7 anos sem Guru, 7 rimas eternas

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTO] Direitos Reservados

Gifted Unlimited Rhymes Universal. Este é o significado do nome artístico de Keith Elam, ou Guru, a metade poética dos Gang Starr que desapareceu há exactamente sete anos, a 19 de Abril de 2010.

Guru foi um dos mais reputados MCs a ter emergido da chamada Golden Age, uma vez que os seus Gang Starr se estrearam em 1989 com o clássico No More Mr. Nice Guy. O trabalho que desenvolveu com DJ Premier, sobretudo na primeira metade dos anos 90 quando os Gang Starr assinaram clássicos como Step In The Arena,  Daily Operation e Hard to Earn, serviu de inspiração para gente como Talib Kweli ou Mos Def, expoentes da geração que se seguiria.

As suas rimas conscientes foram sempre acompanhadas por uma voz imediatamente reconhecível. E se não tinha um grande arsenal de flows, Guru compensava tal “falha” com um enorme carisma e um estilo único que ficou bem impresso em temas hoje tidos como fulcrais como “Just to Get a Rep” ou “Soliloquy of Chaos”. Além dos Gang Starr, Guru ainda experimentou com a associação do hip hop ao jazz e à soul no bem sucedido projecto Jazzmatazz em que teve a oportunidade de trabalhar com gigantes como Herbie Hancock ou Erykah Badu. Guru foi, enfim, aquilo a que se pode chamar um “rapper’s rapper”: um MC que outros MCs aspiram a igualar.

Em 2005, a propósito do álbum a solo Version 7.0 (The Street Scriptures), o primeiro registo pós-Gang Starr – duo que para todos os efeitos não voltou aos álbuns depois da edição de The Ownerz, de 2003 -, escrevi as linhas que se seguem:

Como o trânsito na segunda circular num fim de tarde de sexta feira, o flow de Guru também se move lenta e inexoravelmente em direcção à saída, emoldurado por beats sombrios de um tipo paradoxalmente chamado Solar. A lista de convidados é absolutamente primeira liga: B Real dos Cypress Hill e Styles P, Jean Grae e Talib Kweli. Mas quem brilha no escuro é mesmo Guru, com palavras feitas de tijolos sobre beats de concreto, onde a soul espreita a todos os momentos (e os Wings de Macca em “Hall of fame”…). Momentos de destaque? Mesmo sem Preemo, é difícil escolher: “Cave in” é um épico, tal como “Surviving the game” que loopa com classe o clássico “Cavern” dos Liquid Liquid, o mesmo das “White lines” de Grandmaster Flash. Mas o grão mestre aqui tem nome que também é sigla: Gifted Unlimited Rhymes Universal. Who else?…

De facto, Guru, voz carregada de alma e carisma que seria capaz de inspirar mesmo a recitar uma lista de compras, pertence a um tempo irrepetível, quando o hip hop ainda criava as bases de uma cultura que é hoje a mais visível à face da Terra. A sua arte foi, nesse sentido, profundamente experimental, precisamente porque testava os limites da expressão, porque procurava entender até onde podia chegar um MC armado apenas com rimas e com batidas, com um DJ atrás e um microfone na mão. Mas foi também, ao mesmo tempo, uma espécie de nova expressão folk, porque nascia de uma genuína cultura popular, desenhada nas ruas e nas caves das grandes cidades.

Os Gang Starr, quando comparados com a escala astronómica actual, nunca venderam muitos discos, mas, como famosamente rimou Posdnuous dos De La Soul em “Bionix”, o tema título do álbum do trio datado de 2001, se eu tivesse que me juntar a um gangue, esse gangue seria o de Primo e Guru:

And even though I sing it sick ’til I’m blue, I’m not a crip
So unlike non-GANG members I won’t C-walk to look hip
But if I had to join a gang I think I’d join GangStarr
Me, Guru and Primo with them beats for the car

Hoje, sete anos depois de Guru ter abandonado o planeta, recordamos sete razões para se proclamar a sua eternidade.

 



[GANG STARR] “JAZZ THING”

Em 1990, quando o hip hop ainda aprendia a lidar com a possibilidade de revisitar e, mais ainda, de reinventar o passado através do sampler, os Gang Starr contribuíram para a banda sonora da memorável declaração de amor de Spike Lee ao jazz – o filme Mo’ Better Blues – com o tema “Jazz Thing”, com Guru a pegar num poema de Lolis Eric Elie, jornalista e escritor que mais tarde ganharia notoriedade como editor das histórias da fantástica série televisiva Treme, e a transformá-lo num agudo retrato do jazz para a geração que se aproximava do novo milénio. Para esse tema, Premier trabalhou sobre uma base criada por Branford Marsalis, e isto três anos antes de Guru ter refinado a ideia do encontro do jazz com o hip hop no primeiro volume do projecto Jazzmatazz, retirando as lendas do sampler e colocando-as directamente no estúdio. Em cima do loop altamente rítmico cozinhado por Primo, Guru transforma o poema de Elie em jazz por via da respiração, verdadeira metafísica fonética, uma “coisa jazz” autêntica.

Now there’s young cats blowin’
And more and more people, yes, they will be knowin’
Jazz ain’t the past, this music’s gonna last
And as the facts unfold, remember who foretold
The 90’s, will be the decade of
A jazz thing

 



[GANG STARR] “JUST TO GET A REP”

Em 1990, mesmo ano de “Jazz Thing”, os Gang Starr editaram o clássico Step In The Arena, álbum incrível onde encontramos “Check The Technique”, “Who’s Gonna Take The Weight”, “Love Sick” ou este enorme “Just to Get a Rep”. Sobre um improvável loop de “E.V.A.” de Jean-Jacques Perrey (que fazia um tipo de Houston, Texas, nascido em 1966, a samplar um “moog record” de um velhote francês editado quando o futuro DJ ainda mal tinha aprendido a andar?), Guru pinta um retrato da violenta vida nas ruas, quando um miúdo faz o que tem a fazer só para obter uma reputação, só para poder sobreviver nas violentas ruas de uma América que nessa época encarava a cultura de gangues como uma verdadeira epidemia urbana. Sobre o pulsante baixo, a voz de Guru soa quase como o narrador de uma peça jornalística, seco e directo, como se não houvesse moral no retrato que apresenta: “o ouvinte pode tirar as suas próprias conclusões a partir do retrato que desenhámos aqui”, explicou o MC mais tarde sobre este tema. Verdade.

And little shorty with the .38, yo, he was inching
Closer and closer, put the gun to his head
Shorty was down to catch a body instead
Money was scared so he panicked
Took off his link and his rings, and ran frantic
But shorty said, “Now” pulled the trigger and stepped
It was nothing, he did it just to get a rep

 



[GANG STARR] “WHO’S GONNA TAKE THE WEIGHT?”

Ainda em 1990, ainda em Step In the Arena, sobre um insistente sample de Maceo Parker, Guru levanta as questões que mais tarde haveriam de inspirar a nomeação de episódios da série Netflux Luke Cage. Muito antes da América se erguer com o movimento #blacklivesmatter, Guru começa por declarar que foi criado como muçulmano e depois fala à sua própria comunidade, de dentro para dentro, e pergunta quem vai assumir a responsabilidade:

And ladies, these rhymes are like the keys to a dope car
Maybe a Lexus or a Jaguar
Still, all of that is just material
So won’t you dig the scenario
And just imagine if each one is teachin’ one
We’ll come together so that we become
A strong force, then we can stay on course
Find your direction through introspection
And for my people out there I got a question
Can we be the sole controllers of our fate?
Now who’s gonna take the weight?

 



[GANG STARR] “SOLILOQUY OF CHAOS”

Guru é, sobretudo, um storyteller, um contador de histórias que são retratos de um tempo, preferindo bastas vezes deixar a moral e as conclusões para o seu interlocutor directo, escrevendo o que sente nas entrelinhas das vívidas imagens que cria com palavras e um estilo que é quase declamatório. Neste sombrio “Soliloquy of Chaos”, do terceiro álbum dos Gang Starr, Daily Operation, de 1992, Guru não se abstém no entanto e declara que é a falta de exemplos positivos que conduz à violência e ao caos:

And if you live in the cities where the streets reek warfare
People getting nowhere but you go for yours there
You’ll find it doesn’t pay to front or play the role
You could get stole or maybe beat with a pole
Then you’ll wanna retaliate, regroup and come back
So you set the brothers up for a sneak attack
Whether you die or kill them,it’s another brother dead
But I know you’ll never get that through your head
Cuz we’re misled and misfed facts, we’re way off
Killing you and killing me,it’s the soliloquy of chaos

 



[GURU] “TRUST ME” ft. N’DEA DAVENPORT

No primeiro álbum do projecto Jazzmatazz, Guru reconhece o impacto que a cultura Acid Jazz, nascida da paixão de DJs pelos velhos discos de funk e jazz que o hip hop tinha aprendido a samplar, alcançou na Europa e estabelece então alianças com músicos e vocalistas do panorama britânico, como N’Dea Davenport dos Brand New Heavies que brilha neste “Trust Me”. Aqui, Guru, que já tinha sido mais “player” quando se movia de uma “ex-girl” para uma “next girl”, assume a paixão e a devoção pela mulher a quem pede confiança:

So now you know the flavor
It’s not about the stuff I gave ya
And my behavior is based on strong
Feelings I have, of you and me, it’s like a bond
A treasure, not to be corny but word
I wanna give you all the joy that you deserve
I know we argue, sometimes I start to annoy you
But we should never ever, try to destroy two
Hearts joined, intertwined with a passion
Give me a chance love, that’s all I’m askin
And furthermore, you can be sure that I’ll do
Every little thing you need, yes it’s true
I’m not desperate, but I’m the one for you

 



[GANG STARR] “MASS APPEAL”

O beat de Premier neste “Mass Appeal” é um pequeno milagre de luz e sombra erguido a partir de um microscópico sample de “Horizon Drive” de Vic Juris que é a mais clara prova do génio do produtor (como raio sobreviveu Primo aos primeiros três minutos e tal do suporífero jazz de fusão de Juris e descobriu aquele segundo e meio incrível naquele emaranhado de notas?…). A harmonia conseguida depois por Guru com aquele beat minimal é absolutamente impressionante e um hino ao que o hip hop significava para o mundo em meados dos anos 90: hardcore até ao tutano, o MC usa este tema para condenar os que diluíam a sua arte em busca de maiores probabilidades de sucesso numa mostra de clássico “ego trippin'” que é mel para os ouvidos:

But I get props like a slogan
And no man could ever try to diss when I kicks my jam
Lyrically def and connectin’, complete mic-wreckin’
No double-checkin’, vocals kill like weapons
But if I have to, I go all out with no mic
Yeah, that’s right, cause I survived mad fights
And for my peeps I truly care
Cause without some of them I wouldn’t be here
And they all know how I feel
Cause suckers be like playing themselves to have mass appeal

 



[GANG STARR] “YOU KNOW MY STEEZ”

Sobre um sample “chopped” (mas não necessariamente “screwed”) de Joe Simon, apareciam em 1998 aquelas drums massivas que só Primo parecia saber equalizar e não havia quem não se sentisse em casa: “The real hip hop, mcing and djing from your own mind, you know?” Claro que sabíamos. Continuamos a saber aliás. Aqui, Premier está apaixonado pelo som da sua própria voz, desfiando rimas que para pouco mais servem do que testar a paciência dos “wack MCs” que eram o saco de pancada preferido do hip hop na segunda metade dos anos 90. É também, à sua maneira, um hino ao hip hop, com os samples de Grandmaster Flash, de Public Enemy ou Das EFX a reforçarem a ligação a uma cultura de que, sem a menor sombra de dúvida, neste tempo, os Gang Starr eram mesmo um dos expoentes: “On the microphone, you know that I’m one of the best yet”, exclamava Guru, porque, como se percebia, ele tinha “the lyrical full clip, giving you a verbal asswhip”. Word!

Dropping lyrics that be hotter than sex and candlewax
And one-dimensional MC’s can’t handle that
While the world’s revolving, on its axis
I come with mad love and plus the illest warlike tactics
The wilderness is filled with this
So many people searching for false bliss
I’m here with the skills you’ve missed
The rejected stone is now the cornerstone
Sort of like the master builder when I make my way home
You know my steez

 

RIP Keith Edward Elam, aka GURU.

 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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