Ace: “Percebo que o público de rap actual não se identifique com muitas coisas que digo”

[ENTREVISTA] Ricardo Farinha [FOTOS/VÍDEO] Sebastião Santana

É um dos rappers e produtores portugueses mais antigos no activo. Depois do fim dos Mind da Gap, Ace lançou recentemente o segundo álbum da carreira a solo, Marlon Brando. Em nova missão no Porto, o Rimas e Batidas encontrou-se com Nuno Carneiro na Kate Skateshop — um espaço que em tempos foi uma alfaiataria do avô de Ace. Falámos sobre o novo trabalho, o fim dos Mind da Gap e a questão da idade como um posto, sem nunca esquecer que ainda há muito futuro na carreira deste Ás do rap e da música portuguesa.

 



Há quatro meses, neste mesmo sítio, entrevistámos o Fuse, que acabava de lançar Caixa de Pandora. Ele dizia-nos que nunca esperava lançar um disco de hip hop aos 40 anos. Tu acabaste de fazer 44. Como te sentes em relação a lançares este disco de hip hop nesta fase da tua vida? Era algo que não esperavas, como o Fuse, ou tinhas uma perspectiva diferente?

Não diria que é outra perspectiva completamente diferente, se aos 25 anos me perguntasses se eu ia ser rapper aos 44 se calhar respondia-te que não. Ao mesmo tempo, sinto-me um jovem. Sei que é um bocado cliché dizer que a juventude é uma atitude, mas concordo mesmo. Porque tenho uma vaga memória do meu pai com quarentas e era um cidadão exemplar, respeitável, o que não é o meu caso [risos]. Se calhar, se me perguntares se me imagino a fazer rap com 50 anos, vou-te dizer que não. Mas sei que, provavelmente, com 50 anos, vou continuar a gostar de rap como gosto hoje e posso não estar a contar com ele como o meu meio de subsistência, mas provavelmente vou fazer rap até morrer. É uma coisa que me é inerente, sinto necessidade desse exercício da escrita, fazer beats, rimar, desafiar a mim próprio criativamente. Claro que posso encontrar outros outlets para fazer isso, mas por enquanto sinto-me bem a ser rapper.

Passaram vários anos até editares este álbum, desde que lançaste IntensaMente em 2003. Porque demorou tanto tempo? Teve a ver com o trabalho nos Mind da Gap e nos CRU, além de outros projectos?

Neste intervalo de tempo trabalhei algumas vezes em álbuns. Numa das vezes cheguei a ter um disco pronto. Estava a produzir um álbum do Maze que seria o de estreia dele, e o meu, ao mesmo tempo. Já tínhamos os álbuns gravados, estávamos em fases finais de mistura, e eu tive um acidente com o computador e perdi os dois álbuns. Depois, sinto necessidade de fazer um álbum, ou seja, de, mentalmente, saber que não estou só a fazer músicas soltas. Mas muitas vezes chego ao fim e ‘meh’. ‘Afinal foi fixe para andar entretido este tempo mas acho que não tem qualidade suficiente’ ou tenho coisas que não tenho assim tanta vontade de mostrar às pessoas. E é óbvio que o trabalho com os Mind da Gap foi-me ‘roubando’ algumas oportunidades, por coincidência ou não. E eu só uso esta expressão porque é mais ou menos vulgar, mas não acredito em coincidências. Sempre que eu me resolvia a começar a trabalhar num álbum, no ensaio a seguir de Mind da Gap decidíamos que era a altura de voltar a trabalhar num disco. E sendo eu parte de um grupo, dei sempre primazia ao trabalho em grupo. Porque enquanto estiver a trabalhar sozinho, sou a única pessoa que se alimenta desse trabalho. A todos os níveis, inclusive o mais material e palpável: comida, dinheiro para sobreviver. E isso não me parecia justo. Estaria a roubar, digamos assim, o pão da mesa. E isso foi uma questão com a qual sempre tive cuidado, apesar da ideia que as pessoas têm da minha persona. Eu sou um team player.

E como é que funcionava quando estavas a trabalhar nos Mind da Gap e ao mesmo tempo a fazeres coisas tuas… tinhas rimas que se calhar tinhas escrito a pensar em coisas para ti e depois podiam ser passadas para os Mind da Gap? Ou as coisas estavam separadas?

Algumas. Nessas alturas havia letras que eu acabava por sugerir para se usarem em Mind da Gap. Mas há coisas que sentia e sinto que são Ace. Apesar de ser curioso, nesses casos em que digo que são coisas do Ace, as pessoas ouvem e dizem ‘isto soa a Mind da Gap’. Ao mesmo tempo, é um orgulho perceber isso. Conseguia perceber mais ou menos que temas é que encaixariam nos Mind da Gap e que temas é que eu tinha de abordar sozinho. Por uma questão de partilha, tinha sempre de partilhar as letras com o Presto, por isso tinham de ser assuntos de que o Presto se sentisse bem a falar. E ao mesmo tempo que o Serial concordasse, apesar de ele nunca se ter manifestado muito sobre os temas.

 



Dizes que pensas bastante nos álbuns na tua cabeça, mas, numa primeira fase, tinhas anunciado que iria sair uma mixtape. Depois acabou por sair este álbum, e já tinhas dito que não tinha um grande conceito.

A primeira vez que falei na mixtape foi na entrevista com o Sam The Kid na TV Chelas. E, nessa altura, os Mind da Gap tinham uma espécie de acordo de cavalheiros em que tínhamos decidido separar-nos por uns tempos. As coisas não estavam a funcionar, a nível praticamente nenhum. Nem criativo nem pessoal. E resolvemos separar-nos e darmos um tempo como se faz nas relações amorosas. E estávamos mais ou menos combinados que, quando sentíssemos vontade de nos juntarmos para fazer música outra vez, isso iria acontecer. Nessa altura, quando dei a entrevista ao Sam The Kid, era esta a sintonia. Já sabia que ia ser Marlon Brando, já tinha a ideia do nome, seria só uma reunião de músicas que entretanto não aconteceram, destes discos que comecei a fazer e depois ‘meh’. Isso seria a mixtape. Entretanto aconteceu o episódio do qual as pessoas estão ao corrente, com o Serial. E os Mind da Gap acabaram. A partir do momento em que os Mind da Gap acabaram, é aquela história de fecha-se uma porta, abres uma janela. Algumas das músicas que ia reciclar pus de lado, e comecei a entusiasmar-me mais com a ideia de ‘ok, isto pode ser uma coisa mais séria’. Até porque a definição do que é uma mixtape e do que é um álbum diluiu-se um bocado nos dias de hoje. Só o facto de se chamar mixtape e já nem ser uma cassete faz alguma confusão [risos]… a partir daí a minha sintonia passou a ser diferente. E todos os beats que fui fazendo — e faço diariamente, às vezes mais do que um — e me entusiasmavam, eu escrevia logo. Portanto, acabou por ser um álbum porque não tem só músicas recicladas, elas acabaram por ser em menor número do que as novas.

Que reacções tens tido das pessoas?

Basicamente é das pessoas que compraram o álbum. Por estranho que pareça, o disco é uma edição da Cultura Fnac mas ainda não está disponível nas lojas Fnac. Portanto, o álbum foi lançado, mas um bocado em abstracto. O momento a partir do qual eu decidi que foi o lançamento do álbum foi quando recebi as caixas com os CD. Não houve nenhum evento nem acontecimento especial. Acho que há muita gente que nem sequer se apercebeu de que o Ace lançou um álbum. Não tenho tido muito feedback. As pessoas que o compraram até agora manifestaram-se positivamente. Se calhar tenho de pensar que as que não se manifestaram foi para não dizerem mal [risos]. Também acho que, ao fim de 24 anos, apesar de gostar sempre de ouvir palavras bonitas em relação ao trabalho que faço, já ganhei um bocado de calo. Já não é uma coisa que me tire o sono. Mas gosto de que as pessoas sejam honestas comigo, seja para falar bem ou mal. Gosto muito de ouvir dizer as pessoas que as minhas músicas as tenham ajudado num momento da vida, é uma coisa que para mim é realmente importante. Mas tenho vendido bem o CD por encomenda.

E planeias fazer concertos de apresentação do álbum?

Isso ainda não aconteceu porque como acho que as pessoas ainda não se aperceberam de que tenho um álbum, não era muito inteligente ou produtivo… aliás, podia funcionar ao contrário. Estar a marcar um concerto numa sala qualquer do Porto e depois aquilo estar vazio porque as pessoas não conhecem as músicas, não ouvem as músicas a rodar. Prefiro esperar para depois do vídeo de “Só Vives uma X” sair e tentar criar algum burburinho à volta disso.

Estávamos a falar do processo de construção deste disco, a mixtape que se tornou num álbum… o sucesso que o single “Amor pela Vida” teve na Antena 3 durante o ano passado foi decisivo para que tivesses a vontade de fazer o disco?

Foi por esta altura que o lancei. Teve um mês no top da Antena 3 de votação do público. Não teve importância no sentido de ‘o meu single está a bater, afinal ainda posso lançar um álbum’, mas em termos daquilo que é a minha autoconfiança em termos criativos, se calhar sim. Porque fiz esta música, gostei dela, foi pela altura em que os Mind da Gap combinaram separar-se, estava assim… numa onda negativa. Tinha razão para estar zangado com algumas coisas. E o facto de ter conseguido fazer uma música no oposto dessa perspectiva fez-me bem. E fez-me perceber quase uma cena de vida, que tu escolhes aquilo que queres, não precisas de estar zangado porque alguém te deu motivos para isso. Podes escolher dar a volta ao assunto e teres uma atitude positiva. E essa música foi imbuída desse espírito, de uma experiência recente para mim que é a paternidade, que me trouxe uma nova perspectiva sobre a vida. Consigo não ser o Ace de antigamente, de ser muito reactivo e de quase andar à procura de motivos para estar zangado para escrever.

 


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Falávamos da tua maturidade enquanto pessoa e MC, porque és um dos rappers portugueses mais antigos no activo. Essa maturidade e idade fazem-te pensar na relevância do teu legado e carreira, essa é uma questão para ti, ou não é importante? Achas que deverias ter mais reconhecimento ou estabilidade artística ou financeira?

Eu acho que merecia uma posição na vida, financeiramente, materialmente, em termos de reputação, se quiseres, mais acima. Ao mesmo tempo, não consigo deixar de pensar que quando comecei a apaixonar-me pela música, e muito antes do rap, eu não ouvia velhotes. Enquanto puto sentia-me mais aproximado das bandas mais jovens, porque há aquela questão do generation gap e de passares a tua adolescência a rebelar-te contra aquilo que é o que os teus pais te querem incutir. Portanto, percebo que o público de rap de hoje em dia, que é muito jovem, não se identifique com a maior parte das coisas que digo ou não as perceba sequer, porque é uma perspectiva diferente sobre a vida. Percebo isso completamente. Não tenho qualquer coisa de ‘eu sou o maior e eu é que tenho coisas para ensinar a estes putos, que só ouvem porcaria’, não consigo ser assim. Se me perguntares se acho que tudo o que os putos ouvem hoje em dia tem qualidade, não. Há muita coisa feita por putos ou não putos que é uma porcaria e que para mim é lixo. E, no fundo, é estar a ocupar a cabeça da juventude inutilmente. Mas há uma série de coisas que só aprendi com 30 e tal anos. Se os putos tiverem de esperar pelos 30 anos para perceberem que muitas das músicas que ouvem não têm qualidade, é o processo de vida de cada um. Se acho que, ao mesmo tempo, há pessoas que representam mais ou menos aquilo que eu representei ou que tenho vindo a representar na história do rap e que estão melhor, sim. E se calhar devia estar na posição deles. Mas isso já envolve outras coisas: os amigos que essas pessoas têm, as ligações com opinion makers na indústria, os contactos com pessoas de editoras ou promotoras, e o sítio onde vivem também é importante. Mas não me sinto totalmente injustiçado. Não faço aquela coisa do ‘coitadinho de mim, que ninguém me liga e eu andei aí a abrir portas’. Eu acho que quem tem de saber que andei a abrir portas sabe. Quem acho que tem de sentir isso acho que sente. Basicamente, se acho que merecia uma posição melhor na vida e no pódio do rap? Completamente. Ao mesmo tempo, acho que não fiz o suficiente, em alturas que podia ter facilitado… mas não olho para trás com arrependimento de nada. Olho para trás e se calhar naquela altura não precisava de ter sido tão panfletário e estar tão agarrado aos meus princípios e podia ter um bocadinho mais de jogo de anca e as coisas tinham corrido melhor. Se calhar tinha mais possibilidades de dar prendas à minha filha todos os dias. Mas acho que, quando a minha filha crescer e perceber o que a vida é, vai ter orgulho no pai.

Não querendo ser deselegante, mas abordando o inevitável assunto do fim dos Mind da Gap, como te sentes agora em relação a isso? Não houve nenhuma mudança desde então ou perspectiva de futuro?

Não. Sinto-me perfeitamente em paz. Para não estar aqui a falar em nomes e a individualizar a questão, porque gosto de me considerar uma pessoa com classe, quem ler ou ouvir isto vai perceber de quem estou a falar. A amizade que tinha de continuar a reservar nos Mind da Gap continuo a reservar. As que eu tinha de deixar para trás, deixei. E estou perfeitamente tranquilo com isso. Os Mind da Gap não me faziam bem. Estou a falar por mim, mas tenho a certeza de que era um sentimento geral. O ir ensaiar, estar a tentar fazer música nova, as discussões que surgiam de cada vez que se começava a trabalhar numa música, as implicações que as coisas que se diziam nessas discussões depois tinham a níveis mais profundos… não me davam paz. E há uma coisa que muda na vida de um homem, pelo menos com H grande. A partir do momento em que és pai, e mais nada importa. [Apenas] o que tens de ser para aquele ser pelo qual és responsável. A partir do momento em que percebi que estava sempre mal disposto em casa, respondia torto a pessoas que não mereciam, não tinha disponibilidade mental para estar bem com a minha filha… foi quando achei que devíamos dar um tempo uns aos outros. E depois aconteceu esse episódio com o Serial, daquele post, que ainda hoje estou para lá de compreender. Mas para mim foi uma espécie de flash. ‘Ok, eu ando aqui a tentar dar uma oportunidade a uma coisa que se calhar não tenho que dar oportunidade’. E eu não gosto de desistir de nada. Sou aquele gajo que estupidamente não desiste das coisas. Esse post fez-me ver que há coisas das quais tens de desistir. E que não é positivo para ti nem para as outras pessoas continuares a insistir naquilo. Uma relação emocional, quando não tem mais nada para dar, não é boa para nenhuma das pessoas… e acho que foi isso que aconteceu com os Mind da Gap. Chegámos a um ponto onde não dava mais. E esse post, para mim, por muito que tenham sido só duas palavras… foi depois a atitude dessa pessoa para com o público dele, para com as pessoas que queriam saber o que tinha acontecido, a forma como resolveu depois, também através do Facebook, a questão, de dizer que estávamos no abismo e que tínhamos sido empurrados… toda essa situação foi um wake up call. Porque é que eu estou aqui a dar uma oportunidade a uma coisa que se calhar não tem mais forma de existir? E, a ter, seria um arrastar de um processo de queda e decadência e, no fundo, para mim, de quase auto-destruição psico-emocional. Não, acabou. Siga. A maneira como as coisas acabaram foi absolutamente ridícula, foi do parvo para cima, ou para baixo. Sinto-me mal com isso. Gostava que os Mind da Gap tivessem acabado com um acordo entre todos, que não foi o que aconteceu. Aquele post é só da responsabilidade da pessoa que o fez. Gostava que pudéssemos ter acabado de outra forma, de te estar a dar esta resposta com outro texto. E de saber que não havia ressentimentos e que se fosse preciso para a semana íamos tomar um café todos juntos e falar da vida. Que tínhamos acabado musicalmente mas que tinha ficado alguma coisa dos 20 e muitos anos que passámos juntos. Infelizmente, a realidade não é essa.

 



O single “Por Aí”, o último tema que lançaram, era para ser o avanço de um álbum ou uma faixa solta?

Era de um álbum. Nós estávamos a fazê-lo e já teríamos para aí dez músicas prontas. Uma das quais era uma música à Mind da Gap, à antiga. Suscitou interesse de uma editora e tudo, que nos queria contratar. E o “Por Aí” acabou por ser um dos motivos pelas quais as coisas começaram a não fluir muito bem. Porque tínhamos chegado a um acordo em que havia uma música que íamos lançar. E, mais uma vez, para não individualizar, alguém decidiu que não era essa música que tínhamos combinado e que era o “Por Aí”. O “Por Aí” é que era o grande single dos Mind Da Gap e que era a grande cena, e quem tivesse uma opinião contrária não percebia nada de música e não estava a par das coisas modernas. Continuo a achar que o single que devíamos ter lançado era o tal… ou não, porque as coisas teriam sido diferentes, provavelmente. Os Mind da Gap se calhar não tinham acabado, estávamos aqui a falar os três, a dar uma entrevista ao Rimas e Batidas. E se os Mind da Gap não tivessem acabado nós íamos continuar a não estar bem. Olhando para trás, se calhar a pessoa que decidiu que o “Por Aí” fosse o single escolheu bem. Não escolheu a saída mais positiva, mas se calhar escolheu bem. E sempre fui contra, sempre achei que era completamente ridículo escolher o “Por Aí” como single, porque é uma música de álbum, para mim. Depois de ouvires algumas músicas que são aquilo que os Mind da Gap sempre fizeram bem, ouves a música oito, nove ou dez. E essa é o “Por Aí”, uma música fixe. Não me envergonho. Mas como single de avanço… os Mind da Gap não lançam nada há três anos e é isto que queremos mostrar? Tiro no pé.

