Em 2017, precisamos de continuar a falar de machismo no hip hop

[TEXTO] Núria [FOTO] Direitos Reservados

 

“I’m calling my black woman a bitch / I’m calling my peoples all kinds of thing that they’re not” Wu-Tang Clan – “Wu-Revolution” em Wu-Tang Forever (1997)


Quando o Rui me convidou para fazer parte do projecto Rimas e Batidas, já no final deste ano, aceitei na hora. Fiquei felicíssima e senti-me a riscar mais um dos desejos da minha bucket list: ter a possibilidade de escrever sobre música, sobre um género que tem vindo a ganhar uma relevância gigante nas minhas playlists e um gosto ainda maior nos meus ouvidos. Posso escrever sobre Brasil, pensei, é um espaço que ninguém ocupa e ter tido São Paulo como morada, ajuda. Uma melómana, louca por hip hop e musica brasileira, a dar de volta a uma cidade e um país que lhe deu muito. Perfeito.

Fiz o trabalho de casa: passei pelo site, li os artigos, vi vídeos, playlists, podcasts. Parcerias, contactos, fichas técnicas. Nenhuma mulher. Sou a única mulher aqui? Espera. Sou mesmo a única mulher aqui. Dois sentimentos: o primeiro, reptiliano, de privilégio. Uau, sou a única mulher aqui! Que máximo. O segundo, depois da festa: é claro que sou a única mulher aqui. O hip hop é um mundo de homens; para me lembrar que a um nível macro, o mundo é um mundo de homens. Talvez não seja assim tão fantástico.

Antes que me interpretem mal: o Rimas e Batidas tem uma equipa excelente composta por profissionais empenhados a levar para a frente um projecto único. É a minha equipa. No entanto, representa e dá voz a um dos géneros musicais que mais projecta desigualdade de género e, no final da linha, manifestações abertas de sexismo.

Um género e uma indústria da qual eu, e muitas mulheres (bem-vinda, Alexandra!), queremos muito fazer parte por todas as coisas boas que representa e, claro, pela amor à arte.

Há espaço para nós?

 



2016 foi o ano em que MC Carol e Carol Conká lançaram “100% feminista”: um hino ao empoderamento do género, uma revolta, de dentro para fora. Um virar da mesa num país onde a taxa de feminicídio é a quinta maior do mundo. Em Portugal, morrem duas mulheres por mês vítimas de violência doméstica.

 


“Presenciei tudo isso dentro da minha família / Mulher com olho roxo, espancada todo dia / Eu tinha uns cinco anos, mas já entendia / Que mulher apanha se não fizer comida / Mulher oprimida, sem voz, obediente / Quando eu crescer, eu vou ser diferente”



Mas, deste lado do oceano, 2016 foi também o ano que começou com a polémica “Azar da Belita” de C4 Pedro com a participação de Força Suprema.

 


“Mas quando eu te agarrar vais te arrepender / Mamawê / Sou rei da coloca / Estas a me dar baile /Não vou te perdoar, jamais! / Aceita agora, aceita / Porque depois vai ser pior / Esse é o azar da Belita, aceita”



O verniz estala quando a apresentadora Rita Ferro Rodrigues, dada a crescente popularidade de C4 Pedro, chama a atenção para o apelo à violência e abuso presentes na letra. A Belita não pode dizer que não, naturalmente. Nem ela nem aquela uma em cada 14 mulheres que já foi, pelo menos uma vez na vida, vítima de abuso sexual por alguém que não o seu parceiro, segundo a ONU. C4 Pedro pediu desculpa. Retirou a música do ar. Pediu que não a partilhassem.

 



Relembrar que também Emicida já se viu envolto em polémicas por conta da faixa “Trepadeira”, lá atrás em 2013. Na altura, o MC também optou por lançar um comunicado em que procura esclarecer todas aquelas pessoas que se tinham sentido ofendidas com o teor da canção, parceria com Wilson das Neves.

 


“Enquanto eu dava uma ripa / Tru, azeda o caruru / Os manos me falavam que essa mina dava mais / Do que chuchu / Ai é problema, hein, você é loco”



Se C4 Pedro se redimiu, já os Força Suprema parecem ter achado que talvez não tivessem passado muito bem a mensagem. Este ano, lançam o single “Serias Tu” extraído do álbum E a União Fez a Força.

 


“Não reclama, tu escolheste mulher / Atura / You already know whassup / Já foi bem pior, hoje o pescoço cheira a Ralph / Num porsche a ouvir Anselmo Ralph / Eu mando em ti e tu mandas na house / Não te estiques baby”



O que dizer? Que a música é um dos pilares mais importantes da vida de um adolescente, homem e mulher? Vamos novamente falar de como são importantes os nossos ídolos e como todas estas mensagens nos definem ou vamos continuar a relativizar dizendo que “é só uma música” e que não molda a forma como, milhares de crianças que ouvem, diariamente, o fenómeno angolano nas escolas, se comportam? 2016 a terminar e nós ainda a “bater no ceguinho”.

Feliz seria eu se pudesse dizer que os exemplos que trago se mantém “fora de casa”. Que, “bem, é menos mal porque “apenas” veiculamos mas não contribuímos com peças sexistas para o catálogo nacional.” Nesse caso estaria errada ou, no mínimo, muito surpreendida por ver sair “Só Badalhocas”, da promessa de 2016, Mike El Nite.

 


“Achas-te pausada, vais ter que ser beliscada / Puta tu tens menos estilo que água destilada / Só curtes estar na linha com uma linha esticada / Quando inspiras não me digas que estás constipada / À parte diz, adoro o teu kit cénico / És mais superficial do que um penso higiénico”



E há quem vá mais longe. Há quem diga que as mulheres não podem fazer parte do hip hop porque hip hop e feminismo não combinam, como se as mulheres precisassem de autorização, hoje, para ocupar qualquer espaço, na vida ou na arte. “Em casa”, Capicua relembra-nos todos os dias disso.

 



Este não pretende ser um artigo que enumera todos os momentos em que o hip hop foi machista; seria difícil. Mas um que faz questão de dizer que estamos e estaremos cada vez mais atentas porque em 2016 ainda é preciso ter cuidado com o que se pisa. Em 2016, ainda foi preciso um filtro para escolher o hip hop que eu, enquanto mulher, posso ouvir. Que 2017 seja diferente, já que nenhuma de nós está interessada em dançar ao som do machismo.

 



[No momento em que escrevia este pedaço de esclarecimento, a Bjork lançava uma carta aberta sobre o sexismo de que foi alvo pela imprensa musical]

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