9 coisas que aprendemos com a entrevista de Kendrick Lamar à Rolling Stone

[TEXTO] Ricardo Farinha [FOTO] Direitos Reservados

Poucas horas antes de um concerto esgotado em Duluth, no estado de Geórgia, nos EUA, Kendrick Lamar falou com a revista Rolling Stone a propósito do mais recente álbum, DAMN.. Ler as respostas do rapper de Compton é encontrar um homem inteligente — dotado de muita inteligência emocional —, constantemente a reflectir e a pensar, muitas vezes fechado em si mesmo. Uma pessoa madura, consciente e resistente a tudo aquilo por que já passou, desde a violência nas ruas aos melhores amigos condenados, passando pelo desafio que o sucesso mundial na indústria da música impõe.

Lamar fala de como sempre se deu com miúdos mais velhos, de como está habituado a lidar com situações traumáticas desde a infância, da importância que teve a presença de um pai — ao contrário da maioria dos amigos — ou da viagem que fez a África, onde encontrou um sítio onde achou que pertencia.

“Deu-me uma perspectiva completamente diferente sobre de onde eu sou. Sobre o que fazemos na cidade de Compton e de como o mundo é tão maior do que a cidade de Compton. E isso acompanhou-me para o estúdio.”

O derradeiro objectivo é simples, e é por isso que o rapper é tantas vezes visto como um preacher, um “monge” ou um “santo”, como lhe chamam na revista americana. “[…]Quero dar o máximo possível de mim, na esperança de passar à próxima geração, ou às próximas que forem, o conhecimento que tenho. Seja que situação fodida for, tudo se resume à evolução do homem. As pessoas vêem as coisas mal porque pensam que se trata da forma física. Não, é a evolução da mente. Enquanto me dedicar completamente ao meu potencial e a este dom, não há mais nada em que pensar. Durmo pacificamente.”

O Rimas e Batidas resume a entrevista em nove pontos-chave, que nos ajudam a compreender melhor DAMN. e o universo de Kendrick Lamar, o rapper que editou o terceiro clássico em cinco anos e que no estúdio é um autêntico maestro a dirigir a orquestra.

 



[O objectivo em DAMN.]

“O objectivo inicial era fazer um híbrido dos meus dois primeiros álbuns comerciais. Esse era o nosso foco total, como o fazer na sonoridade, nas letras, através da melodia — e saiu exactamente como o tinha ouvido na minha cabeça. São tudo pedaços de mim. A minha musicalidade tem-me guiado desde que tenho quatro anos. Ir do To Pimp A Butterfly para DAMN., podia ter batido e queimado se não fosse executado bem. Por isso tinha de ter muito cuidado naquilo que ia falar, em como o iria tecer.”

 



[A origem do single “HUMBLE.”]

“Na verdade primeiro foi o beat. O Mike Will enviou o instrumental. Só conseguia pensar em “The Symphony” [de Marley Marl] e nos primeiros momentos do hip hop, em que há uma simplicidade complexa. Aquele beat é a minha geração, neste momento. A primeira coisa que me veio à cabeça foi ‘Be humble’.”

O single foi lançado a 30 de Março e tem estado no topo dos rankings das canções mais populares do mundo. E para quem é que Kendrick diz para ser humilde, afinal? “Para mim, definitivamente. É o ego. Quando olhas para os títulos das músicas neste álbum, estas são todas as minhas emoções e eu a expressar quem sou. Por isso é que fiz um tema assim, onde não quero saber, e digo ao ouvinte ‘You can’t fuck with me’. Mas, no fundo, estou a olhar para um espelho.”

 



[Como é que Bono foi parar a DAMN.?]

Uma das colaborações mais surpreendentes de Kendrick Lamar nos últimos anos foi com os U2, a banda de Bono Vox, que participam em “XXX.”, do novo disco do rapper. Kendrick explicou à Rolling Stone como tudo aconteceu.

“Nós tínhamos um tema [diferente] que supostamente iríamos fazer juntos. Ele enviou, eu juntei algumas ideias, e não sabíamos para onde é que iria. Aconteceu que eu tinha um álbum para sair, por isso simplesmente perguntei: ‘Darias-me a honra de me deixar usar esta faixa, esta ideia que quero compor porque estou a sentir um certo tipo de [sintetizador] 808, uma certa batida’. E ele mostrou-se aberto para isso. O Bono tem tanta sabedoria e conhecimento, na música e na vida. Sentar-me ao telefone com ele podia ser durante horas. As coisas que ele tem feito pelo mundo, de ajudar as pessoas, é inspirador.”