Deixando o passado e regressando ao futuro, gostavas de fazer projectos como aquele disco colaborativo com os Roger Plexico? Ou gostaste deste momento solitário de criares o teu disco em que fizeste tudo? Foste totalmente autossuficiente.

Gosto muito desse exercício de autos-suficiência. Há coisas em que não sinto propriamente uma necessidade de ser, no caso do design gráfico ou da mistura e masterização. Gostava de poder pagar a alguém para fazer esse trabalho. Mas não gosto de cravar borlas. E na minha situação não estou em posição de poder pagar às pessoas. A escolha de eu fazer tudo… o IntensaMente foi mesmo um desafio que pus a mim próprio. ‘Ok, eu quero fazer tudo. Quero mostrar a toda a gente, e em primeiro lugar a mim próprio, que faço tudo. A animação para o primeiro vídeo, a capa, as misturas, gravei, fiz tudo sozinho porque queria. [Agora] gostava de ter tido outras pessoas a trabalhar pelo imput exterior que isso podia ter sobre o meu trabalho. Mas gosto muito do exercício de trabalhar sozinho. Para já, sou muito eremita. Sou gajo de estar constantemente fechado em casa, não tenho Playstation, não tenho nenhum hobbie que me ocupe muito tempo, gosto de fazer muitas coisas relacionadas com arte, além de passar tempo com a minha filha. E gosto disso. Do meu passatempo ser a mesma coisa que a minha ocupação. Imagino que o meu próximo álbum a solo, mesmo que os beats sejam todos feitos por mim, ou os samples sacados por mim, e que eu escreva as letras por cima de um beat que, vamos supor, tenha 89 BPMs, seja eu a pegar naquele beat e pedir-lhes — por exemplo, aos Roger Plexico — ‘tens este beat, este BPM, preciso que seja este porque já escrevi uma letra, mas queria que pegasses nisto e desses a tua perspectiva’. Estou seriamente inclinado a que o meu próximo álbum seja assim. E ter participações, porque é uma coisa que acabo por não ter porque estou tão focado na cave a escrever que acabo por me entusiasmar. Quando dou por ela já não tenho espaço. [Quero] não me deixar levar tanto pelo entusiasmo do exercício criativo e pensar antes de começar a fazer ‘ok, esta música é isto, este beat é isto, o tema pode ser este’, quem é que eu acho que ficava bem aqui. Não é ser um álbum à americana que tenha um featuring em cada música, mas tentar cruzar mais a minha energia com outras pessoas. Estou aberto a esse tipo de sugestões de projectos como o que fiz com os Roger Plexico. Mas também me sinto… quase qualquer pessoa com que pudesse partilhar um projecto seria mais nova do que eu. Fico sempre a achar que as pessoas vão pensar que sou eu a querer passar por mais jovem e estar na berra, tenho algum receio desse tipo de interpretação. Na minha cabeça, comercialmente — ou seja, lançar um álbum, vendê-lo e como rapper — gostava de fazer mais um álbum a solo. Seria o álbum em que vou trabalhar com tempo, explorar as ideias ao máximo. E depois, se a minha vida me permitir, continuar a lançar álbuns de rap, mas sem ter a pressão da subsistência, que é terrível, com a minha idade,  ainda precisares de lançares discos…  Sei o que gosto e o que me sinto bem a fazer e tenho a noção de que não é muito característico. Sempre achei que o rap não é uni-dimensional, não tem que ser só a bandeira dos oprimidos e do pessoal do gueto… pode ser música para dançar, de amor, mais espirituais. E hoje em dia há rap de tudo: rap-techno, gótico, cristão, budista… e sei que sou um conglomerado de várias dimensões e gosto disso. Tenho muitos beats, para aí uma pasta com 80, para esse álbum. Mas não comecei a escrever nada.

