4 Your Eyez Only de J. Cole a quente e sem rede: uma audição faixa a faixa

[TEXTO] Amorim Abiassi Ferreira

 

Qualquer primeira escuta é um assunto delicado e, para ficar esclarecido, sou um céptico quanto às minhas impressões após ouvir pela primeira vez um novo trabalho. Ao contrário de um filme, um disco é um objecto a ser repetido com bastante frequência e, pessoalmente, considero que preciso de ouvir um projecto duas ou três vezes para considerar o que realmente escutei. Contudo, é sempre bom ter um desafio novo e estas são as minhas reacções à primeira audição de 4 Your Eyez Only de J. Cole.

 


[“For Whom The Bell Tolls”]

Introduções cantadas são uma especialidade de J. Cole. Esta não escapa com a sua sonoridade mais melancólica e trompetes que aquecem a produção, mas na qual a letra dá o alerta: “Do I wanna die? I don’t know!”

 


[“Immortal”]

Jermaine leva-nos num flashback com um beat minimalista que recorre a samples invertidos. Uma escolha adequada para o recuo no passado e que estabelece a morte como um dos temas do projecto. Violinos pontuam a entrada no outro do beat produzido por Frank Dukes & Cardiak.

 


[“Deja Vu”]

O primeiro pedaço amoroso do disco, ao som de um sample de “Swing My Way” de K.P. Envy, é daquelas músicas que para já me passa ao lado, mesmo que goste bastante do refrão que parece estranhamente alto em relação ao resto da música.

Vinylz, produtor desta música, alegou no Twitter que este beat foi roubado pelo produtor que o deu a Bryson Tiller e com que este criou a “Exchange”. Pela altura em que Bryson pegou no beat, “Deja Vu” já tinha sido gravada.

 


[“Ville Mentality”]

Sobre uma instrumentação jazzy, o cantor canta-nos sobre os seus planos de reforma antecipada recorrendo à repetição numa música que dá vontade de ouvir ao sol e de olhos fechados.

 


[“She’s Mine Pt. 1”]

Uma dedicatória que refuta o pensamento suicida com que o álbum começa. Deixando a percussão de lado até quase ao final e recorrendo apenas a teclados e cordas, este é um bom exemplo que mostra a habilidade de J. Cole em criar faixas melodiosas. Uma canção comovente.

 


[“Change”]

Saímos do tom melodioso e entramos na primeira faixa produzida pelo próprio. O instrumental, que embora tenha um atitude mais bouncy, está longe de ser memorável e a letra, que toca num tópico pesado, está longe de ser cativante.

 


[“Neighbors”]

Em “Neighbors”, J. Cole emprega um dos seus flows mais interessantes até agora para contar a forma como se sente olhado por quem vê o seu sucesso e o associa ao narcotráfico. Os samples invertidos são um elemento frequente neste álbum e marcam a sua identidade reflectiva. Entendo a escolha, mas não acho que seja o suficiente para fazer alguma das músicas ficar na cabeça. Não tenho dúvidas de se adequa a um mood nocturno.

 


[“Foldin Clothes”]

Aparentemente, a minha queixa foi ouvida. Esta é a minha produção favorita do disco, com a sua combinação de baixo saturado, guitarra e coro. Também assinada por J. Cole em colaboração com Steve Lacy, esta é mais uma faixa romântica que usa a partilha de tarefas domésticas como prova irrefutável de amor. Contudo, o final justifica o tom assumidamente lamechas da letra.

 


[“She’s Mine Pt. 2”]

A continuação da dedicatória: agora aponta para a filha recém-nascida e que podemos ouvir em samples ao longo da faixa. Por esta altura, é-me bastante claro que 4 Your Eyez Only é dedicado ao olhar da filha numa música que, embora não surpreenda, é bonita na sua simplicidade.

 


[“4 Your Eyez Only”]

Uma linha de baixo, um breakbeat e um trompete são os principais instrumentos da canção mais longa do disco. A música de fecho é coerente ao resto do projecto, que se esquiva a qualquer pretensão de querer passar na rádio. Não há aqui hits óbvios, mas sim uma vontade do autor de deixar o registo mais pessoal dele para um dia mais tarde a filha poder ouvir. Quem sabe se vai ser essa decisão que vai fazer este disco envelhecer melhor.

 


Amorim Abiassi Ferreira

Amorim Abiassi Ferreira

Copywriter comprometido com a descoberta e partilha de música. Gosta mais deste propósito do que de café e quem o conhece sabe que isso é uma declaração séria de amor.
Amorim Abiassi Ferreira