A batuta de Black Milk ao vivo e a cores no Musicbox

[TEXTO] Manuel Rodrigues [FOTOS] Sebastião Santana

Para além de notável rapper e produtor, responsável por um dos mais importantes álbuns do ano, Black Milk é também um exímio condutor de orquestras. Na sua passagem pelo Musicbox, ontem, em Lisboa, o artista de Detroit soube dirigir público e banda numa glamorosa viagem pelo seu universo de rimas e batidas.

Tudo começa com “Will Remain”, penúltimo tema do mais recente álbum, lançado a 23 de Fevereiro, isto depois de uma longa introdução instrumental ter servido de passadeira vermelha à entrada do músico em palco. É precisamente nesta altura que se fazem notar duas das importantes componentes do anfitrião: a do bloco previamente concebido e manipulado pelas suas próprias mãos, visto “Will Remain” recorrer a um sample de “Storm” dos Rare Silk, e a da estrutura construída na hora, garantida pela Nat Turner band, dividida entre baixo, bateria e teclas.

 



O trio que o acompanha é, aliás, um pilar fundamental do espectáculo proposto. As qualidades performativas de Curtis Cross são imensas, as suas rimas ricas e intensas, no entanto, é graças a Daru Jones (bateria), Aaron Abernathy (teclas) e Malik Hunter (baixo) que o conceito parte para outras paisagens que não somente as do hip hop, incorporando elementos de jazz e, em alguns momentos, explosão rock. Exemplo disso é a forma como o single “Laugh Now Cry Later” é interpretado, recorrendo a uma dinâmica digna de um clube de Nova Orleães, com Black Milk a cuidar de volume e cadência. O público deixa-se levar e reproduz a letra do tema na íntegra.

É digno de nota o entendimento entre as partes constituintes deste quarteto, que traz à memória aquelas bandas nascidas e criadas numa sala de conservatório. De camisa de manga comprida aos quadrados, com um look à anos noventa, e de toalha branca na mão, escudo para suor que lhe escorre em bica pelo rosto, resultado de uma performance efusiva que o leva a ficar apenas de t-shirt, Black Milk recorre à linguagem gestual para indicar os momentos de pausa aos seus companheiros. A dada altura, desce o volume geral para níveis próximos do silêncio, e assume a posição num sintetizador montado à direita de palco, através do qual explora algumas melodias, para, depois, requisitar um regresso vigoroso aos restantes instrumentos.

 



Todo este jogo de pergunta e resposta entre músicos e toda a linguagem corporal utilizada lembra, obviamente, as performances do colossal James Brown, cujo simples movimento de cintura se mostrava mais do que suficiente para liderar toda uma secção rítmica. “Give the Drummer Sum”, um dos últimos temas do alinhamento de ontem, retirado de Tronic, é uma página do legado deixado pelo “pai do funk”. As chamadas de Black Milk são prontamente correspondidas por Jones, cujo estilo deve uma costela a Clyde Stubblefiled e ao recentemente falecido John “Jabo” Starks, dois bateristas que ajudaram Brown na construção dos seus maiores êxitos.

Numa entrevista publicada no site Passion Of The Weiss, Black Milk afirmou encontrar-se, de momento, “a criar o seu próprio mundo”, numa competição sem adversários onde o objectivo é vencer-se a si mesmo. E que vitória a de ontem, onde temas como “Losing Out” e “Sound the Alarm” se fizeram entoar em uníssono por um público que, apesar de não ter preenchido o espaço na sua plenitude (o início da noite chegou, inclusive, a fazer temer o pior….), não deixou o maestro e a sua orquestra mal na fotografia. As manifestações fervorosas foram prontamente correspondidas por sorridentes saudações militares; a excelente prestação valeu a Black Milk uma bebida, oferecida por um dos elementos da plateia. Fácil.

 


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