 



E alguma vez consideraste no futuro, e fazendo um paralelismo com o NBC, por exemplo, que optou por fazer um álbum mais cantado, e tens experimentado isso ao longo da carreira nos refrões e nos CRU, fazeres um disco desse género?

Sim, os CRU são isso… Na minha cabeça, acabam por ser a minha reforma. Imagino-me mais no futuro a cantar, apesar de, no caso do NBC, a ideia que eu tenho é que continua mais próximo de uma sonoridade hip hop, e os CRU não têm essa pretensão. Mas claro que ouves as músicas de CRU e percebes que o Nuno Carneiro — nos CRU não sou o Ace, gosto de fazer essa separação —, é o Ace.

Por isso é que um álbum teu mais cantado não seria como Ace, mas sim um trabalho dos CRU…

Eu tenho ideias para fazer várias coisas. Da mesma forma que tenho os CRU, que é uma coisa que não tem nada a ver com hip hop, guardo aqui na minha cabeça um espaçozinho para fazer uma coisa de mim a cantar mas mais próximo disso que o NBC faz. Se calhar até mais próximo do hiphop. Com beats produzidos na MPC. Fazer um álbum que seja cantado — um álbum de R&B, vamos chamar as coisas pelos nomes. Mas não sei quando ou se vai acontecer. É engraçado porque, não querendo insultar o Fernando Pessoa ou querendo comparar-me com a grandiosidade da pessoa que para mim é o maior poeta português de todo o sempre… eu, como sebastianista como o Fernando Pessoa, gosto de pensar que na minha cabeça tenho várias vontades criativas. Todas elas estão mais ou menos separadas, apesar de, para quem está de fora, se calhar não haver muita separação. Há o Ace que é o rapper, que faz rap e canta uns refrões de vez em quando. Há o Nuno Carneiro que é o gajo dos CRU, que é o pai da Inês, o chefe de família, que mora e cresceu em Gaia, apaixonado pela cidade, pelo Porto, pelo Norte…

E o músico que iria fazer um disco de R&B com beats de hip hop seria o Ace ou o Nuno Carneiro? Ou seria ainda outra coisa?

Será um Ace Carneiro… não sei, lá está [risos]. Em termos de nomes depois é complicado. Mas em termos de sub-compartimentos criativos as coisas estão separadas. Mas agora fizeste uma pergunta que não deixa de ser pertinente. Se eu lançar esse álbum de R&B, acho que vou ter de inventar outro nome… é curioso, porque tenho esta cena — e por isso é que falei no Fernando Pessoa…

Dos heterónimos…

Às vezes crio projectos porque me lembro de um nome engraçado. Tenho uma ideia para um nome engraçado ‘vou ter de fazer uma cena qualquer com este nome’. Os meus beats eram Ace Produktionz. Como gosto de cozinhar e dou uns toques meios gourmet na comida que faço — lembrei-me [também] de Gourmet Beatz. O pessoal costuma dizer ‘estou aqui a cozinhar um beat‘. O Dokstranja, que é uma cena assim mítica do rap português… há poucas pessoas que conhecem mas as que conhecem falam com alguma nostalgia, porque foi um projecto que nunca aconteceu, basicamente só mandei uma maquete para o [José] Mariño. E eu cheguei a trabalhar naquele que seria o álbum de Dokstranja a sério, para lançar em 2013 ou 2014. Do qual aproveitei algumas músicas para este álbum. O “Sou Antigo”, que é provavelmente a música mais marada do Marlon Brando… o lado mais metafísico, místico. Lembro-me de nomes e depois sinto essa necessidade, mesmo que seja um projecto que faça lá em casa. Spit n’Image, que é uma coisa que só as pessoas mesmo próximas de mim é que conhecem, que era uma cena meio trip hop meio drum n’ bass com umas letras cantadas em inglês… também só quem andou no meu carro durante um certo período da minha vida é que ouviu aquilo [risos]. Um dia quem sabe faço uma recolha destas coisas todas e vou mostrar os meus projectos todos, pelo menos os que não perdi em vírus de computador [risos].

 


Ricardo Farinha

Ricardo Farinha

Jornalista. Colabora desde os 18 anos com várias publicações culturais — as rimas e batidas sempre foram inerentes à vida.
Ricardo Farinha