 



[Sobre ser um artista pop]

Kendrick Lamar é muito elogiado pelo público tradicional do hip hop, por novos ouvintes que seguem as correntes mais contemporâneas do trap, e pelo público em geral, aquele que torna a música pop o que ela é. Lamar é um rapper conceituado dentro do meio, mas, além disso, tem um sucesso comercial inegável.

“É um desafio porque podes ter aquele grande tema, mas ainda assim manter a integridade. Não há muitos que o conseguem fazer [risos].Ter o pessoal do rap maluco com o álbum e ter um single no topo. Chama-lhe o que quiseres. Desde que o artista permaneça verdadeiro à arte do hip hop e à cultura, é o que é.”

O rapper diz ainda que já descartou vários temas com potencial para serem grandes singles. “Fiz coisas apenas como freestyle no microfone e podia ser uma potencial bomba, mas pelo bem da minha marca e de como quero que ela vá, às vezes tens de pensar a longo prazo, em vez daquilo que está mesmo à tua frente.”

 



[A importância do conceito de álbum]

A questão desses singles descartados leva-nos também à importância do conceito de álbum para Kendrick Lamar, que tem três obras-primas conceptuais com Good Kid M.A.A.D City, To Pimp A Butterfly e, agora, DAMN..

“Preocupo-me com o corpo do trabalho, não apenas um grande single. Venho dessa era. Não posso afastar isso, por maior que o streaming fique.”

 



[O estado do “liricismo” no hip hop]

A revista americana também questionou Lamar sobre o estado do “liricismo” — ou lirismo, para aplicarmos a palavra correcta — no panorama actual do hip hop, sendo que muitos artistas recentes têm sido criticados e acusados de passarem as letras e a mensagem para um segundo plano.

“Eu deixei a minha marca num ponto certo no tempo — 2011 e 2012, era aquela janela em que os fãs queriam lirismo. Provavelmente hoje conseguias chegar ao game com lirismo. Mas pode não ser tão respeitado, os tempos mudaram tão drasticamente.”

 



[É legítimo um rapper ter um ghostwriter?]

Historicamente, está implícito como uma das regras do hip hop, no livro sagrado de código nunca escrito, que um rapper não pode interpretar rimas de outros, como se fossem suas. Ou seja, ter alguém a escrever para ele — um ghostwriter. Kendrick já o foi, para Dr. Dre. É legítimo ter um dentro da cultura hip hop?

“Depende da arena em que te estás a inserir. Eu chamei-me a mim próprio o melhor rapper. Eu não posso chamar a mim próprio o melhor rapper se tenho um ghostwriter. Se te consideras um tipo diferente de artista e não queres muito saber sobre a forma artística de ser o melhor rapper, então que seja. Faz grande música. Mas o título não vai estar lá.”

 



[Porque não está Lamar a falar assim tanto de Donald Trump?]

Sendo Kendrick um rapper com consciência política e crítico do sistema, seria expectável que pudesse atirar mais farpas ao actual presidente dos EUA, Donald Trump, e às políticas que tem pretendido seguir. O MC explica porque não o tem feito, tirando alguns versos.

“É como bater num cavalo morto. Nós já sabemos o que aquilo é. Vamos continuar a falar sobre isso ou vamos agir? Chegas a um ponto em que estás farto de falar sobre isso. Tem um peso e tira-te a energia quando estás a falar de algo ou alguém que é completamente ridículo. Por isso, dentro e fora do álbum, decidi agir na minha própria comunidade. No disco, decidi não falar sobre o que está a acontecer no mundo ou das situações em que nos metem. Fala [contigo] sobre ti próprio; reflecte contigo mesmo primeiro. É a partir daí que vai começar a mudança inicial.”

 


[A ligação com o audiovisual]

Numa era em que os videoclipes são talvez tão importante como na época de ouro da MTV — se bem que, agora, a competição e a quantidade é enorme —, Kendrick tem-se destacado pela elaboração dos seus telediscos. Tem ajudado a realizar muitos deles, através do nome The Little Homies, com o colega Dave Free. A Rolling Stone perguntou se o rapper estaria interessado em interpretar um papel num filme, como actor.

“Sim, definitivamente. Mas tinha de estar 110000%  dentro. É uma habilidade, um talento que as pessoas aperfeiçoam com anos de ensaios. Eu entrar só porque sou o Kendrick Lamar… não vou aceitar essa palmadinha nas costas. Vou esperar até ter tempo para estudar a arte. Neste momento, estou a entrar mais no lado da realização.”

Acho que podemos dizer que todos gostaríamos de ver um filme realizado por Kendrick Lamar.

 


Ricardo Farinha

Ricardo Farinha

Jornalista. Colabora desde os 18 anos com várias publicações culturais — as rimas e batidas sempre foram inerentes à vida.
Ricardo Farinha