Actress // AZD

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[TEXTO] Nuno Afonso 

Quase uma década volvida desde a edição de Hazyville, Actress soube atravessar a sua época com luxúria e destreza. Cunhou um sonoridade peculiar, mas sem nunca deixar de lado a sua veia exploratória que afinal o define como um dos produtores mais essenciais da electrónica actual. AZD é o novo álbum que coloca a matéria à superfície, trazendo aquele que é um dos seus melhores registos até à data. Simplesmente inebriante e intrigante como só Actress sabe ser.

Nos mundos paralelos do produtor britânico, AZD é um sonho real pela esfera das cores e formas. Cores e formas híbridas, multi-dimensionais e cujas origens são tão díspares quanto harmoniosas. Depois de um aplaudido R.I.P, que o levou a outros públicos e latitudes, o jogo foi baralhado uma vez mais por Darren Cunningham. Ghettovile distinguiu-se pela ausência de construções rítmicas e a total entrega a uma cenário pós-Actress, rodeado de poeira cósmica e ruído de estática, provocando especulação em relação aos exercícios futuros. Nesse aspecto, AZD restitui o pulsar alienígena de outros tempos. Há esboços de monumentos techno, desconstrução house em câmara lenta e estados hipnagógicos onde névoa espessa da THC se funde com o fumo esguio do incenso oriental. A música de Actress afinal sempre foi mais do que estava materialmente diante de nós – senão como uma interpretação pessoal, dada a um genuíno escapismo.

“Untitled 7” surge, após uma breve introdução, como uma memória difusa e distante (tão ao gosto do artista). Ácido e melancólico, entre o rasto de uma noite de abusos e uma manhã de lamentos, há sempre um granulado a pairar estas imagens, deixando tudo em suspenso. O seguinte “Fantasynth” devolve aquele batimento bass impossível de não se conectar com a diversidade de elementos que flutuam por aqui em estado líquido cristalino. Não parece de todo almejar outro efeito para além do maior de todos os efeitos: o transe. Estelar, “Blue Window” traz uma toada atmosférica, algo ancestral, próximo do mesmo planeta de um Jamal Moss aka Hieroglyphic Being.

 



Quanto ao brilhante single “X22RME” (lê-se Extreme), parece estar realmente tudo no lugar errado, mas capaz de criar de um fluxo crescente, sólido e que surpreende até ao segundo final, já com um diálogo captado numa rua ou num canal do YouTube. Actress soa familiar e exótico, até em proporções semelhantes, porém incompleto e vago – e este resultado com o que de mais fascinante existe. Por outras palavras, é esse espaço lacónico, de terra de ninguém, aparentemente infértil, que propositadamente deixa para nós, ouvintes e também actores e actrizes deste teatro sci-fi.

Na segunda parte de AZD, sente-se a herança de Chicago via “Runner”, talvez o tema mais orientado a pista de dança. Não acrescenta algo de inovador (podendo até ser uma composição perdida ou esquecida de Splazch, de 2010), embora seja uma arma infalível seja em que tempo for. Já “Falling Rizzlas” é a típica produção de quarto, rarefeita e melancólica, como quem esperar pelos primeiros raios de sol num Outono rigoroso. Com “Dancing in the Smoke” e “Faure in Chrome” expõe, quiçá melhor que nunca, o seu entendimento fragmentário da música. De resto, abundam intersecções de melodias rasuradas ou cascadas rítmicas dispostas em transversalidade. Cada átomo comunica entre si, provocando uma reacção, isolada ou em cadeia. AZD é assim pura química.

Da cinematografia de “There’s an Angel In the Shower” ao arco-íris caleidoscópico de “VISA”, conta-se todo um universo de domínio e ousadia de Actress. A consciência do conceito de afro-futurismo é uma força constante que atravessa o disco ao mesmo tempo que o guia e o faz perder-se para se reencontrar noutros cenários. Povoado e maravilhado pelas possibilidades, trata-se pois de um casamento perfeito entre techno e física quântica, um sonho molhado para muitos.

Caótico e humano do ponto de vista emocional, AZD é um objecto que seduz e questiona. Arte em estado sonoro, habitada no seu tempo – e também fora dele – em que toma a cabine de DJ como se de uma galeria se tratasse. Esta é uma exposição permanente que merece múltiplas visitas e postal de recordação. Uma das grandes felicidades deste 2017.

 


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