7 Dias, 7 Vídeos

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] Direitos Reservados

Era digital, informação à velocidade da luz. Vídeos e músicas a soçobrar pelas plataformas virtuais. Novidades emaranhadas entre si, confusão sónica, sentidos desorientados. Quem nos guia? Por onde vamos? Para onde vamos?

7 Dias, 7 Vídeos é o resgate audiovisual semanal no terreno do hip hop. Filtragem de qualidade, barreira contra a poeira que nos cega com tanto de novo, com tanto para espreitar e escutar.

 


[Lee Scott] “What If Lee Was A Lil Rapper? Wow, OMG”

“Eles querem mais do mesmo.” Lee Scott lançou uma sátira à nova vaga de artistas Lil’nãoseidasquantas. Mestres dos type beats e dos flows siameses, há cada vez menos curiosidade em espreitar os trabalhos da nova escola “fotocópia”, como diriam Karlon e Razat. O mais decepcionante desta “invasão” recai nos newcomers que estão realmente a trazer algo inovador, ficando esquecidos no meio desse oceano de inutilidade, tal a falta de originalidade.

Se Lee Scott fosse um desses Lil rappers? Bem, a salvação poderia começar por aí. Um dos MCs mais importantes na cena underground britânica, reconhecido pelos pensamentos fora-da-caixa, deambula entre o cru e o parvo, o sombrio e o alegre, mostrando que consegue adaptar a sua persona a qualquer contexto, seguindo sempre uma linha conceptual que faz a ligação entre o momento artístico que atravessa.

E se esses Lil rappers fossem como Lee Scott? A qualidade sobrepunha-se à quantidade. Os ad-libs descartáveis davam lugar a letras de maior profundidade intelectual, os assuntos triviais trocavam-se por sentimentos e opiniões verdadeiramente pessoais e os macaquinhos de imitação eram destronados por Artistas.

 


[U-God] “Epicenter” Feat. Inspectah Deck, Raekwon & Jackpot Scotty Wotty

U-God dá a volta ao mundo no seu novo videoclipe. Nada de novo para um membro dos Wu-Tang Clan, um dos colectivos com mais escola no panorama mundial do hip hop.

Uma viagem low-cost retratada no vídeo de “Epicenter”, já que nasce de um baixo orçamento de produção e apenas simula a passagem de U-God e dos colegas Raekwon, Inspectah Deck e do afiliado Jackpot Scotty Wotty pelos quatro cantos do globo. O reduzido custo deste pedaço de hip hop audiovisual nada implica na qualidade musical do tema, no qual os veteranos continuam a mostrar-nos os motivos pelos quais os devemos ter sempre em consideração quando o tema de conversa são os GOATs desta cultura.

O single apresentado esta semana pertence a Venom, o álbum a solo de U-God, dado a conhecer no final do mês passado. Method Man, Lord Finesse e DJ Green Lantern são algumas das colaborações conseguidas para o disco, que sucedeu a edição de RAW: My Journey into the Wu-Tang — o livro de memórias de U-God saiu no arranque do ano.

 


[Joyner Lucas] “Frozen”

Joyner Lucas está a levar muito a sério o conceito de rap consciente. Se Rui Unas, em conversa com Rui Miguel Abreu no seu Maluco Beleza, disse sentir falta dessa vertente do hip hop, este é um excelente ponto de partida para descobrir o que tem aparecido nesse registo.

Esta não é a primeira vez que o rapper puxa da inteligência para sensibilizar as massas: “I’m Not Racist” abordou a questão racial nos EUA e a remistura de “Gucci Gang” descortinou a falta de ambição artística por parte da nova escola do hip hop.

Para “Frozen”, Joyner Lucas procurou alertar o seu público para os perigos que se podem encontrar na estrada. A falta de prudência na condução pode ser devastadora e nada melhor do que a prevenção para evitar males maiores, irreversíveis na grande maioria das vezes.

 


[COLÓNIA CALÚNIA] “LOGO#2”

A saga de “LOGO” arrancou há um ano com VULTO. e L-ALI, que colocaram a Internet em sentido com versos de língua afiada e uma batida corrosiva, apenas ao alcance das mais insanas mentes do hip hop nacional.

“LOGO#2” veio ao mundo aquando a edição de YARIKATA, o último álbum do produtor pela COLÓNIA CALÚNIA, desprovido de qualquer assinatura no que toca ao seu autor. Aos visuais, com recurso ao útil motor gráfico do videojogo GTA V, juntam-se as insónias de uma voz anónima: “A gente prefere não pagar, é emprestado. Não fui eu, não é roubado. Posso levar, sem pagar, consignado. No futuro vou ter falta de ar, qualquer coisa adiantado. Droga cá, droga lá. ´Tar comigo é mau olhado.”

 


[Buddy] “Black” Feat. A$AP Ferg

Preparados para o disco de estreia de Buddy? O rapper de Compton conquistou o ano passado a confiança de Kaytranada, que lhe produziu os instrumentais de Ocean & Montana, um EP composto por cinco faixas. Seguiu-se Magnolia, também em 2017, que utilizou a mesma fórmula que o seu antecessor: desta vez foram os The Futuristiks que ficaram encarregues dos cinco beats nos quais Buddy apoia os seus versos.

O primeiro álbum da carreira do MC vai chegar-nos algures durante o Verão, sob a alçada da RCA Records. A$AP Ferg foi o convidado recrutado para o primeiro avanço desse projecto, cujo título não foi ainda revelado.

 


[Azure] “Bloodstream”

Azure é um rapper norte-americano descendente de uma linhagem de coreanos. Dividido entre Oakland e Los Angeles, dentro do estado californiano, Azure alinha nos colectivos Down 2 Earth e The HBK Gang.

“Bloodstream” é o primeiro single de um novo projecto a solo, que coloca o artista a apontar para uma estética sónica que visa contornar os standards do que a maioria dos newcomers teima em apresentar. O tema é composto por um drum break delicioso, complementado por uma linha de baixo à la oldschool e uma melodia de piano electrónico que aponta a outros pontos da galáxia, que ainda mal conhecemos.

 


[SABA] “LIFE”

Apesar dos seus 23 anos, SABA tem representado as cores do hip hop há quase 10. Tahj Malik Chandler popularizou-se após a forte colaboração com Chance The Rapper em “Everybody’s Something”, do aclamado Acid Rap. Os dois MCs partilham as ligações a Chicago e já se cruzaram em temas por diversas vezes.

A mais recente colaboração entre ambos ocorreu no âmbito de CARE FOR ME, o álbum que SABA editou durante a semana passada. É também de lá que salta este “LIFE”, agora apresentado no formato de vídeo, realizado por Danielle Derisse. theMIND e KAINA são os restantes convidados de CARE FOR ME, um disco no qual SABA também assinou a co-produção de todos os temas.

Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira