20 músicas de rap crioulo para o arranque do ano

[TEXTO] Ricardo Farinha [FOTO] Direitos Reservados

A história do rap crioulo em Portugal é praticamente tão antiga quanto a do rap feito em português — apesar de ser difícil traçar um percurso que começou nas ruas, com rodas de improviso e instrumentais igualmente feitos com a boca e as mãos. Nomes como TWA, Nigga Poison ou Da Blazz foram alguns dos primeiros a fazerem discos e a deixar uma marca mais profunda na história.

Ao longo dos tempos, sempre num meio mais subterrâneo do que o hip hop feito em português, o rap crioulo tem-se — de forma silenciosa — desenvolvido em quantidade e qualidade, muito por causa do crescimento de uma segunda geração de imigrantes de Cabo Verde. Nos últimos anos, a massificação das redes sociais e dos videoclipes trouxe um crescimento mais rápido a este género do hip hop nacional. Mesmo com as consequências da crise económica, que obrigou a que muitos se tornassem novamente imigrantes e procurassem uma vida melhor em Londres, Paris, ou no Luxemburgo, por exemplo, o rap crioulo não tem coordenadas geográficas obrigatórias e tem superado quaisquer tipo de barreiras físicas, desenvolvendo comunidades e nichos próprios onde quer que exista.

Se, anteriormente, era um género mais ligado ao boom bap e à descrição de uma realidade dura dos bairros — sempre com excepções à regra, claro —, tem-se deixado influenciar tanto pelas sonoridades contemporâneas do trap como pelas batidas quentes do afrohouse, que tem resultado, em geral, num aligeirar dos temas retratados. Para este arranque de 2017, o Rimas e Batidas faz uma playlist de 20 músicas essenciais de rap crioulo dos últimos meses, no dia em que Landim, Loreta, Né Jah e Baby Dog sobem ao palco do Titanic Sur Mer, no Cais do Sodré, em Lisboa.

 


[Landim] “Agrada Só Bó” e “Akréscimu”

Um dos artistas mais consistentes e regulares do género, Landim virou-se no último ano para as sonoridades trap, deixando, para já, as batidas do boom-bap — numa viragem que parece geral. No entanto, talvez continue a ser uma excepção por manter os mesmos temas nas letras, da vida difícil nos subúrbios da capital. A mixtape Trap’S’DramaVol. 2 chegou em Setembro, de onde também vem a faixa “Akréscimu”.

 



[Baby Dog] “Medicina”

Há vários anos que Baby Dog tem sido um nome bastante presente no meio. Dotado de uma energia contagiante e de flows irreverentes, o rapper editou este ano a mixtape Nada Cata Muda, cujos temas irá apresentar no Titanic Sur Mer.

 


[Loreta] “Panda”

O MC da Linha de Sintra tem sido um dos maiores nomes do rap crioulo em Portugal, com várias actuações internacionais e uma série de lançamentos de qualidade. Nos últimos tempos, também se tem dedicado ao trap e revelado algumas faixas soltas. Uma delas é “Panda”, onde rima sobre o beat que Desiigner tornou mundialmente conhecido.

 


[Deezy feat Loreta] “Kandengue Atrevido”

A primeira prova inequívoca de que as sonoridades africanas — cada vez mais em voga na Europa — também contagiaram o rap crioulo, mesmo que estas batidas possam ser mais oriundas de Angola, Moçambique ou Guiné-Bissau, não sendo assim um regresso às origens cabo-verdianas. Nesta faixa remisturada da mixtape Ovelha Negra, Deezy — protegido da Força Suprema — convida Loreta para rimar sobre uma malha afro-disíaca.

 


[Smeks feat Né Jah] “Pustura d’um Soldado”

Mas ainda nem todos se renderam ao trap e há quem prefira o kick e a tarola — com um sample melódico por cima — a servir de tapete rolante para cuspir em crioulo. Esta é uma das últimas colaborações de Né Jah, um dos melhores a aliar o flow natural cantado do rap crioulo às rimas pesadas, e um autêntico mestre a fazer refrões. O músico também actua esta noite no Titanic Sur Mer. A faixa de Smeks é do EP Organiza, lançado em 2016.

 


[Elji Beatzkilla feat GhettoSupastars] “Kuale Ideia”

O maior hit do momento do rap crioulo, lançado há cerca de um mês. O rookie Elji Beatzkilla convidou os GhettoSupastars — neste caso, Honat, Katanga e Apollo G – para participarem numa faixa festiva com um instrumental feito por si com uma batida afro. A influência de Deejay Télio não podia deixar de chegar ao rap — afinal, os bairros e parte do público são partilhados. A ligação Sintra-Cascais que nem precisa de passar por Lisboa.

 


[Karlon feat Chullage, Valete e Maria Tavares] “Foi Sodade”

Um dos pioneiros do rap crioulo em Portugal continua a inovar mais do que a grande maioria dos seus pares. Desta vez, e como nos contou numa longa conversa, Karlon foi recuperar as raízes cabo-verdianas do funaná ou da morna para fazer o seu novo álbum, Passaporti, editado em Dezembro. “Foi Sodade” é uma recriação e homenagem de “Sodade” de Césaria Évora, já que o rapper que pertenceu aos Nigga Poison não conseguiu obter a autorização para usar samples do tema original.

 



[Rahiz] “Prop Cool”

O músico que antes assinava como Celso OPP também lançou no fim de 2016 o seu novo álbum, Bilingual a Viagem. Rahiz é um artista completo: tanto rappa como canta, e tem uma sonoridade trap que também bebe bastante dos ritmos africanos.

 


[Apollo G] “Si K Sta”

Apollo G é um dos mais talentosos rappers da nova escola. O MC que viveu no Reino Unido absorveu anglicismos para fundir com o crioulo e também uma apresenta sonoridade fortemente ritmada mas que ao mesmo tempo celebra a modernidade contemporânea do hip hop. “Si K Sta” é só um dos vários singles de sucesso que o rapper lançou da mixtape Robin Hood.

 


[Piruka feat Mota JR] “Ca Bu Fla Ma Nau”

Depois de dois anos a crescer rapidamente e a acumular hits, Piruka fez a sua primeira colaboração com um rapper que rima em crioulo, Mota JR, e a Internet enlouqueceu. Já soma quase sete milhões de visualizações no YouTube e bastante airplay em rádios mainstream como a Cidade. “Ca Bu Fla Ma Nau”, do álbum Aclara, é o principal elo de ligação entre o grande público e o rap crioulo no momento. “Crioulo ou português/É a mesma cultura”.

 


[Mota JR] “Danger”

E quem disse que era preciso ter origens de Cabo Verde para rimar em crioulo? Ainda bem que Portugal é um país naturalmente mesclado e que celebra a sua multi-culturalidade. Mota JR adoptou o crioulo como a língua para rimar e também tem sido um caso de sucesso no meio. Apesar de ter sido gravado em 2014, “Danger” é o mais recente exemplo disso por ter chegado com vídeo ao YouTube.

 


[K.K] “Pa Bó”

O colectivo K.K tem-se afirmado como um dos mais activos e com mais qualidade do rap em crioulo em Portugal. Uma sonoridade na corda bamba entre o boom-bap e do trap, recurso ao auto-tune para tornar os refrões mais melódicos mas muito espaço para as barras a sério. Here’s Johnny faria um dos melhores discos de sempre do rap crioulo se pegasse nestes rapazes que, ainda assim, não têm estado mal servidos.

 


[Vado feat 2Much] “Limite é na Céu”

Com a participação de 2Much, “Limite é na Céu” é a faixa mais soulful e melódica desta playlist ReB. É o novo single de Vado, com um instrumental das Katana Produções.

 


[Timor] “Nhor Deus Libran”

Pertencente ao colectivo Kova M, Timor já nos tinha contado que começou a rimar com amigos de infância no Bairro da Horta Nova, em Lisboa. Só depois se mudou para a Cova da Moura onde se formaram os Kova M, que fizeram várias digressões internacionais. “Nhor Deus Libran” é o primeiro single do seu futuro disco a solo, Sacrifícios. No trap tem referências como Niska, Alonzo ou SCH, mas Tupac é a sua maior inspiração de sempre.

 


[Dsk Family] “Sta Claro”

Outro colectivo consistente do meio são os Dsk Family. “Sta Claro” é um dos singles da nova mixtape Apenas Pensamentos, com um instrumental épico e orquestral.

 


[Dani G] “Objectivos”

Dani G é já um dos rappers veteranos do rap crioulo, sendo representante da MiraSquad, grupo do Miratejo, apontado como o local do nascimento do hip hop em Portugal. “Objectivos” é uma das faixas da mixtape Hard Core Vol. 2, prevista para sair em breve.

 


[Tchoras MC] “Midjor Ki Hoji”

Directamente da Linha da Azambuja, Tchoras MC é outro bom valor. Enérgico e com flows variados, o single “Midjor Ki Hoji” foi lançado há três semanas.

 


[Mji feat ABROV] “Où Est Ce Qu’elle Est”

Como dissemos no início do texto, o rap crioulo português não se limita a quaisquer coordenadas geográficas. O rapper da Reboleira ABROV está a viver no Luxemburgo e fez um tema com Mji, um MC local. O vídeo foi feito pelo igualmente desprendido a países Yannick Monteiro.

 


[Lass G] “Drama”

Prova disso é que de repente estamos em Londres, no Reino Unido, com um vídeo feito pelo mesmo realizador. Notoriamente (bem) influenciado pelo trap norte-americano, Lass G também junta a língua inglesa ao crioulo e é o que mostra em “Drama”, a última faixa desta playlist.

Ricardo Farinha

Ricardo Farinha

Jornalista. Colabora desde os 18 anos com várias publicações culturais — as rimas e batidas sempre foram inerentes à vida.
Ricardo Farinha