A entrevista de Loyle Carner à NME em 5 pontos

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] Direitos Reservados

Apesar de ainda continuar a borbulhar nos confins dos subterrâneos, o verdadeiro – e bom – hip hop tem sido salvo pontualmente por nomes mais poderosos, como forma de exemplo acerca do respeito que deve ser tido em relação à história da cultura musical urbana nascida no Bronx. De To Pimp A Butterfly a We Got It From Here… Thank You 4 Your Service, vão-nos sendo dados motivos, ano após ano, que nos levam a crer que a chama do hip hop ainda se mantém viva no mainstream. Mas o rap “a sério”, a um nível economicamente credível, não é só para quem já se encontra debaixo do spotlight. E há um grande número de jovens dispostos a seguir à risca as heranças de Bambaataa ou KRS-One.

Do Reino Unido, Loyle Carner afirmou este ano ser o exponente máximo da elevação da mensagem consciente e da batida clássica, que a NME descreve como “a melhor coisa que aconteceu ao rap britânico desde MF Doom”. Foi exactamente com a publicação inglesa que o rapper esteve recentemente à conversa, através da jornalista Leonie Cooper. Da entrevista daí resultante destacamos 5 curiosidades sobre o jovem Carner, cujo álbum de estreia Yesterday’s Gone nos deu motivos para sorrir e acreditar que a arte das palavras ainda está longe de cair em desuso.

 



[A maturação do álbum]

Desengane-se quem acha que a rápida ascensão de Loyle Carner é fruto de uma qualquer fezada de novato. Sim, o rapper inglês está longe de ser um veterano, mas Yesterday’s Gone é um minucioso trabalho de laboratório que foi levado a cabo ao longo de três anos. Não é por isso estranho que o projecto de estreia de Loyle Carner soe a obra prima, depois dos interessantes primeiros passos em torno de vários singles e A Little Late EP. “Eu tinha 21 anos quando o escrevi e gravei,” revelou o artista ao NME, enfatizando o o facto de “não ter querido ‘rebentar’ aos 21, pois seria deprimente.”

 



[A família primeiro]

É notável o sentimento de família presente em Yesterday’s Gone. É à sua progenitora que Loyle Carner vai buscar grande parte da sua inspiração e uma força extra para o trabalho que um rapper tem de desempenhar – dentro e fora do mundo da música. O ponto alto desta relação entre o performer e a mãe será certamente um momento protagonizado na última edição do Glastonburry, quando Loyle levou para o palco a mulher que o trouxe ao mundo: “Tinha de ser feito, queria que ela levasse a ovação que merece,” explicou o artista durante a conversa com Leonie Cooper. Merece isso e muito mais, já que Carner fez da sua mãe o principal motivo para aceitar ser a cara de uma campanha publicitária da Yves Saint Laurent – “Eles disseram-me, ‘vamos dar-te dinheiro suficiente para pagar a hipoteca da tua mãe’, e eu fiquei tipo, ‘sabem que mais? Eu faço-o!’”

 



[Meia dose de fama]

Às vezes o sucesso atinge quem menos espera obtê-lo, e Loyle Carner parece ser um desses exemplos e enfatiza a ideia de não querer virar uma super-estrela – apenas o quanto baste para se sentir bem sucedido. Sobre a nomeação para o Mercury Prize deste ano, cujo troféu foi arrecadado por Sampha, o rapper confessou: “Eu chorei, man. É o único prémio pelo qual me interesso, porque é realmente aquele em que tu não precisas de ganhar. É o único no qual só o facto de estares nomeado é em si um elogio. Mete-te em conversação, e ser uma parte dessa conversação é tudo o que eu sempre quis, não preciso ser o número um”. No decorrer da entrevista da NME, o rapepr elogia o compatriota vencedor e explica o porquê de querer evitar dar o salto para uma maior dimensão: “Nunca conseguiria lidar com isso, ir a todas as entrevistas e as pessoas dizerem-me ‘então, és o tal génio britânico de 2017.”

 



[Dar o exemplo]

Há um par de meses, o rapper protagonizou um acto fora do comum, não só no hip hop mas no universo da música em geral. Durante um concerto, Loyle exigiu que um homem presente na plateia abandonasse o seu espectáculo por ter reparado que este estava fazer comentários menos próprios para com um dos elementos femininos presentes no grupo que acompanha o britânico. “Não podes desrespeitar uma mulher que está no palco dessa forma,” contou Loyle. “Especialmente num espectáculo meu, onde tudo aquilo que eu falo é o quanto amo a minha mãe e como fui criado por mulheres.” Deixando ainda um alerta para a comunidade hip hop, que não deve tolerar este tipo de comportamentos: “As pessoas podem pensar ‘o que é que se podia esperar de um espectáculo de hip hop?’, e eu digo-lhes ‘é mesmo por essa razão que eu o expulsei, porque isso não é o hip hop.’”

Mas não é só na forma de fazer arte que o MC quer passar bons exemplos. Este ano ficou também marcado pela publicação do seu livro Dyslexia Is My Superpower (Most Of The Time), uma obra que foca o problema psicológico que lhe foi diagnosticado como forma de motivar os mais novos que sofrem do mesmo mal, muitas vezes marginalizados ou colocados de lado numa altura bastante precoce da vida: “As coisas podem ser uma merda e eu sei que se tivesse 12 anos e tivesse realmente a lutar contra isso ajudava-me imenso ter alguém 20 anos mais velho, fosse um rapper ou não, e que pudesse vir falar comigo tipo ‘o que gostas de fazer, o que não gostas de fazer, não te preocupes, esses miúdos não interessam, tu não és estúpido…’”

 



[O amor pelo futebol]

Uma das maiores particularidades de Loyle é a forte paixão que nutre pelo desporto rei na Europa. Aproveitando as viagens que a música lhe proporcionou, Loyle leva já uma grande colecção de equipamentos de vários clubes. Uma das maiores preciosidades que adquiriu foi um kit completo do equipamento alternativo da Inglaterra de 1990, que um dos seus fãs se propôs a oferece-lo enquanto moeda de troca para entrar num dos seus concertos. A reacção de Carner terá ido certamente além da expectativa do seu ouvinte. “Trouxe o gajo no autocarro. Ele pode ter tudo o que desejar – dentro do razoável. Ando a tentar ter esse kit há anos,” contou à NME.

Eniola Aluko, uma estrela do futebol feminino inglês, é uma das jogadoras que o jovem admira e com quem já teve a oportunidade de trocar algumas palavras. Porquê gostar de Eniola? Loyle Carner tem 3 fortes razões para o fazer: “Primeiro, ela joga futebol. Eu adorava que a minha filha jogasse futebol porque o futebol é de doidos e não deve ser um desporto de um só género. Segundo, ela enfrentou o seleccionador de Inglaterra Mark Sampson. Ele disse-lhe ‘espero que a tua família não traga ébola para Wembley’” (…) Terceiro, como o futebol feminino não paga dinheiro suficiente ela é também uma advogada. Joga futebol ao fim de semana e marca golos e, durante a semana, está a mandar gente para a prisão.”

 


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira