5 versos memoráveis de Joey Bada$$

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] Direitos Reservados

A vida de um MC não é fácil. Que o diga, por exemplo, Eminem, artista habituado a estar sempre na linha da frente do pelotão e um dos mais dedicados escribas hip hop. Apesar do sucesso comercial — que também já teve melhores dias –, o rapper atravessa uma fase delicada da carreira e tem dado voltas e voltas para tentar corresponder ao nível que os fãs e críticos lhe exigem.

Now take your best rhyme, outdo it, now do it a thousand times“, canta a estrela de Detroit no primeiro avanço de Revival, “Walk On Water”. Uma tarefa ingrata que obriga um artista a rasgar folhas do seu caderno à procura da “melhor rima de sempre”.

De “N.Y. State Of Mind” a “Dead Presidents”, de “C.R.E.A.M.” a “Hypnotize”, os versos criados nos arredores de Nova Iorque estão repletos de significados que ficarão para sempre gravados na memória colectiva. Três dos exemplos anteriores partilham até o mesmo berço: o tão famoso bairro de Brooklyn, onde também cresceu Joey Bada$$, uma das mais recentes sensações do hip hop da costa este norte-americana.

Num trajecto em que cabem dois álbuns, três mixtapes e um sem-número de colaborações — “rockstar”, o novo single viral de Post Malone, tem o seu cunho — , o MC já foi protagonista de um generoso número de versos que de alto gabarito. Temas que certamente gostaríamos de recordar ao vivo na sua passagem pelo Sumol Summer Fest, uma maneira de guardarmos as palavras num registo bem mais íntimo e personalizado, ficando com a recordação de Badmon a declamar a sua poesia a poucos metros de distância.

Percorrendo grande parte da sua obra, o Rimas e Batidas destaca cinco versos que nos fizeram levar as mãos à cabeça.

 


[Joey Bada$$] “95 Til Infinity”

“And we smoking, toking potent herb
Preaching spoken words that just might poke your nerves
Hope you ain’t scared, my jeep go “Scrrrr”
I peep the obscured, and what ain’t normally easy to observe
I swear I’m born abnormally absurd
If I give you a piece of mind, you’ve been disorderly disturbed
That’s my word, flip similes and verbs, now I’m eating
Retreating for seconds and thirds, y’all niggas seasoned”

Numa clara alusão ao clássico “93 Til Infinity”, dos Souls Of Mischief, Badmon também quer deixar bem claro que os seus versos ficarão gravados na história e perdurarão pela eternidade. Uma das entradas num tema mais excitantes da estrela da Pro Era, repleta de multies e uma mensagem clara: através do seu forte jogo de palavras é capaz de nos demonstrar toda a sua sapiência em grande estilo.

 


[Joey Bada$$] “Paper Trail$”

“Yo, sitting back plotting, jotting information on my nation
Really started from the bottom, boy cotton
But they still planting plantations, we keep buying in
Closed-minded men
Pride is higher than the prices on your Pradas and Balenciagas Balance my saga with the Henny agua
Me and my niggas tryna eat, you pussies empanada
The flow like plenty lava
With just a penny I could multiply my worth
And make you work for me for twenty hours”

Como discípulo de mérito na escola do boom bap, não podia faltar a Bada$$ uma batida do mestre DJ Premier. Com uma nova arrancada em grande potência, “Paper Trail$” fala da longa caminhada que leva um rapper até chegar perto do dinheiro e todos os males que dele advêm.

Neste conjunto de rimas, o MC explora o conceito de “Started From The Bottom”, de Drake, enfatizando o sentido da frase com a expressão “rapaz-algodão”, levando-o a olhar bem para o início da “sua” história, quando o povo africano era ainda maioritariamente escravo nas plantações do homem caucasiano. O esquema deste pensamento conclui-se com o facto de Badass considerar que essa escravatura ainda existe, embora não tão visível, com a forte presença do consumismo na geração afro-americana, cuja mentalidade se prende à aquisição de bens de marca para sinalizar a ostentação.

 


[Joey Bada$$] “Christ Conscious”

“Motherfuckin’ microphone eater
Spittin’ hot shit, hit ya dome with the heater
Wouldn’t want to be ya, dish lyrical fajitas
Got dragon balls like my name was Vegeta”

Também de B4.DA.$$, o disco de estreia do rapper de Brooklyn, “Christ Conscious” é a bandeira da elevação máxima que Joey pretende que as suas rimas tenham. O “[Jesus] Cristo [do rap] Consciente”.

A temperatura sobe com o calor desta segunda quadra, ameaçando todos os seus oponentes de os conseguir derreter no meio da arena, com versos tão quentes quanto a cozinha tradicional mexicana, tipicamente conhecida pela quantidade de picante utilizado nas suas receitas.

Perto do final do único e extenso verso do tema, cuja batida é uma das melhores criações de Basquiat, o rapper abre as portas do céu a todos os produtores que tiverem munições para a sua arma vocal ditar a lei e avisa-os: “Give me that beat and I’ll put you next to Dilla.”

 


[Joey Bada$$] “Hardknock” feat. CJ Fly

“Too much pressure, God bless ya when the semi wet’cha
They told me “more dress-up” I’m giving too many lectures
And I’m putting in too many effort in my nouns and verbs
Like “they gon’ catch up” fuck what you must heard!”

Foi na recta final da sua adolescência que Joey se apresentou ao mundo com a mixtape 1999. Um projecto que nos dava a conhecer um MC promissor inserido numa crew repleta de talento. Liricamente, “Hardknock” é um dos casos em que o lado mais criativo de Badmon vem ao de cima, com uma valiosa ginástica fonética ao fazer surgir “ketchup” em “they gon’ catch up” e “mustard” em “must heard”. Melhor: reparem no destaque que ele dá ao seu próprio esforço na terceira linha…

 


[Joey Bada$$] “5 Fingers of Death Freestyle” @ Sway In The Morning

“I said first off, how can I say this all politely?
Fuck the publications dawg, they don’t really like me
Took me out their conversations, never did invite me
And any allegations as to why are unlikely true
And I got way more to prove, but this a statement or two
To be set for such wanksta dudes, I’ve been patient too
Made me more ill-dope for real
Name another Brooklyn cat, major without a deal”

No dia 23 de Março de 2016, Joey Bada$$ aproveitou a ida ao Sway In The Morning para colocar alguns pontos nos “Is” e transformar o clássico “5 Fingers of Death” numa extensa montra de rimas, protagonizando sete versos inéditos no programa de Sway Calloway, divididos por sete instrumentais diferentes. Na segunda sequência, o rapper da Beast Coast atira-se às publicações que não apreciam os seus dotes e dá inicio a um combo de rimas direccionadas a Troy Ave, como resposta ao beef iniciado pelo MC, também de Brooklyn, que se estende por quase todo o vídeo.

Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira