Amaral // Últimos Dias

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[TEXTO] Moisés Regalado

Depois de levantar o véu com “Não Dá”, Amaral disponibilizou finalmente o seu EP de estreia. Últimos Dias divide-se por um alinhamento de 4 faixas, sobressaindo desde logo a lista de produtores: whølelife, sleep在patterns (também conhecido como Taser), Here’s Johnny e Stone Jones, membros dos saudosos Show No Love. Ouvidos os instrumentais, torna-se interessante constatar que o tema de Here’s Johnny se afasta da sonoridade que o elevou ao estatuto de intocável no panorama actual, sobretudo para aqueles que acompanham o seu trabalho há pouco tempo.

É precisamente nos beats vindos da Superbad que Amaral Jones se parece sentir mais à vontade para rimar. Antes disso, apresenta-se numa produção de whølelife (“Menor Dos Meus Problemas”) que embala o ouvinte e na qual o rapper partilha algumas ideias que servem de base para o resto do EP. Apenas “Amei de Mais” parece destoar, não só devido à temática mais sentimental, mas principalmente porque isso parece ter prejudicado a entrega do MC, aqui num tom que foge à generalidade do seu rap e que ainda pode ser limado.

O flow de Amaral tem o ADN da Linha da Azambuja, zona com características que a demarcam de tantas outras e influente como poucas, principalmente desde as Kara Davis de Regula. Em “Hora e Meia” ouve-se algumas das linhas mais representativas da métrica em questão:

“Deixa-me
Recordar enquanto puxo
Um bafo desta green kush
T-shirt por cima do capuz
Girar sem pensar no custo
Pede um euro a um tropa
Agora ele chora tipo que ‘tá a dar à luz
Gangs que antes eram crews”

E “Não Dá”:

“Meu tropa ‘tá em Vale de Judeus a chillar no pátio
Tenho um nigga em Monsanto que aguenta e não é fácil
Meu nigga ‘tá em Pinheiro de Cruz a chillar no táctil
Outro ‘tá no EPL, nas barras e no cardio

O quotidiano dos que vivem à sua volta, ou dos que não se encontram perto pelos piores motivos, é temática recorrente. E, apesar de abordar o microfone com a postura de quem trata o egotrip por tu, Amaral Jones apresenta-se como um observador.

Depois de uma estreia em que tentou abrir horizontes sem perder identidade, não há como adivinhar o caminho que irá seguir o rapper. Mas, caso mantenha e melhore os aspectos essenciais do seu rap, é fácil prever que Amaral Jones terá algo a dizer no seio do hip hop português — a menos que não tenha qualquer tipo de ambição nesse sentido. E que aspectos essenciais são esses? A entrega de quem tem uma boa escola de flow e métrica, o equilíbrio entre técnica e temática e, não menos importante, o bom gosto no que toca aos instrumentais. Últimos Dias? Ainda parece que vamos a meio, Amaral…

 


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