A arte portuguesa não pode impedir o Brexit (mas também não vamos ficar calados)

[TEXTO] Alexandre Ribeiro [FOTOS] Ivo Lázaro & José Pando Lucas 

Avião, comboio e metro. Na sexta-feira, dia 28 de Julho, a chegada ao aeroporto de Gatwick transformou-se numa pequena demonstração da eficácia no universo dos transportes na capital inglesa e, como seria de esperar, a pontualidade britânica não desiludiu. Depois de deixarmos as malas no alojamento, a ida para a Old Truman Brewery, em Brick Lane, fez-se calmamente e, claro, com recurso ao Google Maps, essa ferramenta absolutamente essencial para o ser humano no séc. XXI. Estávamos no Festival Iminente, em Londres.

Dentro do espaço em que se realizou o certame, a sensação de estarmos em “casa” foi imediata. Cumprimentos em português, cerveja Super Bock e DJ Glue a abrir a pista, que se manteve vazia durante grande parte do tempo, tirando uma ou outra pessoa que arriscava ser o centro das atenções. As pessoas que compraram bilhetes dividiam-se para ver as instalações artísticas de Vhils, Bordalo II – que colocou um orangotango muito especial dentro de uma carrinha praticamente destruída – , ±MAISMENOS± – dono de humor mordaz que teve o Brexit como principal alvo, algo que podíamos constatar poucos metros depois da entrada – ou Wasted Rita, artista que criou uma espécie de quarto num contentor em que podíamos encontrar referências a SZA ou frases que são provocações audazes àqueles que acham que as concessões feitas nas últimas décadas são mudanças que resolveram o problema de desigualdade de género.

 


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Shaka Lion e DJ Big foram os protagonistas que se seguiram e os responsáveis por darem música às pessoas presentes no recinto. Do tropical, exótico e dançável ao trap, r&b e rap, os dois giradisquistas cumpriram a sua missão, mesmo que a sua função fosse pura e simplesmente proporcionar uma banda sonora àqueles que procuravam a arte visual.

É importante realçar a forte presença portuguesa, algo expectável: o público, os vendedores (grande parte) e a organização tiveram aí quota importante e essa foi a grande vitória de Vhils, o curador, o mestre, o artista que continua a valorizar o seu país, mesmo que tivesse sido preciso conquistar o reconhecimento fora de Portugal em primeiro lugar.

Antes da hora de jantar, apresentou-se uma dupla que tão bem se conhece, Francis Dale e Slow J. O Iminente arrumava as malas e passava para o palco “grande”, uma sala com uma aura underground.

O primeiro a assumir o palco foi Francis Dale, instrumentista de excelência que surgiu com Fred Ferreira na bateria. Entre Prince e James Blake, Diogo Almeida Ribeiro é um híbrido que pesca em tanto lado que, ao vivo, torna-se fascinante vê-lo a deambular entre estilos e até entre instrumentos, como a guitarra e as teclas. Tal como tantos outros que passaram por aquele palco, o cantor e produtor viveu em Londres, algo que decidiu sublinhar durante a sua actuação.

 


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No primeiro teste nessa sala, aconteceu algo que foi recorrente naquele espaço: as vozes do público a sobreporem-se em certos momentos ao que se passava no palco. Ou seja, o público parecia dividido em duas metades e ser composto pelos que queriam estar lá para conhecer a arte e os que marcaram presença para mostrarem que lá estavam nas redes sociais não se coibindo de revelar a sua indiferença durante algumas actuações, preferindo antes conversar em volumes pouco apropriados.

O grande nome do dia 1 era Slow J, artista que, recentemente, arrebatou todos aqueles que assistiram à actuação no Super Bock Super Rock 2017. A sala estava composta, até porque esta era a primeira oportunidade – para aqueles que vivem no Reino Unido – para assistirem ao vivo a um dos fenómenos recentes da música portuguesa. Sem o brilho de outros carnavais, mas com eficácia, João Batista Coelho, outro nome que também viveu em Terras de Sua Majestade, esboçou argumentos suficientes para deixar a plateia conquistada, recorrendo a The Art of Slowing Down como base para o alinhamento. “Nós aqui somos família”, garantiu a dada altura o MC e produtor.

A passagem para o pós-jantar, digamos assim, fez-se sem grandes sobressaltos – uma hora para comer uma bifana ou uma pizza italiana, tudo dentro do recinto. Os preços elevados que se praticam em Londres fizeram-se sentir também dentro do festival. Quem esperava encontrar uma cerveja Super Bock de 50cl a preços à la Cais do Sodré voltou certamente desiludido para casa. No entanto, isso era o menos importante: voltemos à música!

 


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O DJing e as suas diferentes abordagens foram o destaque até ao final do primeiro dia: DJ Ride deu um autêntico ensaio de porrada com drum’n’bass e hip hop enquanto demonstrava – é incrível o nível técnico do membro dos Beatbombers – as melhores formas de se dar o “corte”. Afinal de contas, um campeão do mundo sente-se em casa em qualquer lado…

Outro dos representantes nacionais com maior notoriedade fora de Portugal era Batida, projecto de Pedro Coquenão. A única presença física em palco foi a de Gonçalo Cabral, bailarino que dá uma dimensão superior a um espectáculo que é apresentado como The Almost Perfect DJ mas que, sem querermos substituir-nos ao artista em causa, bem poderia ser A Quase Perfeita Instalação Artística sem DJ. Qualquer coisa do género, vá. Entendendo o conceito do festival, a ideia de Batida encaixa que nem uma luva com um formato que já tinha resultado na edição em Oeiras.

Para finalizar o primeiro dia, Kking Kong e DJ Nigga Fox, dois representantes da electrónica dos subúrbios portugueses, trouxeram vida a uma cinzenta e chuvosa cidade – sim, em pleno Julho também chove em Londres.

 


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Apesar das temperaturas, a escolha de Londres como local para receber o Iminente não poderia ter sido mais acertada. “O local ideal”, contou Alexandre Farto em conversa com o Rimas e Batidas.”É uma cidade onde eu vivi entre 2007 e 2012, que teve uma enorme influência sobre mim numa altura importante do meu percurso. Neste sentido, a realização do festival em Londres pode ser vista como uma missão de dar algum retorno por tudo aquilo que a cidade me deu. A ideia é também levar algo desta nova cultura urbana que fervilha em Lisboa e no país até à comunidade portuguesa local, ao mesmo tempo que a promovemos junto de públicos estrangeiros. Este objectivo é importante para mim, não só porque mostra uma nova imagem do que Portugal é hoje como dá espaço e visibilidade a novos valores para exporem e revelarem o seu trabalho. Eu tive de lutar muito para ganhar o meu espaço, e isto é algo que faço com o prazer de simplesmente juntar um grupo de artistas e músicos de talento que eu admiro, numa celebração da cultura urbana. Por fim, dado este momento particular que vivemos na Europa em geral, e no Reino Unido em particular, faz todo o sentido alargar este âmbito ao espaço europeu e celebrar estas ligações sub-culturais que estabelecem uma verdadeira comunidade europeia”, acrescentou Vhils, demonstrando, mais uma vez, que a sua arte é apenas um reflexo de uma personalidade forte, criativa e socialmente consciente.

Partimos para o segundo dia.

Com algum tempo antes de regressarmos à Old Truman Brewery, parámos na Rough Trade Records, o paraíso para aqueles que procuram música e livros sobre, adivinhem, música. Da nossa parte, The Rap Year Book, de Shea Serrano, a edição de Agosto da Wire e The Beautiful Struggle, de Ta-Nehisi Coates, passam a integrar a colheita de 2017.

 


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Na mesma rua, a galeria da Underdogs era um ponto de paragem obrigatório, juntando o trabalho de alguns dos artistas visuais que expuseram dentro do recinto, estando uma série de peças disponíveis para compra com preços bastante acessíveis. Ter uma obra de Vhils ou de Wasted Rita em casa não é tão caro quanto se possa imaginar…

Com a chuva a dizer-nos olá desde o início do segundo e último dia, entrámos dentro da pista sonorizada por DJ Glue e DJ Big e, devido às condições atmosféricas, as pessoas, que apareceram em maior número no sábado, foram “obrigadas” a desfrutar da excelente selecção da dupla.

Para celebrar o melhor das rimas portuguesas, Chullage e Allen Halloween eram os nomes mais esperados do festival. Antes deles, Mai Kino, a artista que sofreu mais com o falatório da audiência na sala de concertos, actuou já fora do horário estipulado, atrasando todos os concertos que vieram a seguir. Apesar de ter conquistado reconhecimento internacional através da Pigeons and Planes, a verdade é que não se apresentou nas melhoras condições e a sua música perde bastante na passagem para o live act, deixando cair as camadas texturais que dão alguma força aos seus temas.

 


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Pediram real hip hop? Vhils “dá-vos” Chullage, o icónico MC da Arrentela que foi recebido com uma sala (quase) cheia. Acompanhado em palco por DJ Tayob e ainda pelo hype man Lowrasta, o membro dos Red Eyes Gang levou o público a vibrar com a sua prestação em que se destacaram dois autênticos hinos da sua discografia: “National Ghettografik” e “RhymeShit Que Abala” foram intensamente celebrados pela frontline. Curta e grossa, a recepção a Chullage foi das mais impressionantes no festival…

De seguida, a Bruxa assombrou, em estreia absoluta em Londres, a Old Truman Brewery. Allen Halloween, de carapuço a tapar-lhe metade do rosto, carregou o sistema de som com os instrumentais hip hop “apunkalhados” que trouxe na bagagem.

Com a sala cheia, as pessoas presentes demonstraram que a sua arte não tem país. O MC português entregou-se totalmente – no último tema, o artista meteu em cima do palco o máximo de pessoas que era possível – , e “Drunfos”, “Killa Me” ou temas de Híbrido marcaram quem decidiu sair da confusão londrina para se refugir no único Inferno em que conseguimos encontrar beleza.

Depois do final intenso, encontrámos Allen Halloween na outra sala do recinto, que na altura se encontrava vazia, a beber, transpirado e ainda ofegante a mostrar-nos que é tão humano como nós, mesmo que tantas vezes nos descreva como se nos conseguisse ver, física e psicologicamente, de um plano superior.

 


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Nova pausa e entrávamos na recta final do festival. E quem melhor do que Scúru Fitchádu para continuar o caos causado pelo idiossincrático rapper? Sem a concertina, mas repleto de energia, Marcus Veiga não se incomodou com a audiência, que reduziu para menos de metade depois de Halloween, e deu hell of a show, conquistando com o seu funaná punk todos aqueles que entraram desconfiados com a mistura pouco ortodoxa.

Comungando todos de um espírito familiar era comum encontrar os artistas a assistirem aos concertos uns dos outros. Vimos Chullage, DJ Glue e Mai Kino na plateia a apreciar os seus congéneres. Caras conhecidas do hip hop português como Black Mastah ou Bob da Rage Sense também marcaram presença no Festival Iminente e tornaram a palavra “família” ainda mais significante.

De malas e bagagens para a sala principal, DJ Glue “imitou” o parceiro DJ Ride e açambarcou a pista com um ensaio sobre a arte exímia de DJing, abrindo as portas para Novelist, o grande nome britânico do cartaz. Bem ao estilo do que aconteceu na noite C.R.E.A.M de Junho, o rapper do Sul de Londres descarregou sobre os presentes uma série de freestyles e, entre outros mimos, o seu verso de “Lyrics”, faixa original de Skepta. Ambiente sufocante num club pequeno, o mais próximo que tivemos de viver o verdadeiro espírito do grime.

 


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Tão perto do fim – enão queríamos que chegasse ao fim – , Rita Maia, LV & Joshua Idehen e DJ Firmeza foram electrónica, grime e batida de Lisboa, um trio que poderia, reza a lenda, revogar o Brexit. Ou não, mas não foi por falta de iniciativa, demonstrando que a mistura e a música são dois elementos que, num mundo alternativo, poderiam realmente mudar mentalidades.

A festa está fechada e o arraial português arrumou malas de volta para um país que (ainda) não virou as costas a uma comunidade europeia cada vez menos unida. Respondendo à pergunta lançada no título desta peça, não, a arte portuguesa não vai impedir que o Reino Unido saia da União Europeia. No entanto, fizemos o máximo que podíamos ao mostrar que o multi-culturalismo é a única forma de conseguirmos abrir mentalidades, corações e fronteiras, seja através do hip hop, electrónica, artes visuais e plásticas. Se Londres ainda não compreendeu isto pela sua experiência diária (!) com as diferentes raças, etnias, identidades e culturas, então é porque não existe salvação possível.

“A abertura, a interacção entre culturas, é sempre positiva. O Iminente procura celebrar tudo isto em comunhão com o Reino Unido e com o resto da Europa”, rematou Vhils, o comandante desta “missão humanitária”. O papel foi cumprido, mostrando uma cara portuguesa com as suas delicadas diferenças a coabitar em harmonia. Um exemplo a seguir. Mais não lhe podíamos pedir.

 


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Alexandre Ribeiro

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