que quem ouvir vai dizer, “ya, este é o Bispo”. Outras pessoas vão dizer, “aí, grande cena, o Bispo viveu isto ou alguém perto do Bispo viveu isto.”

Acho que o que as pessoas podem esperar do meu próximo trabalho é: vão conhecer mais um bocado de mim. Mais um pedaço de 2725, mais um pedaço do que se passou de 2016 para cá.

O que é que tu estás a trazer para o estúdio? O que é que te está a inspirar em termos do que se está a fazer lá fora? Quais são aqueles sons que tu tens ouvido que tu dizes, “bem, tenho que ir para o estúdio fazer algo porque isto bateu-me, inspirou-me ou picou-me”. 

[Bispo] Há sons lixados. Tem um do Dave East. Muito forte. “Wanna Be Me”. Jesus, esse dread é muito chateado. É muito pesado. Dave East. Quero ver o gajo ao vivo. Quando tiver oportunidade, quero vê-lo ao vivo.

Um gajo ouve esse som… A primeira vez que ouvi disse logo ao Fumaxa, “mete lá aquele som!” É aquele som que tu queres ouvir mais vezes. Dei-te esse exemplo, mas existem mais.

Como é que foi o processo de escolha de produções? Já está fechado? Continua em aberto? Com quem é que sabes já que vais trabalhar, para além do Fumaxa?

[Bispo] Não está fechado.Vou trabalhar com o Fumaxa, vou trabalhar com um tropa meu que me acompanhou na estrada muito tempo, que já foi meu técnico de som: Migz. Também vai estar a produzir no meu álbum. O Holly já temos falado, trocado ideias…

A mandar beats da Austrália…

[Bispo] Ya, fogo. Respect

Por exemplo, no Bispoterapia tens só o Intakto a produzir, no Fora D’Horas tens só o Fumaxa a produzir. No Desde a Origem tens 3 beats do Sam, 4 do Holly, 1 do Fumaxa, 1 do GI Joe, 2 do Spliff, 1 do Lhast.

 


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E para este? Como é que vai ser? Vai ser assim variado, não é…

[Bispo] Exacto. Não quero só seguir uma linha. Não estou a seguir só um caminho. Um beat que eu adoro… Não quero saber como é que vou…

[Fumaxa] Porque eu acho que o mais importante no final de tudo é o resultado final. Eu acho que beber um pouco de vários producers – cada producer tem a sua influência, tem o seu estilo, tem a sua maneira, cada um tem a sua vibe. Eu acho que se nós conseguirmos conjugar tudo, podemos fazer algo bom, como fizemos no Desde a Origem.

Sobre os teus beats neste disco, há alguma novidade? Estás a explorar algum terreno novo?

[Bispo] Estou, mas quando sair as pessoas ouvem…

Sempre de jogo fechadinho. Só mais uma coisa: já há uma data? Primavera, Verão?

[Fumaxa] Datas é uma cena que acho que limita o teu trabalho. Eu acho que quando a cena tiver, está e sai. Datas acho que limitam.

[Bispo] Ya, eu defini 2018. Também não defini 2018 sozinho e isso é a data que tenho na minha cabeça.

Não vais especificar meses…

[Bispo] Não vou. Vou trabalhar. Já comecei a trabalhar. Já tinha começado a trabalhar antes porque a escrita é uma cena que eu faço mais regularmente. Não preciso de ter um beat certo. Às vezes estou a escrever por cima de um beat antigo, às vezes estou a escrever por cima de um som. Também sem som nenhum.

Tu dirias que quando o processo terminar terás quantos temas gravados? Antes de escolheres os melhores. Serão o quê? Uns 30? 

[Bispo] No Desde Origem são 13 faixas – uma está escondida – e eu gravei 30.

O foco é mesmo esse. Acho que até lançar o Fora D’Horas vivemos várias coisas – juntos, eu a solo. E, entre o Fora D’Horas e este tempo que estou a vir gravar, também vivi bué de cenas e isso influencia a minha abordagem no estúdio. Venho-me entregar mais porque no fundo é aqui que um gajo vem despejar as cenas.

Escreves muito no estúdio ou já vem tudo escrito de casa? 

[Fumaxa] Ele gosta de escrever no estúdio. Ele tem uma panca: chega ao estúdio, liga o microfone e começa a escrever. Bué!

[Bispo] Ya. Curto vir para aqui fazer os refrões. Estou a ouvir e as colunas dão um som mesmo forte. Posso estar à vontade. É fixe. É uma relação que eu ganho com o próprio som. Com o próprio beat. Tipo, eu adoro fazer isso. Por exemplo, vou ao Spliff e trago um beat. Meto o beat a rolar… Por acaso agora estou a dar um exemplo mau porque quando trabalhei com o Spliff ele fez o beat e eu comecei logo a escrever. Era só para te dar o exemplo. Vou para casa e estou com o beat. Estou a arrumar o quarto e estou a ouvi-lo. Vou tomar banho e vou-me vestir: estou a ouvi-lo. Às tantas já sinto que estou a namorar com o beat. Que já estou a imaginar cenas. Eu próprio já estou a improvisar. Dantes não acontecia, mas já estou a dar um refrão. Antes procurava logo a rima… Se viesse uma ideia do refrão, ficava aqui dentro (risos).

 


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